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Artistas reclamam de calote da prefeitura

Redação DM

Publicado em 30 de novembro de 2016 às 00:27 | Atualizado há 2 anos

O final de governo parece que não está sendo nada fácil para os artistas, técnicos, produtores e outros profissionais que trabalharam para a Secretaria Municipal de Cultura, capitaneada pelo escritor e artista plástico Ivanor Florêncio. Mais de 50 artistas, técnicos ou grupos artísticos prestaram serviços para a Secretaria e não receberam. Pior: notícias vindas da própria secretaria dizem que não vão receber.

Nas redes sociais, já começam a pipocar críticas e cobranças dirigidas aos dirigentes da Secult, no sentido de ainda tentar receber esses débitos. “Estamos planejando uma visita ao prefeito Paulo Garcia, já que seu secretário de Cultura e assessores se mostram incompetentes para resolver esses problemas criados por eles mesmos”, avisa um artista que pediu para não citar seu nome, com medo de represálias.

Para a reabertura do Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, que ficou fechado cerca de seis meses, profissionais foram contratados para manter o espaço aberto. Entre esses profissionais, técnicos de luz e som do Teatro e projecionistas do Cinema, que agora reclamam que os valores acertados com a secretaria, no ato da contratação, não foram cumpridos integralmente pela Secult.

“Corremos o risco de receber apenas metade do valor acertado com o secretário e seu chefe de gabinete”, reclama Roosevelt Saavedra, técnico de luz. Esses técnicos dizem que a secretaria os comunicou que foi aberto processo de apenas metade do valor combinado e que, segundo autoridades municipais, não existe tempo hábil para fazer o processo do restante. “Isso denota má fé e incompetência por parte da Prefeitura de Goiânia, através da sua Secretaria de Cultura”, atira Saavedra.

Todos os projetos feitos a partir de ações do Grande Hotel também ameaçam não ser pagos. São cerca de 40 artistas, produtores e fornecedores que correm o risco de não receber. “Participamos de projetos como Literatura no Eixo, Música na Sacada, Batalha de MCs, Sarau do Grande Hotel, Tataruê – Baile de rua, etc” afirma um dos artista participante do Música na Sacada, Allex Flores. “Se juntar todas as pendências, temos ainda quase R$ 20 mil para receber da prefeitura, via Secult, referente a diversas ações culturais semanais que se acumularam entre 2015/2016 e que não foram pagas e as informações que temos são desanimadoras. Tememos levar o cano da Prefeitura de Goiânia. Tudo indica que esse calote é quase certo. Nós ainda botamos fé que o prefeito Paulo Garcia pode nos ajudar, pois não acredito que ele queira nos dar o cano. Essa é nossa última solução, pois não acreditamos mais nos dirigentes da Secult Goiânia”, acrescenta Allex.

O músico Pedro Kallebe também bota a boca no trombone: “Somos artistas de todas as áreas, pois os projetos eram de artes integradas. Temos cantores, cantoras, DJs, gente do teatro e da dança, técnicos de som e luz. Todos nós estamos perdidos. Fizemos reuniões com o chefe de gabinete, Deryk Santana. Foi prometido o pagamento e nada. Funcionários da Secult informaram que vários processos foram abertos e acabaram voltando, sendo cancelados, por erros e falhas da própria Secretaria de Cultura”.

“Gestão medíocre”

Os Pontos de Cultura também se queixam da gestão da Secretaria de Cultura de Goiânia: “A situação é terrível. Nos devem a última parcela do Ponto, firmado em 2009. Era para ter sido concluído em 2011, ano em que recebemos a primeira parcela. A segunda, em 2013, com um ano de atraso. E a última parcela, pelo visto, não será paga. Nessa gestão, estava tudo pronto para ser pago, prestação de contas em dia, tudo certo. Tudo o que aconteceu foi pura enrolação”, reclama Nando Rocha, ator e diretor do Grupo Sonhus Teatro Ritual, numa postagem no Facebook.

