Brasil

Política leiteira de terra arrasada

Redação DM

Publicado em 17 de dezembro de 2016 às 02:09 | Atualizado há 10 anos

Pode-se qualificar de política leiteira de terra arrasada, a espoliação gananciosa vigente há muito tempo, na comercialização do leite dos produtores, com laticínios em Goiás, e, salvo juízo mais acurado, outros estados da federação. O mundo que nos cerca, ao longo da história, foi sempre palmilhado por acontecimentos bons, sucedidos por outros ruins, como a guerra sabotando a paz, face positiva e negativa das coisas, bem e mal alternando entre si na mente do ser humano. A própria política tem seu lado benfazejo e lado perverso, como conjunturalmente, acontece com o “O Petrolão”, símbolo mor do processo corruptivo que vem fumegando, desde o Império, com as cortes palacianas. Mourejou pela velha república, consoante historiou Rui Barbosa, com a célebre oração: “O homem de tanto ver triunfar as nulidades, agigantar o poder nas mãos dos maus, crescerem as injustiças, chega a rir-se da honra, ter escárnio da verdade, vergonha de ser honesto”.

Demais, prosseguiu, com sua ganância patrimonialista, república afora, no lugar de ser extirpada, para o bem da democracia, foi-se agigantando, mais e mais, em privilégios, benesses, fortunas, para os ocupantes do poder, surrupiando a sociedade contribuinte, sempre marginalizada da vida política, por falta de conhecimento, conhecimento este, sonegado pela escola. Felizmente, para gáudio do contribuinte, começou a ser devassada, com o “Mensalão”, sucedido, ato contínuo, pelo esfaimado “Petrolão”, com a operação “Lava jato”, bem conduzida pelo Juiz Sergio Moro, ora, no auge de apuração, com eles, figurões, pela primeira vez na história da república, toda sorte de gente graúda, corruptos e corruptores, tomando, ou, provando chá de cadeia. Contudo, o mais razoável, não seria a cadeia, pois passada a fase de isolamento, para depoimento, deveriam ser postos a trabalhar, prestar serviços ao estado, com inscrições em locais bem visíveis de suas roupas, vestimentas, alusivas ao motivo, pelo qual, esta, ali, prestando serviços a comunidade, sem dúvida, penalizados por crimes do colarinho branco, mutretas infindas, praticadas contra o erário público.

O quadro atual escancarado pela delação premiada, no qual o Congresso, primeiro escalão do presidente da república, ele próprio, são acusados, é desalentador, mas, voltemos ao leite amargo, amargo, aos produtores de leite espoliados pela intermediação gananciosa, na forma de cartel camuflado. O preço praticado por ele é impositivo, de cima para baixo. A própria estrutura organizacional conspira, incentiva o funcionamento do processo abusivo, além do mais, do lado do cartel camuflado, o grupo é pequeno, instruído, unido, organizado, por isto, dotado de alto poder de pressão. Do lado dos produtores, que geram a riqueza, são muitos, dispersos, desunidos, por isto, com baixo poder de pressão, barganha. Mesmo os cooperativados, não são conscientizados, instados à participação na vida da cooperativa, não raro, funciona ela, como mera intermediária, revende o leite, sem beneficiar, agregar valor à intermediação gananciosa. Falta, quase sempre, aos dirigentes, vontade, determinação, na condução dos negócios da cooperativa, e, deste modo, contrapor ao poder de pressão do cartel camuflado, para, com isto, chegar a negociação de preços, de tempo em tempo, de igual para igual, de forma democrática, buscando consenso, e, assim, preço justo para os produtores.

