Brasil

O agronegócio cumpre a sua missão

Redação DM

Publicado em 17 de janeiro de 2017 às 01:15 | Atualizado há 10 anos

Eu tinha tudo para me projetar no jornalismo político. Filho de político, meu pai foi prefeito por várias vezes em Araguatins. Suas iniciativas mais arrojadas eram tomadas após ouvir os companheiros de partido (PDS) e outras lideranças da sociedade. Atanásio de Moura Seixas transformou Araguatins com tantas obras. Luz elétrica, escolas, sede da prefeitura, mercado municipal, postos de saúde, cais do porto, aeroporto, estradas interligando a sede do município aos povoados foram construídos em seu tempo.

As lideranças políticas de Conceição do Araguaia, no Pará, convidaram meu pai para ser candidato único. Ele optou por ficar em Araguatins. Entrou na política como um comerciante próspero. Na prefeitura ficou pobre porque as verbas públicas, às vezes demoravam, e ele retirava do próprio bolso para quitar dívidas. Aí está Iris Rezende Machado, prefeito de Goiânia, para confirmar o que digo.

Por que digo isso. Para responder que “tinha tudo para me projetar no jornalismo político” e não no econômico. Ou, mais precisamente, no agronegócio. Então repórter de O Popular, fui inspirado por Joaquim Câmara Filho a atuar nos temas agropecuários. É bom que se diga que jamais conhecera pessoalmente um dos fundadores do jornal que inicialmente concorreu com a Folha de Goiás, dos Diários Associados. Seu Jayme e Rebouças Câmara foram do meu tempo.

Com o regime militar perseguindo jornalistas políticos, e atuando sob a editoria de assuntos gerais, como é hoje cidades e polícia, de Jávier Godinho me passava pautas ligadas à saúde e ao abastecimento. Seu Jayme já havia me recomendado a sempre inserir nomes completos em determinados assuntos. Na sua visão, o jornal serviria de consulta. Folheando jornais mais antigos guardados de forma criteriosa, descobri que Joaquim Câmara Filho apreciava escrever artigos ligados à agricultura. Soube depois que ele fora secretário da Agricultura.

Assim, fui despertado um tema importante no jornalismo. Produzir alimentos, matar a fome de gente e de animais. Como o salário do jornalista nunca foi compensador igual mais ou menos o de professor, sempre trabalhando por ideal, o Domiciano de Faria deixa a função de assessor de Imprensa da Faeg. A entidade era então presidida por Feliz Eduardo Curado. E me convida para o seu lugar. Acompanhei a sucessão de Ruy Brasil Cavalcanti Júnior, Antônio Flávio Lima, Paulo Seronni, João Bosco Umbelino dos Santos e Macel Felix Caixeta.

Com duas rendas, a vida era facilitada. E ainda mais do que isso: aprendi no dia a dia a vida de quem produz. Passei, ainda, pela Acar e Emater, vi o que é ser produtor.

No segmento do leite, o recolhimento do gado no curral começa à tarde pelo marido, mulher e filhos, se o tiverem, numa pecuária do pequeno produtor. Se dos médios para grande, os peões costumam proceder a essa operação. Pela madrugada, os pequenos produtores se locomovem para o curral para tirar o leite. Bezerro apartado e após a coleta, este se junta à mãe para mamar. Na média e grande produção, há sistemas de coleta automática e de resfriamento. A produção varia conforme a propriedade, qualidade do gado, alimentação, clima, entre outros fatores. A média nacional está em torno de cinco quilos diários. Numa propriedade com gado de origem européia, a produção vai além de 50 litros por vaca/dia.

O Brasil comporta diferentes modelos e tamanho de propriedade. Pessoalmente, não gosto de termos como agricultura familiar para definir tamanho. Blairo Maggi, atual ministro da Agricultura, toca soja em sua fazenda no Mato Grosso. É familiar. Por aí se vê. As safras nacionais são crescentes. Para este ano, a safra estimada é de 215 milhões de toneladas e o PIB do agronegócio pode crescer 2% nos próximos 12 meses.

Como Goiás e de resto todo o Centro-Oeste foi descoberto pelos bandeirantes em busca de esmeraldas e ouro, há pioneiros produtores que rompem os sertões e matas para produzirem alimentos. No meio urbano, poucos sabem que nessa tarefa, sofrem as adversidades climáticas, malária e outras doenças, picadas de cobras. A família passa por sacrifícios que não estão no gibi. Implantam cidades novas, asseguram as fronteiras brasileiras. Geram e mantêm empregos.

O agronegócio não é somente plantar, cuidar dos cultivos, colher e vender.  É muito mais. Sem o agro, o trator deixaria de existir e em consequência a própria indústria e o comércio. E com o caminhão a história se repetiria. E as feiras, supermercados, navios levando carnes, grãos, frutas para outros países? Quantos negócios, dinheiro girando, graças à lavoura, graças à pecuária.

A economia nesses anos de vacas magras é sustentada pelo PIB do agronegócio. A pesquisa agropecuária oferece novas tecnologias para que os produtores dobrem a produção. Sem precisar derrubar uma árvore. Ao contrário, a Embrapa leva até o produtor sistemas onde se trabalha junto a lavoura, a pecuária e a floresta. Nesse enredo entra as Emateres disseminadas nos estados. Mais mão de obra, mais especialistas do agro. E vem gente atacar o segmento. Ou falta conhecimento ou discernimento mesmo.

Enfim. Para mim, o jornalismo que escolhi demonstra a escolha certa. Como é bom defender um pessoal que sofre como um desvalido de sol a sol, que diariamente contribui com a comida em nossa mesa. Só tenho que agradecer.

 

(Wandell Seixas, jornalista voltado para o agro, bacharel em Direito e Economia pela PUC-Goiás, ex-bolsista em agropecuária pela Histradut, em Tel Aviv, Israel, e autor do livro O Agronegócio passa pelo Centro-Oeste)

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