A propósito de um encontro holístico em Goiânia
Redação DM
Publicado em 15 de janeiro de 2017 às 00:07 | Atualizado há 2 anosQual é a tendência inata no ser humano? O conhecimento. A curiosidade natural pelo saber. Essa curiosidade pode ser condicionada ou espontânea. Condicionada pela cultura, pela tradição ou pela ideologia dominante de uma determinada sociedade. Ou espontânea, numa forma eleita pelo próprio indivíduo, que procura aprender com a vida, com a experiência, ou com a leitura do maior livro do mundo, que é o livro da natureza. Na natureza estão escritas, ou inscritas as leis da vida, que podem ser lidas e aprendidas pelo homem. Seja no plano religioso ou filosófico, espiritual ou existencial, seja no plano cientifico ou técnico, seja no plano criativo ou poético.
Artistas e poetas
Entre os ledores da natureza, situam-se, portanto, os artistas e os poetas, os religiosos e os místicos. Daqui nasceu minha simpatia e afinidade com um grupo holístico que se reúne em Goiânia para festejar a vida na natureza a natureza, principalmente na primavera, e a primavera instalada no espírito. Esse grupo busca, além do conhecimento intelectual, o conhecimento intuitivo, pela percepção e pela sensibilidade. Grupo que busca o conhecimento do ser humano ligado à natureza como sede fundamental da vida. Do homem com parte de um todo que é a natureza cósmica. Para felicidade de todos, elege-se sempre um recanto especial que funciona como ponto cósmico, onde todos se sintonizam com o universo, com elevação da consciência e dos sentimentos universais.

Universo como medida
Identifico-me com esse grupo pelo sua forma de saber tendo a natureza e o ser humano com medida. Aprender a vida percebendo o outro, perceber o outro sentindo o universo, sentir o universo metafisico amando a natureza física. Se existe felicidade, ela é esta conquista existencial pela visão integrativa do ser do homem com o ser do universo. Aqui, afasta-se a visão pessimista de Sartre, de que “o inferno é o outro”. Aqui, vive-se o sentimento idealista de Heidegger, de integração do ser o homem com os entes da natureza, numa elevação amorosa do existente em conjunto. Aliás, esse o mal do homem moderno: ter-se apartado da natureza e objectualizando os seus entes, dignos da vida como nós mesmos.
Estado de espírito
Passando deste plano reflexivo para o estado de espírito que preside esses encontros holísticos, louve-se a concentração dos seus participantes no sentimento comum da natureza que sempre renasce em nós, como parte de um todo harmonioso, no seu perene reflorir, que tem o nome de primavera. Aqui me lembra Machado de Assis, que vendo a moça e vendo a flor, ambas como graças da natureza, homenageou a moça dando-lhe uma flor, e dizendo: “ A instância que ti espera foi feita para o amor do sol com a primavera no seio de uma flor”. Assim também o escritor e poeta goiano Bernardo Élis, associando a natureza à mulher e a mulher à vida, a vida ao sonho e o sonho ao amor, dedicou esta quadra a uma jovem debutante: “É a vida sempre nascendo, / botão tornando-se flor, / a madrugada na boca, / nos olhos sonhos de amor”.
Versão de Botticelli
Na natureza e nas artes, a mulher foi sempre concebida como símbolo da primavera, personificando a natureza fértil, que renasce e floresce. Assim vemos um belíssimo quadro de Sandro Botticelli, representando a primavera na graciosidade da figura feminina. Na literatura e nas artes em geral, sempre se abriu espaço especial para a decantação das mulheres, homenageadas pela sua graça primaveril. Onde quer que haja espaço acolhedor na natureza, sintam-se as mulheres à vontade, e se comportem com queiram, como flor, como planta, ou como borboleta. Pela nossa interação, pela nossa integração, e até pela nossa entregração. Por que não?
(Emílio Vieira, professor universitário, advogado e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, da União Brasileira de Escritores de Goiás e da Associação Goiana de Imprensa – E-mail: [email protected])