Política

As chances de Caiado

Redação DM

Publicado em 17 de janeiro de 2017 às 01:00 | Atualizado há 10 anos

Vestindo roupa branca, sob o sol calcinante do verão baiano, o senador goiano Ronaldo Caiado caminhou os oito quilômetros que separam a bela igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, em frente à rampa dos saveiros, até o hierático santuário do Senhor do Bonfim, no alto de uma colina da Ribeira, no final do ístimo de Montserat.

A procissão do Bonfim é a primeira grande festa religiosa do ano em Salvador. Dela participam todos os que têm importância na Bahia. O finado Antônio Carlos Magalhães, mesmo claudicante, fazia a caminhada, muitas vezes ladeado por Jorge Amado, batendo altos papos com ele enquanto caminhavam. Além dos bacanas, da alta burguesia, da intelectualidade acadêmica e dos literatos boêmios, participam da procissão o poviléu, capoeiristas, sambistas, saveiristas, rufiões e marafonas, bicões em geral e turistas de toda parte do mundo. As estações locais de TV mostrando tudo.

Parece que Caiado virou devoto das divindades populares. Podemos apostar que ele estará segurando a corda do Círio de Nazaré, que estará caminhando na Romaria do Divino Pai Eterno, e que dará pinta na festa do Muquém. Será com certeza visto em Aparecida do Norte. Quem sabe não comerá uma suculenta fogaça na festa da Aquiropita, no Bixiga, em São Paulo?

Para quem deseja ser candidato à presidência da República, é de rigor aparecer nesses festivais religiosos instituídos pelas classes populares. Dá visibilidade. Pinga no postulante um molho populista discreto. Da primeira vez que se candidatou à Presidência, ele tentou vender a imagem de líder valentão das classes produtoras, o homem da fala grossa que mostrou à Constituinte quem manda no Brasil quando se trata de agronegócio.

A aventura de Caiado, naquela ocasião, serviu apenas para lançá-lo no mercado eleitoral goiano. Como político conservador, não agradou às assim chamadas “elites”. A burguesia e o latifúndio gostaram muito mais de Fernando Collor de Mello, mais sofisticado, mais antenado com as tendências da economia global.

Apesar de todo o esforço para aparecer bem na fita, o departamento de marketing de Caiado anda falhando. Nada daria mais visibilidade a ele do que aparecer na Marquês de Sapucaí por ocasião do desfile das escolas de samba. Mas ele teve que implicar com o samba-enredo da Escola de Samba Imperatriz Leopoldinense. Ele não gostou do sambista ter imputado ao agronegócio o desmatamento da Amazônia. Os breganejos goianos Zezé di Camargo e Luciano serão destaques no Salgueiro este ano. Ótima oportunidade para badalar. Mas, depois da gafe, com que cara Ronaldo Caiado vai dar mais uma de bicão?

Ronaldo tomou as dores dos desmatadores da Amazônia. Não precisava. Samba-enredo é o tipo de coisa que tem existência fugaz. Não dura um ano. Muitas vezes, já caiu no esquecimento mal a escola entra na Praça da Apoteose. Mas, ao profligar o samba da Salgueiro, acabou ajudando a escola a promovê-lo. Atiçou uma geral curiosidade sobre o dito samba. E se a Imperatriz ganhar a disputa – o que é plausível, pois se trata de grêmio carnavalesco do primeiro time -, aí então o tal samba poderá até virar o hino de uma revolução ecológica. E Caiado, se for candidato à presidência da República, não terá voto no Rio de Janeiro, que é um dos maiores colégios eleitorais do Brasil.

Por que o carioca votaria em quem não gosta de samba? Como cantou Caymmi, quem não gosta de samba é ruim da cabeça ou doente do pé. E bom sujeito não é! O eleitor carioca, que tem pendor para votar em candidatos de esquerda, não votaria em Caiado ainda que ele patrocinasse alguma escola de samba. De resto, o carioca direitista terá a opção de votar em Bolsonaro, um que, sejamos justos, está bem à direita de Caiado. O voto dos cariocas reacionários é de Bolsonaro, ninguém tasca.

