Cativeiro de seqüestro
Redação DM
Publicado em 10 de janeiro de 2017 às 01:14 | Atualizado há 10 anos
Caçula de três irmãos, ele era baixo, nariz reto, cabeça pouco alongada e de cabelos lisos, bem negros. Tinha pêlos pelo braço. Esbanjava um buço, enquanto nós todos tínhamos ainda rostos de crianças, imberbes. Mas dispunha de algo que todo moleque da nossa idade era louco de ter: a família era dona de uma oficina eletrônica. A casa dele era repleta de guitarras, violões com corda de aço, bateria, pedaleiras, cubos, tudo.
Tocava violão como ninguém. Nós éramos sua platéia, seus fans: as vezes em que não saíamos para azarar as meninas no Flamboyant ou sair para jogar bola na quadra, nos entregávamos aos seus pequenos ensaios, passávamos na oficina para ver se estava por lá restaurando algum pedal, até cair na porta da sua casa.
Deep Purple, Pink Floyd, Led Zeppelin, Scorpions, a porra toda. Embromava com uns solos de blues. Quanto talento! Ele era técnica pura, improvisando com linhas melódicas e pentatônicas e arpeggios infernais. Nós não esboçávamos nenhum sinal de coordenação motora, irrepreensivelmente incultos, vulgares, burros, sem jeito com a coisa, não sei como ele não nos odiava, não sei como continuava nos chamando para ir à sua casa.
Eu quis aprender a tocar violão. Exerceu sobre mim um desejo enorme de imitá-lo. E nesse desejo maluco de tocar algum instrumento musical, só hoje sei o tamanho da vergonha que eu passava em sua mão: continuava indo à sua casa em busca de um detalhe diferente, um slide esquecido, um bend não notado, perguntando sobre como tocar esta ou aquela música que ele não ouvia, sequer conhecia.
Até que um dia ele, muito ocasionalmente, chegou da oficina de seu pai, empolgado, com uma Fender Stratocaster nas costas. Era igualzinha ao do Eric Clapton. Negra, negra como uma pantera, era uma guitarra para se chamar para almoçar, de mãos dadas, conversando com ela, namorando com ela. Nunca que meu pai compraria uma guitarra daquela para mim. Longe disso acontecer um dia.
Acontece que um dia, na escola, ele disse para eu passar depois na casa dele e que ele deixaria eu tocar na Fender Stratocaster um pouco. Eu morria de medo se eu ia dar conta: eu não fazia lição, não comia, não assistia Dragon Ball Z, eu só me via num palco, luzes, multidão e um solo infinito.
Fui correndo no dia seguinte à sua casa. Ele não morava tão longe do colégio. Os cachorros estavam soltos, não dava para eu entrar. Pela fresta do portão, avisou-me que ela estava no conserto, na oficina, e que eu voltasse no outro dia.
Estarrecido, havia perdido o caminho de volta, mas logo a imagem da Fender Stratocaster a tiracolo, em meus braços, recomeçava a criar força. Imaginar-me fazendo coisas, sempre foi o meu jeito de andar pelas ruas de Goiânia. É o que me direciona na vida, essa promessa, essa causa, esse motivo. Eu vivo os próximos dias. Eu sonho com o que será realizado. Dobrando esquinas, percorrendo ruas, setores, bairros sem tropeçar uma só vez.
Não me dei por vencido. No dia seguinte lá estava eu batendo à sua porta, com medo, nervoso: ainda estava no conserto, quem sabe na outra semana. Quantas vezes não caí nessa ao longo da vida? quantos “hoje não, depois” não se repetiram? E assim foi. Por quase um mês. Menos, talvez. Eu não sabia que a guitarra era na verdade de um cliente, e enquanto durasse o conserto ela seria dele. Eu suspeitara que ele queria que eu sofresse de inveja. Aceitei a suspeita: como se fosse uma competição para ver quem conseguia ferir mais profundamente o outro. Para ver quem aguentava por mais tempo. Não desisti. Ia todo santo dia à sua casa, tomei essa missão para mim. Tinha vezes que ele dizia, pois é, se tivesse vindo um pouco mais cedo, quem sabe, agora meus irmãos estão ensaiando com ela. E eu, que nunca fui de desistir fácil, sem que eu deixasse transparecer no jeito de olhar, tomava emprestado uma paciência, uma calma que não tinha.
Até que um dia, um bendito dia, à porta da sua casa, já ouvindo resoluto a recusa iminente, apareceu uma empregada diferente para me receber. Cães trancados na casinha dormindo. Ela não me estranhou, recebeu-me bem. Perguntou se ia buscar alguma coisa, ninguém de casa estava. Uma guitarra preta, você diz? A empregada se sentia orgulhosa com o fato de saber de qual guitarra se tratava. Voltou-se para mim com ela nos braços dentro de um case e com enorme satisfação vociferou: mas esta guitarra parece que nunca saiu do sofá, serve só para acumular poeira em cima!
Devia ser uma revelação desagradável dos patrões que tinha. Sinal de desperdício, capricho senhoril. Ela devia achar uma merda ser mais cuidadosa com as coisas do outros do que com as próprias coisas. Ela fechou o portão em silêncio: conformada com o próprio destino.
Como conto o resto da história? Eu estava perdido. Entende? Perdido. Peguei a guitarra. Percorri quilômetros a pé até minha casa. Saí correndo. Quanto tempo levei até chegar em casa? Não lembro. Mas foi muita coisa. Tinha medo. Meu coração batia acelerado. Me sentia molhado mas não suava.
Foi então que, finalmente jogada em minha cama, percebi que não tinha um cubo para ligá-la. Um pedal que fosse para dá-la um timbre sujo e pesado. Fingia que tinha um cubo e a tocava escondido no meu quarto. Fingia ser Jimi Hendrix, David Gilmour, Jimmy Page. Não tirava os olhos dela. Fingia tirar os olhos dela. A minha felicidade seria sempre às escondidas. No rapto. Como demorei perceber isso! Sentava na minha cama, tocando a Fender Stratocaster, em pura excitação.
Eu não era mais um moleque com uma guitarra no colo tocando em seu quarto: eu era um sádico, um sequestrador torturando o seu refém num maldito cativeiro de seqüestro.
(Bruno Gama Duarte, escritor e professor)