Desativada 2

Ainda ébrio

Redação DM

Publicado em 6 de janeiro de 2017 às 00:08 | Atualizado há 10 anos

– Vamos tomar a saideira?

– Não vou mais encher a cara.

– Isso é novidade.

– Não seja cruel. É uma decisão adulta e definitiva.

– E desde quando há decisões temporárias?

– Sarcasmo não combina com você.

– Na verdade, apenas achei que se tratava de redundância. Foi uma observação lógica. Não quis menosprezar sua afirmação.

– Que seja, então. A verdade é que cansei de ficar embriagado.

– Uai, o que deu em você?

– Não aguento mais essa vida bandida. Vou remover o álcool da minha rotina. Para mim, chega de beber.

– Sei…

– É sério. Não quero mais entornar todas. Já tive minha cota de constrangimento.

– Tipo?

– Ressaca moral, por exemplo. Certa vez, bêbado feito um gambá que saiu da cirandinha, pendurei um balde no pescoço.

– Por quê?

– Para não vomitar na minha camiseta novinha. Então, coloquei o negócio ali para que, caso regurgitasse, não sujasse nada. Eu não tinha muita força considerando a situação.

– Mas isso não é embaraçoso.

– É, sim. Como a outra vez em que, muito tonto, peguei a empregada feiosa do meu amigo. Foi uma vergonha. Depois, quando estava sóbrio, pegaram uma foto da menina. Era um negócio esquisito. Ela parecia um oompa-loompa de cabelo oxigenado que praticava sumô num curral bovino do interior do Maranhão.

– Besta.

– Juro. Era a coisinha mais exótica que já vi em minha vida.

– E o que tem a ver?

– Nunca me recuperei do baque.

– Tudo bem. Não bastaria apenas você regular mais o quanto bebe? Assim, poderia manter uma vida social ativa sem perder o prazer de saborear vinho, cerveja e whisky.

– A gente só faz bobagem quando está chapado.

– Nem sempre. Você fica divertido.

– Vai curtindo.

– Juro. Você é engraçado demais quando está mamado.

– Você fala isso porque eu apago a luz da razão em mim. Viro um bicho atabalhoado, sem eira nem beira, rumo ao desastre.

– Meio dramática sua posição, não?

– Não quero mais ficar bêbado. Isso é fato. A malvada já cobrou seu preço. Na toada em que ando, vou morrer sozinho. Quem quer um ébrio beirando a filha?

– Outro ébrio.

– Vai catar coquinhos.

– Verdade. Pelo menos dividem a conta. E a garrafa.

– Por favor, leve a sério a nossa conversa. Estou aqui desabafando uma das minhas angústias mais intensas e você faz troça.

– Não era minha intenção. Mas não vai sentir falta?

– Talvez. Tenho de ser forte. Meu fraco é a cachacinha. Nem meu fígado aguenta mais. Preciso mesmo parar.

– Você tem meu apoio.

– É por isso que lhe chamei hoje aqui. Vamos tomar a saideira.

– De novo?

– Isso. Você sabe: enquanto eu não for embora e o boteco estiver aberto…

– O problema é que o bar aqui atende 24 horas, sete dias por semana.

– Eu sei, eu sei…

 

(Victor Hugo Lopes, jornalista)

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