“Invasão zumbi”
Redação DM
Publicado em 28 de dezembro de 2016 às 01:33 | Atualizado há 1 anoUm veado é atropelado no meio da estrada e o responsável vai embora deixando o animal todo ensanguentado e estirado no asfalto. Instantes depois o mesmo animal se contorce e levanta como se nada tivesse acontecido. A câmera chega perto e os olhos do bicho estão completamente brancos. A tela fica preta e o nome do filme aparece com um trilha sonora de suspense ao fundo. Este é o começo do estupendo “Invasão Zumbi”, um filme coreano que ensina como trabalhar um gênero trazendo originalidade para os clichês tão datados do estilo.
De um lado temos zumbis correndo famintos atrás de seres humanos numa desordem desenfreada onde nada mais importa. E do outro os humanos lutando pela sobrevivência em uma hostilidade que ninguém sabe como começou. A história de “Invasão Zumbi” acerta ao abraçar um contexto que foge de querer explicar o que aconteceu ao mundo. O filme foca numa situação e personagens e os acompanha ao longo de 120 minutos.
O drama principal é o de Seok-woo e Soon-an. Respectivamente pai e filha, Seok-woo é um homem viciado em trabalho que enfrenta uma crise de paternidade com a jovem Soon-an. Ela quer voltar para a mãe que está em Busan, então ambos compram passagens para o trem da manhã. Durante a entrada dos passageiros, uma adolescente ensanguentada e machucada entra escondida em um dos vagões. Instantes depois a situação piora e a moça ataca uma das funcionárias do trem, que também se transforma na mesma criatura hostil e faminta. A situação se agrava e o número de zumbis começa a crescer freneticamente.
O grupo de sobreviventes precisa chegar até Busan onde se encontra uma força militar poderosa que conseguiu defender a cidade dos ataques. O caminho até lá é longo, e o púbico vai junto nessa missão onde apenas a vida é o bem mais precioso que sobrou. Trabalho, dinheiro, posição, status, nada disso tem mais relevância. Agora é correr e lutar, e mesmo assim a sobrevivência não é algo absoluto.

O filme se passa, quase todo, dentro do trem e além de criar momentos que valorizam a tensão, seja no suspense mais sutil ou nas sequências de ação regadas a muita correria, “Invasão Zumbi” entende que não basta priorizar isso e deixar os personagens de lado. É necessário trazer profundidade a eles. O roteiro do também diretor Sang-Ho Yeon faz isso com eficiência ao desenvolver, ao longo da destruição iminente do planeta, personalidades e relações de companheirismo importantes para o público se identificar e torcer.
Um filme de um sub-gênero frequentemente produzido como este, que começou lá atrás com o mestre George Romero em “A Noite dos Mortos Vivos” e desde então é adaptado aos baldes em Hollywood, games, quadrinhos, séries e por aí vai, requer frescor para conseguir se destacar em meio a tantos projetos. “Invasão Zumbi” não cria elementos novos, mas utiliza com originalidade os clichês de um jeito que deixa a experiência muito mais instigante, claustrofóbica e desesperadora.
Não há espaço para justificativas e perda de tempo com ações militares. O desesperador no longa é justamente colocar o espectador junto com os personagens em uma frenética batalha pela vida, onde aos poucos a própria natureza humana de cada um será colocada em cheque diante da morte. É um misto de atitudes e ações que no fim se resumem ao mais básico dos ensinamentos que aprendemos na vida, de que somos absolutamente meros mortais, passageiros como o tempo, descartáveis como a mais bela flor que após um período, murcha e não existe mais.
Nos minutos finais temos uma das cenas mais lindas de um filme de zumbi, algo que não me lembro de já ter visto no gênero. Tudo acontece em cima de um trem em movimento e o contexto do momento é tão lírico e sentimental, que é impossível não sentir nada pelo que está acontecendo. “Invasão Zumbi” prioriza a substância, em ser um filme que além de possuir excelentes sequências de ação, possui dramas que nos aproxima dos personagens e leva em consideração a experiência do público. O resultado disso tudo? Simplesmente um dos melhores filmes de 2016. Ponto.
(Matthew Vilela jornalista e comentarista de cinema pelo Blog do Matthew)