Brasil

Esse cara não sou eu

Redação DM

Publicado em 4 de abril de 2017 às 01:48 | Atualizado há 9 anos

Eu estou envelhecendo, graças a Deus. Nos países desenvolvidos as crianças e jovens respeitam os “mais velhos”, afinal, compreendem o óbvio, que só envelhece quem não morreu e, o mais trágico, que a morte não escolhe idade, esta é a razão pela qual os idosos têm primazia, até nas mesas, nos países orientais, voltando, apesar de estar envelhecendonão aprendo mesmo, preciso, literalmente, “criar vergonha na cara” e enviar uma foto atualizada, pois esse cara, aí da foto, não sou eu. Faz tempo, mais de sete anos que eu fui assim. Os meus cabelos crespos, outrora grisalhos e mantidos sempre aparados, por motivos óbvios, estão enormes, branquíssimos e, emendados à barba, se é que se pode chamar isso de barba, fizeram-me envelhecer mais dez, quinze, vinte anos e, então, eu vou arrancar essa cabeleira eisteana, essa máscara de cabelos brancos da “cara”, para atualizar a tal foto, mas, para tanto, terei que fazer uma das coisas que eu mais detesto na vida. Eu acho que o misericordioso leitor vai pensar, ou, pior, prosseguir pensando, que eu estou exagerando, que é ridículo, desculpa, preguiça, mas, é sério, por tudo que é sagrado, detesto, tenho ojeriza de ser fotografado. Fotografar é comigo mesmo, eu gosto, aliás, “adoro” tanto que, na época das  “vacas gordas”, quando presidi a empresa em São Paulo, gastei um bom dinheiro comprando rolos de filme para fotografar, principalmente os meus filhos. Colocávamos os rolos de filme dentro das câmeras, com todo o cuidado para não queimar, o tal filme, a primeira ou, as primeiras chapas, ou seja, sem expô-los à luz, aí clicávamos 12, 24, 48 vezes, dependendo da quantidade de “chapas” nos rolos, quanto maior a quantidade, lógico, mais caro era o rolo, aí, depois de tanto rolo, retirar o rolo, com muito cuidado, também, mandávamos “revelar”, na mesma empresa que havia-nos vendido  o rolo de filme, torcendo, rezando, durante os dois, ou três dias de espera, pela tal “revelação”, para não ter queimado nenhuma chapa, ou, nenhuma foto e, antes que eu me esqueça, a tal da “revelação”, também era cobrada, lógico e, lógico também, estamos relembrando a década de 80, 90, quer dizer, é o mesmo que comparar a carta com o e-mail, enfim, tenho caixas e mais caixas de fotos dos meus filhos, familiares e lugares e, se, correr tudo bem, com as cirurgias que farei nas vistas, pretendo organizá-las e, quiçá, até partilhá-las com os amigos. Quando eu era criança, no século, ou melhor, no milênio passado, os mais antenados viviam dizendo que, no próximo milênio, tudo estaria na ponta dos dedos, num click. Até.

 

(Henrique Dias , escritor)


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