Cotidiano

Empregos ameaçados

Redação DM

Publicado em 27 de janeiro de 2017 às 00:46 | Atualizado há 1 ano

De acordo com um estudo liderado por Michael A. Osborne e Carl Benedikt Frey, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, 47% dos empregos estão “em risco” de serem automatizados nos próximos 20 anos. A mecanização, até hoje, foi a maior razão para o desaparecimento de empregos. Essa tendência não foi estancada, no entanto. Ao invés de um futuro de crescimento de trabalhos, os economistas preveem mais perdas conforme a inteligência artificial, a robótica e outras tecnologias continuam a ser introduzidas.

A pesquisa examinou mais de 700 tipos de ocupação, observando os tipos de tarefas que os trabalhadores desempenhavam e as habilidades necessárias. Ao ponderar esses fatores, bem como os obstáculos de engenharia que atualmente impedem a informatização, os cientistas avaliaram o grau em que essas ocupações podem ser automatizadas nas próximas décadas.

Aparentemente, ninguém está a salvo: desde trabalhos em transporte, logística e apoio administrativo até ocupações dentro da indústria de serviços, que só pareciam aumentar, são todos altamente suscetíveis de diminuírem.

Um especialista da Escola de Negócios Wharton da Universidade da Pensilvânia, nos EUA, Art Bilger, formou uma organização sem fins lucrativos chamada Working Nation para combater o “desemprego estrutural”.

Sua missão é alertar o público e ajudar a fazer planos para proteger as pessoas desta tendência preocupante. Não só o conceito de emprego está prestes a mudar de forma dramática, mas essa tendência é irreversível. “O capitalista de risco convocou corporações, academia, governo e outras organizações sem fins lucrativos para cooperar na modernização de nossa força de trabalho”, afirma Bilger.

A mecanização sempre custou empregos, mas sempre abriam outras novas oportunidades. O tear mecânico, por exemplo, acabou com os tecelões. Mas também criou empregos. Mecânicos eram necessários para manter as máquinas, maquinistas tinham que fazer peças para elas, trabalhadores tinham que cuidar delas, e assim por diante.

Muitas vezes, aqueles em uma profissão podiam simplesmente trocá-la por outra. No início do século 20, por exemplo, os automóveis estavam tirando negócios dos ferreiros. Ninguém mais precisava de ferraduras, mas de mecânicos sim. E eles já possuíam boas habilidades.

No entanto, não vai ser tão simples com esta nova tendência. O desemprego hoje já é significativo na maioria das nações desenvolvidas, e só deve piorar. Até 2034, os trabalhos de nível médio serão, em grande medida, obsoletos. Até agora, os benefícios só foram para os ultra ricos, ou seja, os 1% detentores da maior riqueza do mundo.

Fim da classe média

Em outras palavras, a revolução tecnológica pode acabar com toda a classe média. Não só os computadores serão capazes de executar tarefas de maneira mais barata do que as pessoas, como serão mais eficientes também.

Ninguém está a salvo: contadores, médicos, advogados, professores, burocratas e analistas financeiros podem perder espaço para computadores capazes de analisar e comparar dados para tomar decisões com muito menos chance de fraude ou erro de diagnóstico.

Não só estas pessoas estão em apuros, como a tendência também deve congelar os salários dos poucos que continuarem empregados, enquanto as diferenças de renda só aumentarão.

Não adianta tentar parar a mecanização e a informatização. Conforme os países usam essa tecnologia para ganhar uma vantagem competitiva, outros vão querer adotá-la para não ficar para trás. A bola de neve já começou a descer a colina.

Soluções propostas

Uma solução proposta é uma renda básica universal distribuída pelo governo, uma espécie de linha de base que as pessoas receberiam para sobreviver.

Depois disso, programas de reeducação podem ajudar o povo a encontrar novas atividades, como se dedicar a empreendimentos criativos. Poderia até ser uma época de florescimento da humanidade, quando, em vez de perseguir notas de cem, as pessoas perseguiriam suas verdadeiras paixões. Soa utópico? De fato, pode ser. Mas algo ainda precisa ser feito.