João Bosco Amaral, da Cia. Oops de Teatro, também abriu a boca no Facebook: “Um descaso total. Essa é a pior gestão da prefeitura, em todas as áreas. Além de não conseguirem manter nenhuma ação na Cultura, sucatearam os espaços. Não fizeram nada. Essa gestão não permitiu a nenhum artista ou produtor cultural ter dignidade, seja nos inúmeros atrasos nos editais da Lei de Incentivo Municipal, seja nos atrasos a pagamentos de eventos. Tudo o que foi feito, foi de forma medíocre, capenga, bem a cara da gestão incompetente e nula”.

Nando Rocha ainda desabafa: “Mais uma vez aceitamos fazer o Goiânia em Cena. A gente se deixa rebaixar por muito pouca coisa. Nós, o povo do teatro, somos tão exageradamente apaixonados pelo que fazemos que esquecemos da ética e do respeito e vamos entrando nessas latadas, porque acreditamos nas ficções. Somos loucos tentando sobreviver de arte num mundo fascista e cruel, onde aqueles que acreditamos serem cordeiros são lobos ferozes e famintos”.

Os grupos que participaram do Festival de Artes Cênicas Goiânia em Cena, uma das mostras mais importantes da área no País, também parecem estar correndo o risco de ficarem sem ver a grana. Só nesse festival, cerca de 40 grupos de teatro, dança, circo e músicos foram contratados pela Secult e todos eles podem ficar a ver navios. O ator e diretor Rafael Blat questionou, nas redes sociais, a administração municipal da área cultural.

“E com perdão da palavra, minha gente, existe alguma gestão? Que modelo é este? Um modelo inovador, surreal, que a gente mal vê resultados, e só fortalece a “turminha deles”? Realmente, para esta gestão, parece que está tudo correndo normalmente, o ano vai acabando, o Goiânia em Cena sem pagar, o Grande Hotel e o Goiânia Ouro sucateados, e eles sem um pingo de amor à arte, que é o mínimo que um gestor cultural deve ter”.

Pri Loyola, produtora e organizadora do Tataruê, Baile de Rua, um dos eventos que partiu do Grande Hotel, lembra que os débitos se arrastam desde 2015. “Eu também fico triste em querer cobrir um pouco do vazio e da falta de políticas públicas culturais no município de Goiânia, enquanto produtora. Vamos ocupando espaços que estava às moscas, com música, arte, entretenimento, em ‘parceria’ com a Secretaria e não vejo eles honrarem seus compromissos”, detona. E finaliza: “Até quando vão chamar a sociedade para somar e fazer a gente tirar dinheiro do bolso e fazermos dívidas, sem previsão de pagamentos?”.

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SILÊNCIO

A reportagem entrou em contato por várias vezes com a Secult Goiânia e o secretário de Cultura, Ivanor Florêncio, porém não conseguimos obter uma resposta oficial sobre a polêmica até o fechamento da matéria. A reportagem também tentou contato pelo telefone pessoal 98400-1*** e não obteve sucesso.

O jornal Diário da Manhã reitera que deixa em aberto o espaço para que o secretário de Cultura possa responder tais questionamentos da classe artística de Goiânia.

Apesar de não se pronunciar oficialmente sobre o atraso nos pagamentos de artistas na Capital, o secretário Ivanor Florêncio comentou em uma postagem no Facebook, de seu perfil pessoal, dizendo que:“Não tem silêncio, é só ligar pra Marci ou ir na Secult falar comigo. Recebo desde o dia que entrei na Secult todas as pessoas que nos procuram, não tem falta de transparência e se tiver, diz onde que procuraremos esclarecer. Fizemos o Goiânia em Cena apesar de tudo ser desfavorável e vamos pagar na nossa gestão. Não é só nossa capital Goiânia que passa por dificuldades, mas quase todas do mundo, não só do Brasil, então, assegurar a Lei de incentivo disponibilizada foi uma vitória. Estranho é essa desunião, esse grito que reverbera sempre contra nós, artistas e produtores culturais. Aprovamos na Câmara Municipal, na última sexta, a inclusão da Secult no Sistema Nacional e Estadual de Cultura, é pouco, mas estamos caminhando. Ainda dá tempo de resolver nossas pendências, qualquer problema que tiver em aberto leva para a Secult amanhã ou depois, ou ligue e fale conosco que vamos resolver. Um abraço fraterno, de frente”.

 

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