Mar interior
Redação DM
Publicado em 7 de janeiro de 2017 às 01:48 | Atualizado há 10 anos
Descubro no tempo de hoje, quando não mais preciso levar menino à escola, que posso andar folgado pelas ruas e praças do Bairro Popular despertando melodias esquecidas dentro da minha alma.
Passava pela pracinha da Rua 75 quando alguém me chama.
-Ei, moço!
Olhei à direita e vi um homem com jeito de doido.
-Falou comigo?
-Dá um cigarro?
-Não fumo.
-Meu nome é Abraão.. Sou meio doido da cabeça. Nem sei onde moro.
Mais direto impossível. Pensei comigo: “bacana!”. Sou doido por doidos. Os doidos me fascinam. Uma pessoa doida se queixa de ninguém, não vê falhas nos outros. Percebi alguma coisa de sublime escondida na alma daquele louco. Tive a impressão de que pertencia ao outro mundo. Talvez seja por isso que mora em lugar algum.
Ele me perguntou:
-Sabe quem foi Lyndon Johnson?
Respondi encabulado.
-Ex-presidente dos Estados Unidos.
-Você não é muito burro, não.
Deu vontade de mandar aquele doido às cucuias. Mesmo com pressa resolvi ouvi-lo. Fiquei calado esperando a resposta do doido.
– Pois é. Foi o assassino que matou milhares de criancinhas no Vietnam. Igual aos Bush pai e filho; assassinos no Iraque. E esse tal de Trump vai fazer o mesmo.
Antes que perguntasse de onde tirara aquelas ideias, ele filosofou:
– O homem é um presente trocado por Deus no paraíso. Eu estava lá, junto com Adão, quando isso aconteceu. A minha cabeça maluca foi separada do corpo pela espada do pecado original. Por isso sou doido. Navego pelo espaço; ouço os gemidos das galáxias e vejo neons de estrelas além das vistas do homem.
Sua conversa amalucada tinha uma certa lógica.
Chegando mais perto, com as mãos em concha sobre a boca diz como se contasse um segredo:
-Eu pedi para Deus: “não quero que faça nenhum milagre na minha vida. Também não quero ser normal como aquele do Jardim do Éden. Eu só desejo que seja meu amigo e ande comigo”.
-Ei, olha! Deus está aqui, bem pertinho de nós.
A buzina do carro soou estridente avisando que eu estava na rua atravessado no caminho de passagem dos outros. E eu não tinha comigo nada para registrar o momento; nem câmera, nem gravador. E não aprendi a usar essas funções do celular. Jornalista mais folgado que eu sou. Num piscar de olhos Abraão sumira. Afastei-me dali sentindo-me amparado por uma paz profunda. A tarde de janeiro findava quente e úmida.
Voltei para casa pensando naquele encontro estranho. Olhei pela janela do lado da pracinha e desejei em voz alta:
Vai Abraão. Vai contar estrelas.
(Doracino Naves, jornalista e apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)