A grande questão, porém, é: por qual partido Caiado será candidato a presidente da República? Pelo DEM é que, talvez, não. O senador controla autocraticamente o DEM goiano, mas, em nível nacional, não tem o domínio da legenda. Quando insinuou, muito ao de leve, que Temer deveria renunciar, Agripino Maia o desautorizou.

O DEM nacional não tem um nome de peso para lançar em 2018, embora Caiado venha se esforçando para ganhar substância. A tendência da sigla é, mais uma vez, repetir a aliança com o PSDB. Afinal, não faz sentido mexer em time que está perdendo. O DEM deverá indicar o candidato a vice-presidente em uma chapa a ser encabeçada ou por Alckmin, ou por Serra, ou por Aécio.

Do ponto de vista eleitoral, o nome mais forte do PSDB é Alckmin. Ele é governador de Estado, é o tucano que melhor pontua nas pesquisas e joga na disputa o peso do eleitorado paulista, em geral conservador.

Pode ser, no entanto, que Caiado esteja querendo se cacifar para ser indicado candidato a vice-presidente de algum tucano. Pode ser. Mas, aí, terá que rodar muito o Nordeste e tentar desbancar ACM Neto. O herdeiro da oligarquia Magalhães está com tudo e não tá prosa. Foi muito bem reeleito prefeito de Salvador, a mais populosa capital nordestina. O jovem ACM recebeu nas urnas uma esmagadora consagração. Se depender dos tucanos, principalmente de Alckmin, ACM Neto será o candidato a vice. A cúpula do DEM também se inclina pelo baianinho. Não vai ter para Caiado.

O PSDB também estuda a possibilidade de uma aliança com o PMDB. O partido do presidente Temer nunca foi capaz de construir uma candidatura presidencial deveras competitiva. Mas possui a maior estrutura partidária do País. Sempre elege a maior ou a segunda maior bancada do Congresso Nacional. Seu peso é tamanho que foi só pender para a oposição e o governo petista cair. Esteve em todos os governos de Fernando Henrique Cardoso, que, mesmo não vendo os peemedebistas com bons olhos, deu-lhes espaços no poder. O PMDB estabiliza, ou desestabiliza. Ruim com ele, pior sem ele.

Há vozes tucanas que acham que uma coligação com o PMDB seria preferível, do ponto de vista eleitoral, ao DEM. Formariam uma chapa imbatível, desde que o nome escolhido não estivesse maculado por acusações de corrupção. Apesar de escasso, esse tipo de político ainda existe no PMDB, acreditem!

Uma chapa PSDB/PMDB deixaria o DEM com duas opções: entrar na coligação aspirando uma fatia menor de poder, ou disputar com candidatura própria. Ocorrendo a segunda alternativa, Caiado teria alguma chance de disputar, pois talvez ACM Neto não quereria renunciar à Prefeitura de Salvador para se lançar em uma aventura eleitoral. Caiado, com mais seis anos de mandato pela frente, não teria nada a perder. Pelo contrário. Ganharia aquela visibilidade que reforçaria seu nome para o governo do Estado em… 2022.

Em todo caso, sendo ou não candidato, as chances de Caiado eleger-se presidente são mínimas. Ele não pontua bem nas pesquisas de opinião. Está marcado como político de direita com inflexão para o campo do reacionarismo. O eleitor brasileiro, em geral, foge dos extremos ideológicos. Pode às vezes inclinar-se para a esquerda, mas nunca deixando o centro. Pode inclinar-se mais à direita, todavia permanecendo perto do centro. O Centro e sua periferia imediata estão congestionados de candidatos, todos com forte apelo popular. E ali Caiado não está.

Com reduzidíssimo tempo de TV, carimbado como candidato das forças reacionárias, Caiado teria ainda que disputar a preferência dos reaças com o capitão Bolsonaro. O capitão leva sobre Caiado a vantagem de ser bem-humorado, carismático, vivaz. Além, é claro, de gostar de samba, pois é carioca.

No frigir dos ovos, ele vai acabar mesmo é sendo candidato a governador de Goiás, se tanto!

 


“Para quem deseja ser candidato à presidência da República, é de rigor aparecer nesses festivais religiosos instituídos pelas classes populares”

 

“O DEM nacional não tem um nome de peso para lançar em 2018, embora Caiado venha se esforçando para ganhar substância”

 

 

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