Brasil

Some não, amigo do Raízes

Redação DM

Publicado em 30 de dezembro de 2016 às 23:57 | Atualizado há 10 anos

Nós vivemos no tempo do triunfo das aparências. Mas aprendi com as pessoas simples o sentido do desapego dessa mania de querer ser alguma coisa na vida. O místico persa Shams de Tabriz ensina que “Quando todo mundo está tentando ser alguma coisa, seja nada. Vagueie com o vazio”. Isso é libertador. Penso que a gente veio ao mundo para não ficar preso às correntes da egocentria. A visão do ego é torta e, como diz o teatrólogo Marcos Fayad: “Quem se acha genial e insubstituível é tão previsível com uma abóbora”.

Enxergar além do nariz é a abissal diferença de quem se liberta de si mesmo. Certa vez tive a impressão de que sou um personagem que aparece e desaparece. Algo que nasce e morre todos os fins de semana. Então, se eu me acendo e me apago, não sou real. Esse que vejo todos os dias no espelho não sou eu. Quando fecho os olhos desapareço na minha insignificância. Especialmente para essa turma do rame-rame. Pois é, acho que eu não existo. Talvez eu já tenha morrido e esquecido de cair. Porém, em que dimensão eu estou? Quando me vejo na TV é como se me visse translúcido na tela.

Na realidade eu sou o magricela de joelhos encardidos de Porto dos Barreiros que passou por Palmelo e veio parar em Goiânia. Faz-se jornalista no dia a dia da instigante lida do jornalismo cultural. Isso também existe? Existe. É jornalismo, é cultura. Tenho o costume incorrigível do bom mineiro: Desapego fácil das coisas e disposto a mudar de opinião. Mas não me despego das pessoas que amo: da amada Clara, os filhos, os netos, os amigos de verdade e os livros dos meus escritores favoritos. E cada vez mais sou prisioneiro da poesia que coloca açúcar no meu viver. Minha opinião sobre a esquerda romântica mudou graças ao PT que faz lambança uma atrás da outra. Ainda bem, não fosse isso ainda estaria pensando torto.

Minha opinião, embora sujeita à mudança, não sobe o muro dos indecisos. Não sou objeto, mas sujeito de mim é o que sou. Indivíduo que toma decisões até se livrar do próprio apego exagerado e da ‘pavonice’ dos outros. Não ser nada me livra do medo e da ignorância em pensar que a aparência é a vitória do ego. Não quero mais cair na armadilha de alcançar a perfeição. O psicólogo Paulo Tavarez deduz que “Não é que você faz, mas o que para de fazer que importa”. Nesta semana cheguei decidido à PUC TV: “Vamos gravar o último programa. O Raízes encerrou, na semana passada, a série com mais de quinhentas entrevistas. A última foi com professor Jadir Pessoa, também o primeiro entrevistado em abril de 2007. E, hoje, vamos nos despedir agradecidos os amigos que nos veem todas as semanas”. Assim gravamos o último Raízes Jornalismo Cultural que vai ao ar neste sábado.

O Raízes encerrou o seu ciclo na televisão. Aprendi muito com os nossos entrevistados e com os entrevistadores que comigo dividiram a bancada do programa, a exemplo dos poetas Chico Perna, Edival Lourenço, Carlos Willian e Adalberto Queiroz. O desapego me faz voltar a ser o menino simples de canelas riscadas pelo capim-vassourinha do cerrado de Porto dos Barreiros; onde estão fincadas as minhas Raízes. Mas o jornalismo cultural continua o meu trabalho, a minha diversão e a escola que me faz seguir em frente. O Portal Raízes é o meu reduto para não ficar igual a um cão a olhar a lua, sendo eu o próprio Universo.

 

(Doracino Naves, jornalista;apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)

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