O keynesianismo às avessas em Goiás
Redação DM
Publicado em 6 de dezembro de 2016 às 01:21 | Atualizado há 10 anosAcabo de concluir a leitura do livro do professor Luiz Gonzaga Belluzzo, “O Tempo de Keynes nos tempos do capitalismo.” Para aqueles que conhecem o autor como ex-presidente do Palmeiras (ele é fanático pelo clube), saibam que sua estatura vai muito além disso.
Luiz Gonzaga Belluzzo foi um dos principais líderes que consolidaram o Instituto de Economia da Universidade de Campinas (UNICAMP) como importante centro de estudos do pensamento heterodoxo no Brasil. O pensamento econômico da UNICAMP, heterodoxo, vai de encontro a mão invisível do mercado como agente estabilizador. Os heterodoxos keynesianos defendem a ação do Estado como agente do desenvolvimento, já os ortodoxos são árduos defensores do Estado mínimo, aquele que pouco intervém na atividade econômica. O deus da heterodoxia é o economista inglês John Maynard Keynes (Estatista); o diabo, o economista norte-americano Milton Friedman. Friedman defende pouca interferência estatal na economia.
Luiz Gonzaga Belluzzo é, sem dúvida, uma das maiores autoridades em Keynes no país. Seu mais recente livro aborda interessantes temas que nos ajudarão a entender o assunto que nos propomos mais adiante a discutir. Destaco dois importantes trechos, o primeiro se refere a uma explicação do próprio Keynes sobre investimentos; o segundo avalia um conceito de Keynes a respeito de um tema eminentemente keynesiano: a demanda efetiva.
“[…] da mesma forma que a aparência de superinvestimento não significa efetivamente a existência de superinvestimento de um ponto de vista social, também o aparente excesso de bens de consumo não representa um excesso sobre o que deveria ser a capacidade social do consumo.”
“A demanda capitalista está sempre inclinada a concentrar-se no dinheiro, ou em ativos líquidos. Ela não é efetiva no sentido de que não sucinta o emprego de novos trabalhadores para satisfazê-la.”
Os dois trechos enfatizam a questão do verdadeiro equilíbrio entre oferta e demanda. Para Keynes, a oferta de um bem deve se equilibrar com a demanda. Entretanto a demanda a que se refere ele é aquela efetiva, geradora de empregos para a classe trabalhadora.
Vejamos um exemplo no setor de energia elétrica. Imaginemos que uma determinada região necessite de 200 quilowatts de demanda para atender ao crescimento da economia. Entretanto a empresa estatal coloca 2000 quilowatts. Dez vezes mais! Os 200 quilowatts vão atender à demanda efetiva de 200 quilowatts. E os outros 1800 quilowatts a quem vão atender?
Eis a resposta: a ninguém, pois estão ociosos. Servirão apenas para transferir renda de uma empresa pública para agentes privados. É o enriquecimento fácil à custa de toda uma sociedade. Eis aí a face mais visível do “desenvolvimento” que se metamorfoseia numa perversa dominação política de um povo. Posto isso, vejamos como se portou o keynesianismo implantado em Goiás a partir da vitória da Revolução de 1930.
De 1930 até o final dos anos de 1970, a energia para o desenvolvimento de fato atendeu a inúmeras demandas reprimidas que existiam pelo Goiás afora. Nesse sentido, a construção da Usina Hidroelétrica de Cachoeira Dourada representou oferta de energia necessária para atender às necessidades por eletricidade das indústrias, do comércio, das residências e da zona rural. A oferta atendeu à demanda efetiva tal qual prevê o verdadeiro keynesianismo.
Por sua vez, dos anos de 1980 até os dias de hoje, a oferta de energia não atendeu à demanda efetiva geradora de empregos. Nesse contexto, modernizar significou investimento demais para demanda de menos. Alguém ganhou para toda uma sociedade perder. E partir dessa bonança que nasciam os infinitos aditivos contratuais dos pacotes tecnológicos, a antecipação da construção de subestações — enfim: tudo muito distante do verdadeiro keynesianismo.
Na verdade, dos anos de 1980 para cá, a oferta excessiva de energia fez a alegria de empreiteiros, consultores e representantes governamentais, de um pseudokeynesianismo que fomentou viagens internacionais de primeira classe regadas a vinhos e champanhes caros, bolsas de grife, além de muito gado no pasto. O keneysianismo às avessas depredou patrimônios estatais fazendo novos ricos. É o keynesianismo às avessas que operações como a Lava Jato começam a desnudar.
(Salatiel Soares Correia, Engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento Energético e autor, entre outras obras, de A Construção de Goiás)