Brasil

O amigo ingrato (e traidor!) de JK

Redação DM

Publicado em 15 de dezembro de 2016 às 00:59 | Atualizado há 10 anos

À medida que o tempo transcorre, imutável e irreversível, com a sua inescrutável transcendência, torna-se cada dia mais severo e justo o julgamento da História quando submete ao seu veredicto implacável aqueles que se notabilizaram por seus feitos e ações, para o bem ou para o mal, suscetíveis de mudar o destino de um país ou da própria humanidade.

Em meio ás graves crises institucionais que atormentam a perplexa República, hoje submetida às avassaladoras delações premiadas de práticas corruptas, já não se respeitam mais os poderes constituídos, com a quebra da harmonia e da independência entre si. Agora, indistintamente, são transformados em réus por ações delituosas contra o patrimônio da Nação inúmeros membros do Executivo e do Legislativo, prevaricadores e sacripantas que se digladiam arrastados para a vala comum do descrédito e do opróbrio públicos.

Nesta extremamente difícil e sofrida conjuntura política, econômica e social decorrente dos desmandos governamentais e da cumplicidade da classe política, contudo, sobreleva reconhecer o sentimento de indignação e de repúdio do povo brasileiro, maior vítima da recessão e do desemprego, e sempre vulnerável aos desgovernos e às incertezas do futuro.

Contra aqueles malfeitores travestidos de líderes carismáticos e políticos sem entranhas, que se prevaleceram dos seus mandatos e cargos oficiais para assaltar à tripa forra os cofres públicos em busca do fácil enriquecimento ilícito, a sociedade civil já se manifestou por mudanças profundas: propôs e levou avante o impeachment. Porque a paciência de homens e mulheres diante de uma classe política devassa e alheia aos anseios e reclamos populares está chegando perigosamente ao seu limite.

Como quer que seja, o tema central desta crônica, como indica o título que a precede, acabou sendo desviado para a dolorosa quadra de sofrimentos por que passam os brasileiros, razão pela qual retornamos ao objetivo colimado anteriormente ao já extenso circunlóquio: o amigo ingrato (e traidor) de JK!

Nestes tempos sombrios de clamor por mudanças estruturais e agenda para um Brasil moderno e ético, além de ensejar reflexões e críticas, é bem oportuno trazer a lume alguns textos esparsos do comovente Diário do criador de Brasília, para invocar apenas a obra-símbolo da era juscelinista.

Carpidas decerto nos momentos de soledade e longe da Pátria, sofrendo as amarguras do exílio, as confidências de JK são como que gemidos da alma angustiada de quem exerceu o mais alto posto da hierarquia política, ungido por consagradora vontade popular, mas depois perseguido e lançado ao desterro e à humilhação, injustamente execrado e tripudiado pelos tiranos da ditadura militar.

Pungente e sem destilar rancor, entre outras anotações, o Diário de JK desnuda a humana fraqueza de um presidente que se deixou contagiar pela febre de uma paixão incontida, mas fugaz, vivenciada num desvio conjugal enquanto se envolvia, com tamanho ardor de pioneiro, no seu grandioso Plano de Metas que logrou o maior êxito com investimentos em áreas prioritárias de infraestrutura e industrial.

Revelam-se também lacerantes as provações da saga do político e do cidadão cassado sob a pecha de corrupto e subversivo, rótulos que, de resto, sob a ótica da vil inquisição militar, serviam à época de pretexto para justificar as prisões ilegais e as torturas infames dos opositores do execrável regime implantado em 1964.

Todavia, mais amargo do que o exílio e mais atroz do que a tirania dos usurpadores do poder e verdugos da democracia, revela-se sobremaneira mais constrangedora a confidência de JK quando registrou que foi publicamente traído e abandonado por muitos dos seus antigos auxiliares e falsos amigos. O registro feito no dia 22 de abril de 1975 do seu Diário tinha uma conotação pungente: aquela data, deveras evocativa ao ex-presidente, assinalava mais um ano da inauguração apoteótica de Brasília !

Escreveu Juscelino – certamente com a tinta da melancolia invocada por aquela personagem machadiana – sobre a traição cometida por seu ex-ministro da Justiça e particular amigo, o cearense Armando Falcão. JK verbera que seu antigo auxiliar -já então membro do dito governo revolucionário–, num discurso cheio de retórica bajulatória ao novo regime imposto após a deposição de João Goulart, referiu-se aos políticos e governantes banidos ao proclamar que “o passado não voltará” !

Magnânimo e leniente até nas queixas e dores da alma, porém, o ex-presidente omitiu no seu Diário -embora o fato seja notório – que aquele ingrato ex-amigo fora contemplado no seu governo com um vitalício e precioso cartório imobiliário da zona sul carioca !

Ao deixar de revelar o régio presente oferecido àquele trânsfuga da amizade, o proscrito presidente -então senador por Goiás– optou pelo silêncio, talvez uma forma de perdão post-mortem ao ingratíssimo mau caráter tabelião de Copacabana. Não foi por mero capricho literário que Dante reservou o piso mais profundo do seu famoso Inferno às criaturas ingratas, justo para que possam ser consumidas, lenta e perenemente, pelas labaredas da traição e da deslealdade.

Testemunhas oculares e partícipes de históricos movimentos cívicos e campanhas libertárias, nos tempos de paz e progresso de JK, merecedor do unânime engajamento de fé da juventude brasileira, os estudantes contemporâneos da era juscelinista sempre haverão de lembrar a figura sinistra de Armando Falcão, contemplado com solenes enterros simbólicos pelas ruas do Rio de Janeiro, muito embora tivesse o condão de “ressuscitar” a cada passeata mais enrustido e intolerante.

Como perseguidor ideológico e carcereiro-mor de tantos líderes estudantis (o autor foi um deles!), o ex-ministro de JK notabilizou sua administração por recolher às masmorras do DOPS, sem nota de culpa, estudantes e trabalhadores cujos fichários, durante os anos negros da ditadura, tornaram-se fonte inesgotável de denúncias e perseguições.

Dentre os presidentes – são mais de trinta – da vida republicana que compõem a galeria de ex-mandatários da nação, JK não concorre ao título de estadista perfeito. Nenhum dos outros presidentes, porém, chegou tão próximo ao perfil ideal de governante democrata, jovial, tolerante, arrojado e empreendedor, qualidades positivas que a História e os biógrafos reconhecem e exaltam ao notável político mineiro.

Com efeito, JK foi absolvido de seus erros e defeitos, graças à capacidade de impregnar os brasileiros de um sadio ufanismo e de um forte sentimento de apreço ao nosso torrão natal, hoje tão conturbado e vilipendiado, sem xenofobias ou submissões , através de grandes mudanças e realizações sociais e culturais que deram partida ao processo desenvolvimentista de integração política e econômica do Brasil acanhado e latente dos anos 50.

Sem dúvida, JK não prometeu nem criou o reino da feliz igualdade e da bonança venturosa do leite e mel eternos ! Tampouco consumou o sonho ancestral da humanidade de trabalhar menos e viver melhor.

Enfim, JK não realizou utopias. Mas ousou impulsionar o progresso e promover a harmonia e a paz social numa quadra de euforia e de otimismo tão ausentes nos dias que correm. Sobretudo, JK resgatou a autoestima nacional através da sua vitalidade e coragem, somadas às ações pioneiras e empreendedoras e ao talento gerencial de brasileiros de todos os rincões que lograram enfrentar sob o seu impetuoso comando obstáculos descomunais para erigir nas solidões destes altiplanos goianos o desafio de Brasília !

 

(Wagner de Barros, advogado)

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