Um certo Capitão Timótheo-III
Redação DM
Publicado em 17 de dezembro de 2016 às 02:08 | Atualizado há 10 anosProssegue a narrativa:
“Em março de 1930, o Capitão Timótheo visitou Juazeiro outra vez. Queria conhecer Marcolino Pereira, futuro sogro de seu filho, e Tidinha, sua futura nora. Aproveitou a oportunidade para rever o Padre Cícero Romão Batista, que o deixara muito bem impressionado, em 1921. Fê-lo acompanhado, como da vez anterior, pelo amigo Manoel Diniz. Nesse novo encontro, o sacerdote mostrou-se pessimista com o rumo que os últimos eventos políticos da Paraíba tomavam, apontando para derramamento de sangue entre irmãos. Confiou ao Capitão uma carta endereçada ao Coronel José Pereira Lima e lhe pediu, encarecidamente, que transmitisse ao líder de Princesa a sua preocupação com as hostilidades entre o seu grupo político e o Presidente João Pessoa. Que, se insistissem naquele clima de beligerância, as conseqüências seriam funestas para a Província e, talvez, para todo o Brasil (pág.141)”.
Não foi difícil a Francisco Timótheo cumprir a tarefa que lhe confiara o Padre, até porque um dos seus filhos, Laurindo, integrava o estado-maior de José Pereira. Este, assim como o próprio João Pessoa já tinham sido admoestados, ora por carta, ora pessoalmente, pelo sacerdote, a buscarem uma solução negociada para o conflito. Os conselhos do Patriarca, no entanto, foram em vão. Poucos meses antes, o advogado João Dantas, aliado de José Pereira e desafeto de João Pessoa, desferiu dois tiros contra este em uma confeitaria do Recife. Isto aconteceu na tarde de 26 de julho de 1930, e serviu como estopim para a chamada ‘Revolução de 30’. João Pessoa era o candidato a vice-presidente da República na Chapa de Getúlio Vargas.
‘Aureliano Pereira da Silva, tio do autor desta obra, era secretário do Padre Cícero. Ele contava que, naquela tarde de 26 de julho, vários auxiliares do sacerdote estavam reunidos com o mesmo em sua residência, discutindo assuntos de interesse da comunidade. De repente, o padre pendeu a cabeça para a frente como num cochilo, reerguendo-a segundos depois, com uma grave expressão nos lábios:’Acabaram de assassinar João Pessoa’. Interromperam a reunião, e rezaram pela Paraíba e pelo Brasil’.
“Poucos dias antes desse encontro de Francisco Timótheo com o Padre Cícero, este recebera a visita do Coronel José Frazão, então Prefeito da cidade de Princesa, que fora pedir sua intermediação no conflito da Paraíba.
O sacerdote encarregou-o de entregar ao líder sertanejo a seguinte missiva:
‘09 de março de 1930.
Amigo Coronel José Pereira.
Recebi do nosso amigo Coronel Frazão, Prefeito desse Município, a sua e bem assim a carta do nosso comum amigo Coronel João Pessoa de Queiroz (primo e adversário do presidente da Paraíba, do ramo de Pernambuco).
‘Antes de tudo, lamento, sinceramente, a grave expectativa em que se encontra a Paraíba, às portas de um movimento armado sempre de consequências imprevistas e deploráveis. Do presidente João Pessoa, tenho recebido alguns telegramas que me permitem dirigir-me a ele, como agora mesmo vou fazer, tentando evitar o desfecho da luta que vejo esboçada entre valorosos políticos dessa boa terra. Acredito que meu distinto amigo, compreendendo bem a minha situação de sacerdote que tem o dever de envidar todos os esforços no sentido de impedir um morticínio entre irmãos, achará razoável que intervenha no caso pelo modo, por que acima expus, isto é, dirigindo-me ao presidente João Pessoa, que espero dará atenção às sugestões que lhe vou fazer. Parece-me, por outro lado, conveniente que o meu distinto amigo com o Doutor João Suassuna mandem um emissário a Fortaleza entender-se com o presidente do Estado, Doutor Mattos Peixoto, cujos bons ofícios poderão ser úteis à solução do caso político da Paraíba, conforme o que explicaram ao Coronel José Frazão.
‘Fazendo-me recomendado a sua excelentíssima família, subscrevo-me seu velho amigo, Pe. Cícero Romão Batista’.
“13 de maio de 1930.
“Presidente João Pessoa.
“Peço permissão do ilustre amigo para manifestar minha dolorosa impressão diante dos tristes acontecimentos que ora se desenrolam no Estado da Paraíba. Caso me fosse permitido, pediria ao eminente amigo, mesmo com sacrifício de quaisquer paixões pessoais, procurar uma solução que pusesse fim a esse lastimável estado de coisas em que vidas preciosas e a riqueza da terra paraibana vão sendo destruídas na voragem de uma luta fratricida. Espero que o amigo veja nas minhas palavras o grande desejo que é de ver a nossa pátria próspera, calma e feliz. Como amigo que sou de Vossa Excelência e do povo da Paraíba, tomo a liberdade de sugerir a Vossa Excelência a conveniência de retirar as forças do campo de luta, e logo que reconhecido o nosso presidente eleito da República, com a superior dignidade, caráter forte e inquebrantável, voltar ao cargo de Ministro do Supremo Tribunal Militar, cargo este que Vossa Excelência tem exercido com elevado patriotismo e sábia prudência,
“Atenciosas Saudações.
