Brasil

Recordações de um Natal

Redação DM

Publicado em 10 de dezembro de 2016 às 01:12 | Atualizado há 10 anos

Dezembro de 1931 estávamos alegres, mas um natal se aproximava , Eu Eusébio Fernandes juntamente com meus irmãos Rodolfo e Carminda e meus pais Atanásio e Cândida preparávamos com expectativa os festejos de Natal.

Era tudo muito alegre, Minha mãe Cândida e Minha avó Heloisa cuidavam de todos os detalhes para a ceia que iria acontecer depois da Missa do galo que se realizava a meia – noite presidida pelo padre Osmar na igreja matriz de Cordeirópolis Goiás, nessa época me lembro muito bem à igreja ficava lotada, todos procuravam chegar mais cedo para conseguir os melhores lugares e poder assistir a missa que era muito bonita com um coral de doze crianças cantando musicas natalinas.

Nessa época, o natal tinha outro sentido, as pessoas não se preocupavam apenas em consumir, comprar presentes, mas em alimentar o espírito com a palavra tendo em mente o verdadeiro sentido do natal que é o nascimento do menino Jesus.

Eu e meu irmão Rodolfo ajudávamos meu pai Herculano na criação de gado e nas Hortaliças, enquanto minha irmã Carminda ajudava minha mãe Cândida nos afazeres domésticos. No dia 24, terminávamos mais cedo o serviço e íamos descansar,

Meu avô Cláudio sempre ia visitar e passava o natal conosco com minha avó Heloisa, enquanto isso na cozinha minha mãe Cândida, Carminda e minha avó Heloisa preparavam a ceia com lombo assado, Feijão tropeiro, Costela de porco e arroz com pequi, e para sobremesa doce de goiaba, doce de figo, doce de leite, doce de pêssego e um pudim. Ao chegar lá pelas sete horas íamos nos aprontar para ir à missa, pois o padre Osmar não se atrasava e da roça até Cordeirópolis eram doze quilômetros, tínhamos que sair mais cedo para encontrarmos lugares para sentar.

Saiamos em duas caminhonetes uma era de meu pai Herculano e outra do meu avô Cláudio quando chegávamos em Cordeirópolis a cidade estava toda iluminada cheia de luzes natalinas , as pessoas estavam todas bem vestidas para celebrar o nascimento do menino –Deus usavam suas melhores roupas pois era uma data especial.

Ao chegar à matriz o padre Osmar sempre recebia com alegria dizendo que Jesus estivesse conosco, isso era recorrente antes das celebrações ele dizer isso para os fiéis e que não saiu da minha memória , quando começava a missa a igreja estava com grande aglomeração que mal cabia as pessoas dentro do recinto sendo que algumas pessoas ficavam do lado de fora pois não havia bancos suficientes , mas ninguém se importava pois queriam celebrar o nascimento do menino Jesus .

Na homilia o padre Osmar sempre dizia que o nascimento do menino Jesus foi o fato mais importante da Historia, pois delimitou o tempo, antes e depois de Cristo, dizia também que Jesus veio para transformar a humanidade e trazer princípios novos para as pessoas. Ao terminar a missa, sempre havia apresentação com musicas natalinas com o noite feliz para o final da apresentação , quando terminava o espetáculo íamos para praça onde meu pai Herculano e me avô Cláudio iam conversar com seu Praxedes e minha mãe Cândida e minha avó Heloisa iam conversar com sua esposa, enquanto isso eu Eusébio e Rodolfo íamos brincar com Carlos o filho do seu praxedes e Carminda brincar com Domitila a sua filha , a conversa era boa pois seu Praxedes e dona Catarina e seus filhos Carlos e Domitila eram pessoas alegres , simples e educadas que não se importavam com nossa condição social , pois seu Praxedes tinha uma farmácia bem montada em Cordeirópolis e na vizinha cidade de Diamante.

O assunto estava muito bom, mas não podíamos demorar mais e logo nos despedimos desejando um feliz natal e fomos para o sitio celebrar o nascimento com uma ceia que me faz sentir saudade, quando chegava ao sitio antes da ceia meu pai sempre fazia as suas orações pedindo a Deus forças para lutar contra as adversidades da vida. Nesse dia lembro bem meu pai Herculano juntamente com minha mãe Cândida iam buscar os presentes que haviam comprado para mim e para meus irmãos que tinham sido adquiridos com um turco conhecido que se chamava Hanan que era um comerciante próspero na cidade de Cordeirópolis  e que vendia para toda a cidade , pois além de ser um excelente comerciante era uma pessoa simples e alegre.

Ao voltarem com os presentes percebi a alegria nos olhos de meu pai e minha mãe chamou-nos um por um, para meu irmão Rodolfo deu um carrinho de madeira e para mim um cavalinho de madeira e para minha irmã Carminda uma boneca de pano, enquanto meu avô Cláudio ganhou um canivete muito bonito marca corneta e minha avó Heloisa um pano para fazer um vestido, minha mãe Cândida ganhou de presente um lindo quadro da santa ceia por meu pai Herculano e meu pai ganhou de minha mãe Cândida uma linda Bíblia.

Passados estes momentos de troca de presentes fomos para a ceia alimentarmos e depois da ceia meu avõ Cláudio sempre tocava modas de viola que alegrava a todos tanto que ficávamos até altas horas e depois íamos deitar.

No outro dia passada toda a festa , ao chegar a tardinha , era o momento mais triste pois meu avô Cláudio e minha avó Heloisa iam embora e ficávamos tristes com suas ausências , desejosos que eles voltassem logo.

Relembrando de tudo isso no natal de 2010 sentado na varanda de minha casa em São Paulo recordei tudo, tanto que cheguei a dormir e sentir saudade daquele tempo que não volta mais , onde o natal tinha um sentido de ser e as famílias se reuniam .

Meus irmãos não os vejo mais após a morte de meus pais se mudaram para Nova Aurora, Santa Catarina onde trabalham no comércio e hoje são grandes empresários e não se preocupam mais comigo e somente com seu patrimônio , luxo e ostentação .

Eu Eusébio Fernandes, trabalhei muito desde pequeno fui agricultor, sapateiro, pedreiro, comerciante e hoje formado em agronomia e aposentado vivo com alegria com minha esposa Constãncia e meus filhos Renato e Paula e meus netos Alexandre e Larissa e bisnetos Gilberto e Carla, mas aquele natal de 1931 não esquecerei jamais, um natal com muita alegria e emoção onde tinha a presença de meus pais com amor e dedicação e do meu avô e minha avó que eram muito bons, sendo recordações de um natal que não sairão do meu pensamento e que a felicidade está nos bons momentos que vivemos.

 

(Ruy da Penha Lôbo, graduado em Letras Espanhol –UCG hoje Puc Goiás, residente em Bonfinópolis – Goiás   Twitter: @penhalobo: Facebook: Ruy da Penha Lôbo – blog: http://imruy.blogspot.com)

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