O homem que matou o filho, esposa, 12 pessoas e se suicidou
Redação DM
Publicado em 7 de janeiro de 2017 às 01:41 | Atualizado há 10 anos
Depois que fizemos uma análise psiquiátrica superficial da “Chacina de Campinas – SP”, na qual advogamos a doença mental do perpetrante, recebemos várias críticas : 1) “muitos psiquiatras ganham dinheiro para defender criminosos”. 2) O que esse técnico de laboratório fez foi um simples ato de machismo. 3) Isso é pura “maldade”, não doença psiquiátrica.
Vamos tentar rebater esses argumentos. Em primeiro lugar, respondendo por mim, “nunca ganhei dinheiro para tirar ninguém da cadeia”, essa não é a minha profissão. Minha profissão é diagnosticar e tratar doentes cerebrais com repercussão mental ou comportamental. Fica aqui o desafio público para que alguém possa mostrar que já auferi algum lucro, de qualquer natureza, “em tirar criminosos da cadeia”. Pelo contrário, sou a única voz no Brasil, até onde eu saiba, que tem defendido a “re-criação” de hospitais psiquiátricos judiciários, para doentes de alta periculosidade e que não se adaptam em hospitais psiquiátricos comuns ( que, diga-se de passagem, tiveram suas vagas dizimadas pelas políticas governamentais…, coisa que também, praticamente, só eu denuncio…).
Quanto à questão da “maldade”, este é um conceito moral, e em boa medicina não lidamos com o que é “moral”, lidamos com “doença”, ou seja, com o que é biologicamente disfuncional, biologicamente desadaptativo. Se não há “doença”, não há alteração biológica, não há comportamento auto-lesivo, isso não é assunto médico, não é assunto psiquiátrico.
Pois bem, vários estudos, e já antigos, mostram que o cérebro de suicidas, de homicidas-suicidas ( como este de Campinas ), o cérebro de “criminosos de massa” ( os que saem atirando a esmo ), é biologicamente doente, apresenta várias caracterísitcas disfuncionais e mal-adaptativas. Por exemplo, a dosagem no líquor, líquido céfalo-raquidiano, destas pessoas mostrou que há um excesso de ácido homovanílico, que é uma substância metabólita, ou melhor, catabólita ( fruto de degradação ) da 5-hidroxitriptamina. Essa última substância é fundamental para o bom humor, de modo que, sua diminuição, como ocorre nestes casos, está associada com depressão, irritação, explosividade, impulsividade, agressividade, obsessividade, enduração de propósitos, propósitos não abalados ou não arredados por nenhum argumento racional ( características de obsessão e paranoia ). Então, do ponto de vista biológico, estamos falando de doença, não de “maldade” ou de “crime comum”. Dosagens destas substâncias em criminosos comuns, p. ex., crimes do colarinho branco, mostram níveis normais. Um criminoso comum, p.ex., crimes de políticos, empresários, colarinho branco, etc, age de modo bem diferente, não age com impulsividade, não age indiscriminadamente, planeja, espera , protela até o melhor momento, faz planos e rotas de fuga, aufere todo tipo de ganho com seu ato, não comete atos diretamente auto-lesivos ( p.ex., suicídio, atos à descoberto, atos escandalosos, atos sem camuflagem, etc ). O criminoso comum age premido apenas por vantagens materiais, seja dinheiro, poder, sexo, domínio. O criminoso patológico, como no caso de Campinas, age premido por fatores psicológicos complexos, muitos inconscientes, e todos “descontrolados”, “auto-lesivos”, “diretamente lesivos para as pessoas que ele mais ama”. O ódio que o homicida-suicida de Campinas nutria por mulheres não era fruto de machismo, e sim de um certo “complô” que ele sentiu por parte da ex-esposa e das mulheres da família dela. Segundo ele, estas “armaram demais para ele”, inclusive com uma grave falsa alegação de abuso infantil sobre o filho do casal. Ainda segundo as informações dele, a partir desta “falsa alegação de incesto”, o ódio dele, turbinado por provável depressão ou doença afetiva subjacente, transformou-se em paranóia obsessiva e mortífera. Todos esses comportamentos são um prato cheio para as “feministas virulentas”, aquelas que querem ver machismo até nas doenças mentais. É claro que há machismo, é claro que há homens truculentos, dominadores, possessivos, asfixiantes. Isso é real e , de fato, tem de ser combatido. No entanto, não podemos, em nome de “boas causas feministas”, deixar a piscina transbordar e vir atingir fatos médicos, nada relacionados à “políticas machistas”. Um homem tem 700 vezes mais testosterona do que as mulheres, um hormônio que decuplica sua agressividade; por isso os homens têm de ser culpados ? Por serem “mais violentos, mais sexualizados, mais empreendedores, mais dominadores/líderes, do que as mulheres” ? Os homens , agora, têm de serem “culpados” não só por sua biologia, mas até pelo adoecimiento da biologia ? É claro que um homem normal pode muito bem domar sua biologia, sua agressividade, hipersexualidade, truculência, etc. Eu faço isso, perguntem minha esposa e ela pode ser uma testemunha fidedigna. No entanto, exigir a “santidade” até de quem é um louco desvairado, um doente incontrolável, prá mim, já é um pouco “estar dormindo fora da casinha”…
(Marcelo Caixeta, médico psiquiatra – Ecreve às terças, sextas e domingos [email protected])