“Pe.Cícero Romão Batista”(pág.144).
Apesar da visita de Francisco Timótheo a Marcolino Pereira, este ainda resistia ao noivado de sua filha com Leônidas. É que as informações que ele obtivera da Família Timótheo eram de homens muito valentes, e isso o assustara. Marcolino era um cidadão pacato. O pretendente, por sua vez, continuou visitando a normalista a cada quatro meses, no seu internato do Crato. Com a formatura de Tidinha, a noiva do filho do Capitão Timótheo, em dezembro de 1931, Leônidas, agora mais confiante, procurou o pai da moça para pedi-la em casamento. Este condicionou a resposta à aprovação da esposa, Dona Toínha. Decepcionado, Leônidas procurou um irmão de Tidinha, já seu amigo e favorável ao casamento, e lhe comunicou que pretendia raptá-la. Pediu-lhe que a acolhesse em sua casa até a data das bodas, que ele mesmo marcaria. Em seguida, mandou um recado ao futuro sogro: ‘Casaria com sua filha, sim. Não queria festa, e o ato seria celebrado na Igreja de Nossa Senhora das Dores, às cinco horas da manhã do dia 20 de janeiro de 1932, um sábado. Ou seja, daí a uma semana. Quem quisesse participar, estava convidado. Na hora combinada, o cunhado Zeca Marcolino levou a noiva à Igreja. A mãe dela, incomodada com a atitude do noivo, que tachou de atrevido e arrogante, não compareceu. O pai chegou atrasado. Um padre amigo fez o casamento. A pedido da noiva, seu irmão Zeca providenciou um almoço para alguns amigos e os parentes mais próximos. Entre os convidados, o farmacêutico José Geraldo da Cruz e o Dr. Manoel Diniz. Padre Cícero, à distância, abençoou o enlace. O casal teve nove filhos, sendo sete homens e duas mulheres. Os filhos varões foram educados no Recife. As moças estudaram em Juazeiro. Tidinha lecionou durante vinte e cinco anos. Leônidas esteve à frente de uma farmácia por mais de meio século e, como profissional do ramo, aviou milhares de receitas que mitigaram dores e curaram milhares de enfermos. Militou na política local, foi Delegado civil de Polícia e dirigente de instituições filantrópicas. O casal viveu em plena harmonia por cinquenta e um anos, até 1983, quando Deus chamou Tidinha de volta à Pátria Espiritual. Leônidas seguiu-a dez anos depois. Deus traz, Deus leva” (pág.148).
“Francisco Timótheo era um estóico. Um bravo na adversidade. Portava-se com serenidade diante do revés ou do triunfo. Não vibrava muito na vitória, nem se abatia na derrota. Quando alguém se lamentava ante os efeitos catastróficos da seca, ele argumentava que o Sol também é uma bênção. Que provém desse astro toda a energia de que a Terra precisa. Ensinava que aquilo que não podemos mudar, devemos aceitar. Sobre o trabalho,defendia que tudo o que nos propusermos fazer, que seja bem feito. Ou, então, não façamos. Que devemos trabalhar como se nunca fôssemos morrer, e rezar como se fôssemos morrer amanhã. A respeito da amizade, aconselhava que, se quiser um amigo, não se apresse para confiar nele. Espere a primeira prova. Quando você observar dois amigos cheios de cuidados para não se ferirem mutuamente, fique certo de que a amizade é falsa, – dizia ele. Os adversários são importantes porque nos mantém alertas, e nos obrigam a crescer, concluía”(pág.151).
E assim encerra sua bela narrativa, digna de um herói:
“Numa manhã de domingo de 1939, poucos meses depois de ver realizado um dos seus maiores sonhos, – a emancipação de Bonito, que ascendeu à condição de cidade, o Capitão apreciava, do alpendre da casa grande do sítio ‘Juazeiro’, o gado que pastava. O ano começara bem, trazendo um bom inverno. A paisagem que se descortinava à sua frente era verde, os passarinhos cantavam, e a natureza inteira estava em festa. Francisco Timótheo sentia-se feliz, rememorando o seu passado de lutas. Como pai, criara 22 filhos, todos imbuídos dos mais elevados valores morais, éticos e espirituais. Como líder, ajudara o seu povo a enfrentar as maiores secas da nossa história, desde a primeira, em 1877, que ceifou mais de 300 mil vidas sertanejas, até a última que vivenciou, a de 1930. Organizara uma comunidade, zelando sempre pela paz e o progresso de todos. Fundara uma cidade e protegera os seus habitantes da cobiça de malfeitores e da sanha dos cangaceiros. Sentia-se, portanto, realizado”.(152).
Em paz consigo mesmo, e com a comunidade que amara e protegera, com todo o vigor de sua alma varonil.
(Licínio Barbosa, advogado criminalista, professor emérito da UFG, professor titular da PUC-Goiás, membro titular do IAB-Instituto dos Advogados Brasileiros-Rio/RJ, e do IHGG-Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, Cadeira 35 – E-mail [email protected])