Governo pode dar errado
Redação DM
Publicado em 3 de janeiro de 2017 às 01:25 | Atualizado há 10 anos
Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. O que assusta é que a chamada Lei de Murphi, formulada pelo engenheiro americano Edward Murphy vem, ao longo dos anos, se mostrando absolutamente correta. E nós brasileiros entramos o 2017 não com uma, mas com várias possibilidades da coisa dar errado. A começar por um Executivo sem legitimidade, embora de existência legal, que não consegue se consolidar por não transmitir confiança. Com a equipe que formou, exceto a econômica, Temer não consegue passar credibilidade a um povo escaldado pelo estouro dos casos de corrupção, muitos com envolvimentos de hoje ilustres ministros do presidente. Até que o presidente tem defendido propostas corajosas e necessárias, mas sua tibieza via acabar inviabilizando as reformas apresentadas. Falta capacidade de liderar e de se comunicar e isto, com certeza, pode levar seu governo de dois anos apenas, ao fracasso. Se tem chance de dar errado, vai dar errado, ensina Murphil. Ainda mais com um Congresso pusilânime como o atual. Num colegiado como o atual, onde as questões individuais prevalecem sobre as coletivas, onde o que interessa é a próxima eleição, o debate de assuntos sérios e de algum risco de atingir grupos, especialmente de servidores públicos, não prosperam. Falta visão de país, sobra visão do próprio bolso e poucos são os que dão a ‘cara a tapa’ em defesa de medidas de austeridade ou de mudança radicais. Ou mutilam as propostas sérias com emendas que quase têm nome e sobrenome ou manobram para transferir ao Executivo o ônus do aprovar ou vetar, como no episódio da renegociação das dívidas dos estados. Para confirmar as chances de dar errado, como garante a Lei de Murphy, temos um Judiciário lento e que tem se mostrado mais conciliador do que nunca, com decisões que assustam e afrontam até os mais liberais. Ao seu lado um Ministério Público pouco afeito a discrição e sujeito a influências partidárias. Num quadro assim só nos resta torcer para que o Brasil seja a exceção não prevista por Murphy.
(Paulo Cesar de Oliveira, jornalista e diretor-geral das revistas Viver Brasil e Robb Report)