Brasil

Mordomia, antiga e incurável

Redação DM

Publicado em 7 de janeiro de 2017 às 01:32 | Atualizado há 10 anos

Opositores ferrenhos do governo acusam o novel presidente, exaustivamente, de traidor e de golpista. São epítetos pesados, convenhamos. Todavia, não é prática nova essa troca de insultos na rinha da política,  o que contradiz aquele renomado sociólogo quando proclamou que o povo brasileiro é cordial ! Era, sim, não é mais !

Poucos foram os que não presenciaram ao vivo as refregas travadas no palco tragicômico do parlamento durante a via crucis do sedicioso processo de impedimento presidencial !  Nos debates pobres de conteúdo mas fartos de gritos e impropérios,  mais uma vez,  restou desconcertante e abominável a falta de pundonor e compostura dos representantes do povo!

Com efeito,  nunca antes nos históricos anais da política deste país foram tão grosseiramente assistidos e ouvidos insultos e agravos contra a ética e o decoro,  e tamanhas as ofensas pessoais trocadas entre contendores possessos e sem estribeiras  !

Sustentam as más línguas, contudo,  que aquelas escaramuças eram encenadas e serviam apenas para contentar a plateia disposta a vaiar e a aplaudir em coros dissonantes a deposição da presidente Dilma, já defenestrada por desmandos de gestão.

Não passaram despercebidos, no entanto,  que aqueles confrontos pirotécnicos eram obra da artimanha de bastidores, nada que não pudesse ser apaziguado pelos pares reunidos no bar ecumênico do Congresso, em meio a francos abraços e boas degustações ! É óbvio,  longe da vista dos eleitores  !

Há aqueles que também falam mal do novo ocupante da cadeira curul do Planalto para espinafrar seu aspecto físico, condenando-lhe a feiura masculina ! Puro despeito,  pois a crítica vem dos apeados e saudosistas do poder,  eis que já se tornou unânime a aclamação pública que elegeu os raros atributos da primeira-dama,  Marcela,  a irradiar formosura,  simpatia e jovialidade  !

Ressalve-se que a austeridade não foi a principal promessa do discurso de posse do presidente Temer,  entre as medidas sérias de moralidade,  transparência e contenção de gastos.  Contudo,  pela primeira vez,  o país tomou conhecimento da sangria e do esbanjamento da antiga mordomia com compras de caviar e champanhe destinados à luxuosa aeronave presidencial.  Um escárnio ao contribuinte sofrido e mal-alimentado que viaja de ônibus superlotados e calorentos em plena e calamitosa crise econômica sem precedentes !

Depois de denúncias da imprensa que divulgou a lista nababesca dos finos antepastos e guloseimas  -dignas de potentados árabes-, destinados às longas viagens aéreas,  deu-se o corte sumário da concorrência já com preços superfaturados para abastecer a faustosa dispensa presidencial !  A medida asséptica pouco representa em termos de economia para os cofres da União.  Simboliza, sim, uma mudança de gestão e de rumos bem-intencionados.

Com reformas radicais prestes a executar para salvar a previdência social,  modernizar e fortalecer as relações de trabalho,  enquadrar as despesas administrativas e reduzir a dívida pública, tarefas cruentas e desafiadoras, o presidente Temer já anunciou que não será um servidor populista, nem popular!  Bem ao contrário,  deseja estar livre das enganadoras e falsas promessas eleitoreiras, visto que pretende ser candidato ao título de reformista, a começar com a abolição dessa gritante mordomia aérea,  instituída e antegozada à larga nos governos petistas !

Como é notório, foi o ex-presidente Lula que preteriu a avançada indústria aeronáutica brasileira para desperdiçar dinheiro público com a compra milionária,  sem concorrência,  de um jato importado por 60 milhões de dólares !  Embora de origem humilde,  não resistiu o ex-operário à sedução da mordomia oficial e curtiu à tripa forra suas incontáveis travessias e travessuras oceânicas, sempre bem acompanhado de uma zelosa secretária  !

Quem não se lembra que foi no primeiro mandato do ex-presidente petista que a mordomia franca e sem limites ganhou curso livre nos altos escalões do poder central  ?  Fontes fidedignas noticiaram à época as viagens do ministro-cantor Gilberto Gil,  usuário assíduo dos jatinhos da FAB,  para animar quantas folias carnavalescas e shows por este largo e festeiro país afora  !

Como é sabido,  a barba não faz o filósofo.  Mal se acomodaram nos cobiçados postos da burocracia governamental,  logo os vestais e catões do partido dito dos trabalhadores renegaram as bandeiras da austeridade e moralidade e cuidaram de eleger para suas penitências espirituais o paraíso vulcânico de Fernando de Noronha ! Nada de mal se aqueles preclaros dignatários da estrela vermelha não houvessem requisitado as aeronaves oficiais para a prática do ecoturismo na idílica ilha oceânica e em outros aprazíveis tugúrios  !

Como se recorda,  graças à bisbilhotice e ao faro dos caçadores de notícias e escândalos,  os voos ministeriais e a veneranda mordomia naquelas sedutoras paragens foram objeto de ação penal e de ressarcimento pelo atento Ministério Público Federal.  Mas não se tem até hoje conhecimento de alguma condenação aos seletos burocratas de bom gosto e adeptos do hedonismo oficial,  às custas dos tolos e invejosos pagadores de impostos !

Dá-se que o mau exemplo da era petista está aí para incentivar os novos donos do poder,  ansiosos por fruir as delícias e benesses da mordomia chapa-preta nas pousadas e resorts litorâneos, em esticados fins de semana,  longe da mesmice e solidão de Brasília,  sem perder o sono com reflexões sobre os infaustos problemas da fome e desemprego que rondam os milhões de lares brasileiros!

Governos mudam.  Trocam-se de partidos.  Refazem-se alianças. Reconciliam-se ferrenhos adversários.  Renegam-se princípios e ideais.  Só a mordomia permanece como instituição respeitável e incurável !

 

(Wagner de Barros, advogado – OAB/GO 3781)

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