No setor primário, agropastoril, a pecuária leiteira sobrepõe, em importância social, econômica e, mesmo política, a de corte, pois gera mais mão de obra, serviços, impostos, do que a de corte. Além disso, abarca um contingente humano bem mais numeroso do que sua co-irmã, em sua quase totalidade, constituído de pequenos e médios produtores. Esta sua condição majoritária, assegura-lhe, por lei, consoante o artigo 187 da constituição, o direito a uma política governamental reguladora de preços, fundada na alínea II, assegurando preços compatíveis com os custos de produção. Transcorridos, quase trinta anos da dita carta magna, magna cidadã, os governos: federal e estaduais, foram sempre omissos, fizeram ouvido mouco, à espoliação criminosa que vem sendo praticada pelo tal cartel, contra milhões de produtores. O neoliberalismo pressupõe certo equilíbrio, entre oferta e procura fundada na mão invisível de Adam Smith, sem intervenção de governo. O bendito mercado se auto-regularia: maior oferta promovendo queda de preço, queda de preço, reduzindo produção, e, assim, mais oferta, seguida de regulação.

Essa corrente, mais tarde, teve como ardoroso defensor – livre mercado – Friedrick Von Hayek, contra JM Keynes, entretanto, anverso de Hayek, Keynes, defendia a intervenção do estado no mercado. Sua tese, acabou, na época, tirando a Inglaterra da recessão econômica. O equilíbrio, mão invisível, teria dado certo, houvesse surgido, como antevia Adam Smith, um universo, cada vez maior, de pequenas empresas concorrendo de forma perfeita, no entanto, isto nunca aconteceu, o que houve na dura foi a aglomeração delas, como o atual cartel camuflado de laticínios, e, infinidades de outros, por este mundo afora. Os cartéis são importantes na vida socioeconômica das comunidades, possuem regra geral, grande soma de capital, o qual bem investido, sem especulação, gera progresso e bem-estar, no entanto, precisam de controle do estado e da própria sociedade, para não abusar de seu poder ganancioso. Quando não é fiscalizado, advertido ou mesmo autuado, a sua liberdade incontida, ilimitada, esfaimada, avança além dos limites, afogando a liberdade, já minguada, por falta de cultura política, como vem acontecendo, no caso, dos produtores de leite.

Toda liberdade, no sistema de governo, dito democrático, tem limite, este limite não pode abocanhar, avançar, desrespeitar o do outro. O abuso do mais forte tem que ser controlado, para não transformar em servo, o mais fraco, como no passado, – relação servo-senhor – feita por Hegel, em sua filosofia da história – Dialética do Senhor e do Escravo. Quando isto acontece, leitor, em vez de prosperidade, tal intermediação produz o anverso, subserviência econômica, prodigalidade infinda para o cartel e, frugalidade ou miserabilidade infinda, para milhões de pequenos e médios criadores da área leiteira, gerando, a tal política de terra arrasada, pois eles vivem a labutar, em sua faina laboriosa, diuturnamente, para engordar, encher a barriga, pança, dos atravessadores.

Assim como, o “Petrolão” turbinava, assegurava propinas, para subsidiar as campanhas eleitorais nababescas, o mesmo, não se pode duvidar, vem acontecendo, neste caso, no setor leiteiro. Só mesmo a propina nas campanhas poderia induzir ocupantes do poder público, a fazerem vista grossa, a tamanho abuso, desatino, ao longo de décadas, transformando milhões, em servos de poucos. A proibição de donativos de pessoas jurídicas às campanhas eleitorais, desde que bem controlada, poderá tirar a viseira, omissão, descaso do governo, no cumprimento da lei, o citado artigo constitucional, reparando a injustiça reinante, colocando fim, a relação servo-senhor ativa, hedionda, em plena aurora do terceiro milênio. Isso, e o bom funcionamento do artigo 174 da mesma constituição, política leiteira como arte de promover o progresso e bem-estar da comunidade, comunidade geradora e beneficiadora de riqueza – a produção leiteira – poderá por fim, a atual: gananciosa, unilateral, velhaca, de terra arrasada.

 

(Josias Luiz Guimarães, veterinário pela UFMG, pós-graduado em filosofia política, pela PUC-Go, produtor rural)

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