Bilger crê que é necessário reformar o sistema de ensino em sua totalidade, incluindo a adição de classes que ensinem as habilidades que os trabalhadores precisarão para os empregos que estarão disponíveis no futuro. Ele também acha que adultos terão que ser mais flexíveis e reentrar nas salas de aula.

Hoje, o problema, como alguns afirmam, não é que não haja empregos suficientes, mas que não há trabalhadores qualificados para preencher as posições disponíveis.

Se for mesmo assim, este problema só vai crescer. Por exemplo, será que motoristas profissionais de caminhões ou táxis vão realmente encontrar um lugar na nova economia voltando a estudar para se habilitar para outras atividades, uma vez que veículos autônomos se tornem a regra? Ninguém realmente sabe. Como qualquer mudança importante na sociedade, provavelmente haverá vencedores e perdedores.

 

Stephen Hawking realiza previsões para o futuro

“A inteligência artificial e a automação crescente vão dizimar os empregos da classe média, agravando a desigualdade e arriscando uma reviravolta política significativa”. Esta é a previsão de uma das pessoas mais inteligentes do planeta, o físico Stephen Hawking.

Em uma coluna no jornal The Guardian, o físico mundialmente famoso escreveu que “a automação das fábricas já dizimou empregos na manufatura tradicional, e a ascensão da inteligência artificial provavelmente estenderá esta destruição do trabalho profundamente nas classes médias, com somente os cargos de mais cuidado, criatividade ou de supervisão permanecendo”.

Ele acrescenta sua voz a um crescente coro de especialistas preocupados com os efeitos que a tecnologia terá sobre a força de trabalho nos próximos anos e décadas. O medo é que, enquanto a inteligência artificial vai trazer aumentos radicais na eficiência na indústria, para as pessoas comuns isso se traduzirá em desemprego e incerteza, conforme seus empregos humanos sejam substituídos por máquinas. A tecnologia já destruiu muitos empregos tradicionais de fabricação e da classe trabalhadora, mas agora pode estar pronta para causar estragos semelhantes às classes médias.

Rápida substituição

Um relatório publicado em fevereiro de 2016 pelo Citibank em parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido, previu que 47% dos empregos nos EUA estão correndo risco de automação. No Reino Unido, 35%. Na China, incríveis 77%. Três das dez maiores empresas ou órgãos públicos empregadores do mundo já estão substituindo seus trabalhadores por robôs – a Foxconn, que faz a manufatura de produtos da Apple, do Google e da Amazon, a rede de supermercados Wallmart e o Departamento de Defesa do EUA – órgão com o maior número de empregos do mundo, já anunciaram avanços nesta área.

A automação “por sua vez irá acelerar a já crescente desigualdade econômica em todo o mundo”, escreveu Hawking. “A Internet e as plataformas que possibilitam que pequenos grupos de indivíduos tenham enormes lucros ao empregar pouquíssimas pessoas, isso é inevitável, é um progresso, mas também é socialmente destrutivo”.

Ele enquadra esta ansiedade econômica como uma razão para o aumento da política populista e de direita no Ocidente: “Estamos vivendo em um mundo de ampliação, e não de diminuição, da desigualdade financeira, no qual muitas pessoas podem ver não apenas seu padrão de vida, mas a sua capacidade de ganhar a vida, desaparecendo. Não é de admirar, então, que eles estão à procura de um novo acordo, que Trump e Brexit poderiam ter aparecido para representar”.

Combinado com outras questões – sobrepopulação, mudança climática, doenças – estamos, Hawking adverte ameaçadoramente, no “momento mais perigoso no desenvolvimento da humanidade”. A humanidade deve se unir para superar esses desafios, diz ele.

Stephen Hawking já expressou preocupações sobre a inteligência artificial por uma razão diferente – ela poderia ultrapassar e substituir os seres humanos. “O desenvolvimento da inteligência artificial poderia significar o fim da raça humana”, disse ele no final de 2014. “Os seres humanos, que são limitados pela lenta evolução biológica, não poderiam competir, e seriam substituídos”, conclui ele.

 


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