Finício de ano
Redação DM
Publicado em 5 de janeiro de 2017 às 01:41 | Atualizado há 10 anos
O neologismo aí se refere à proximidade do ano novo. Aparentemente nada de novo, como uma vitrola de disco furado, as cenas repetem-se anualmente, salvo a nova oportunidade dada ao homem para trilhar novos caminhos em busca da esperançosa felicidade, o verdadeiro objetivo da humanidade.
Época de evidência do natalício, do nascimento de Jesus, dos presentes impostos pelo capitalismo, das propagandas milagrosas com vozes de prece tenra e desejos supremos; época de ouvir nas rádios novamente as músicas de natal da Simone e do Lins, incluindo a cópia do Lennon. Época de penduricalhos, enfeites perdulários, fraternidade e outros sentimentos temporários. Época de cidade iluminada, papai Noel coca-cola e sua chegada de helicóptero, fila para sentar no colo do gordo com falsas barbas nos shoppings. Época de gastar dinheiro com roupas brancas, perus, nozes, champagnes, esbaldando frivolidades essenciais. Época de pão e circo, distribuição de alimentos e brinquedos, de povos se aglomerando debaixo das pontes. Época de fogos de artifício, de mostrar os dentes no sorriso dentifrício, de se mostrar cosmopolita, de dizer que tudo convém e facilita.
Depois, acabados os festejos tradicionais, restam os legados da pós-comemoração, a luta contra a solidão e o vazio da alma, a lembrança do trabalho tão necessário para nos sustentarmos. E logo, quando menos esperamos, as propagandas sambistas dos biquínis minúsculos e rebolantes fazem lembrar do carnaval. A maioria precisa se extravasar. Pinhaça, esculacha, cachaça, manguaça: lá vai problema pra Delegacia de novo, e tome racha. As águas de março fecham o verão, tempo que me envelhece anualmente. Abril do céu bonito, do índio; maio-trabalho, junho arraial, quentão, pipoca e bandeirola. Lá vem julho do Araguaia, dos pernilongos, dos peixes, e dos diversos insetos. Agosto: mês de catástrofes, quente como nunca, setembruchove?! Provavelmente chove, mas cada ano que passa a primavera vai ficando mais quente. Não é só a primavera que vira fornalha! No ano inteiro sempre há feriados para a alegria do povo. E num piscar de olhos estarão tocando jingle bells na porta da sua casa, na TV e no rádio novamente.
Desta forma, fecha-se o ciclo anual, repleto de variedades repetitivas. Esse déjà-vu – parente do flash back – deixa-nos perceber a rapidez mundana: quando percebemos, já estamos com cabelos brancos e uma porção razoável de experiências aglutinadas; própria para os conselhos gratuitos. Tudo o mais é lixo, pó, pedra e árvores: preciosidades para a poesia, segundo Manoel de Barros. Se ficarmos, ao longo desses anos, comuns demais, ou muito diferentes, seremos poeticamente especiais nessa rotina crudelíssima dos tempos. Até a próxima página!
(Leonardo teixeira, escritor)