Brasil

Saudosa essência do ser

Redação DM

Publicado em 30 de dezembro de 2016 às 01:19 | Atualizado há 10 anos

O saudosismo não é tão apetitoso quanto à dádiva do hoje e a esperança no amanhã. Grande frase de efeito!

Porém, dia desses, de tristezas inexplícitas e recaídas descrentes na gélida humanidade, escarafunchando as redes sociais em época de campanha eleitoreira, deparei-me, apesar de tantas bizarrices, com uma imagem que estremeceu por instantes os paradigmas conceituais “supra” citados.

Tilintou aos meus olhos uma caixa de papelão recheada com o sonho pueril dos primórdios da década de 90: maria-mole em cone de sorvete, paçoquinhas roliças amontoadas feito pirâmide, doce-de-leite em pedaços, guarda-chuvas de chocolate, e aqueles quadrados coloridos tão cobiçados por mim quando criança: os suspiros!

Ao fitar a guloseima, meus olhos por instantes esqueceram as palavras, muitas vezes ácidas, injuriosas, de insulto ou baixo calão, trocadas entre “internautas” na rede de relacionamentos em defesa de seus candidatos. Estas pupilas mudaram de textura, derreteram como calda de caramelo e transbordaram igual achocolatado quente, devolvendo-me à infância.

Quando garota, não podia encontrar brechas que, conseguindo uns trocados, corria até a venda da esquina:

– Me dá um suspiro?! Rosa… Eu quero aquele rosa!

Então o adulto por trás do balcão me entregava o doce de superfície ondulada ornada com confetes coloridos, para a imaginação chamá-lo “patchwork acolchoado”, ou “nuvem espumosa de banho”.

Ah! Quão saudosa lembrança do tempo em que apreciava a doçura suspirosa dos instantes com mimos singelos e brincadeiras inocentes, tempo em que podia brincar sozinha nas calçadas de Itauçu sem o vigiar apreensivo dos adultos.

Mas, porquanto o saudosismo não me é característica pujante, e os doces atuais superam em variedade, belezura e gostosura os de outrora, retornei logo ao presente com certa indagação:

– Aonde, afinal, o “homo sapiens” vem perdendo a macia consistência do ser?

Porque não me parece louvável viver entre farpas e fagulhas quotidianas, tanto no ambiente real quanto no virtual, como se “o outro” fosse um alienígena enviado ao planeta para detonar a vida terrestre, bombardeando as nossas múltiplas liberdades de existir, condenando-nos à sentença irrecorrível do esquartejamento na praça pública das “timelines” ou da Avenida Belo Horizonte e demais adjacências.

Nesse diapasão, pelo viés interrogativo da memória entrecortada, surgiu-me, numa epifania, a sensibilidade ímpar da minha sobrinha Júlia… Sem saber que a mãe havia, minutos antes, aberto a porta do quarto com as mãos transbordantes de hidratante corporal, ao tocar na maçaneta, a menina suspirou:

– Nossa! Que maçaneta cremosa!

Quando percebi a suave profundidade da alma infantil, respirei aliviada:

– Eureca! É isso. Sempre foi… Júlia está coberta de razão…

A essência das coisas, dos acontecimentos e das pessoas está no nosso toque, no nosso tato, no nosso cerne ao encontro de tudo que nos cerca, sem preconceitos, pré-julgamentos ou predefinições.

Assim, passadismos desertados, todos os dias ressurge a oportunidade de nos postarmos infinitamente melhores que ontem, intimamente superiores à primavera anterior, ao último eclipse ou às derradeiras eleições, sem provocar estardalhaços internos ou externos.

É possível, de fato, alargar as fronteiras existenciais tornando-nos, hodiernamente, mais humanos, gentis e complacentes conforme a ternura da Júlia ao nos desembrulhar sobre o balcão do pensamento um baleiro de infinitas possibilidades nas leituras sinestésicas do mundo.

Comecemos, por exemplo, acrescentando paulatinamente ao nosso paladar um açucarado “bom dia” a cada virada das noites sussurrantes, alguns centímetros de sorriso melado no compasso dos lábios bailarinos, dois nacos da dulcíssima alteridade no tato das mãos encantadas.

Destarte, tendo acentuado o gosto esperançoso no porvir, podemos, sem exceção – se quisermos – retomar as tessituras perdidas nessa antropofagia vociferante das atitudes vãs e voltar a ser néctar condensado de flor, regando com sublime luz translúcida a nossa própria natureza.

– Cremosa!

 

(Rúbia Garcia, advogada e escritora)

 

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