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Redação DM

Publicado em 26 de novembro de 2016 às 01:45 | Atualizado há 2 anos

Com o propósito de criar, no meio acadêmico, um espaço  de  discussão  das  políticas  de  representação das  sexualidades  e  identidades  de  gênero  e  raça,  o  curso  de  Cinema  Audiovisual  da  Universidade  Estadual  de  Goiás  (UEG),  em  parceria  com  o  Centro  Acadêmico  Silvio Medeiros realiza o SEJA – I Encontro da Diversidade Sexual e de Gênero no Audiovisual, de 28 a  30 de novembro de 2016, em Goiânia.

A proposta deste evento está em consonância com as críticas e transformações propostas por movimentos negros, feministas, gays e lésbicos e pela teoria queer desde os anos de 1960. Esses grupos questionam o ponto de vista masculino, branco e heterossexual ainda predominante na produção de conhecimento e nos processos cotidianos de reconhecimento social. Dessa forma, tais reivindicações ultrapassam o terreno dos gêneros e da sexualidade e nos instigam a pensar, de um modo renovado, a cultura, as instituições, o poder e as formas de aprender e estar no mundo.

Mesas redondas, mostra audiovisual, debate e oficinas fazem parte da programação de três dias do SEJA, evento que busca promover um diálogo entre estudantes da UEG e de outras instituições, a população local e pesquisadores, realizadores e militantes de grupos LGBTTI (Lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, travestis e intersexuais). A ideia é discutir tanto a construção de narrativas sobre tais temáticas quanto a atuação profissional na produção audiovisual goiana e nacional.

Na abertura do evento, dia 28, às 19 horas, com a mediação do jornalista Fernando Matos, a mesa redonda “Perspectivas queer em audiovisualidades contemporâneas” conta com a participação da realizadora Patricia Guedes (egressa do curso de Cinema e Audiovisual e diretora do curta Entre nós), do estudante do curso, Lu Hiroshi , também diretor do curta Belize; e do cineasta Gustavo Letruta, de Brasília (diretor do documentário Andarilhas), que apresentam seus processos de criação/realização audiovisual e a partir de suas produções abordam questões como a autoafirmação lésbica, a identidade transgênera e a mobilidade urbana sob o olhar de duas Drag Queens.

Tais produções propõem diferenciadas significações sobre gênero e sexualidade e assim constituem perspectivas queer, termo que pode ser traduzido como estranho, excêntrico; pode ser uma forma pejorativa de se referir a homens e mulheres homossexuais, mas é também uma forma de designar a atitude política de oposição e contestação à heteronormatividade que estrutura as relações sociais. Ao utilizar em suas construções narrativas, escolhas estéticas, códigos imagéticos e linguagens que expressam a subjetividade e o posicionamento de quem as produzem, esses filmes transitam entre as audiovisualidades contemporâneas, já que utilizam elementos dos múltiplos regimes de imagens, sons e formatos cinematográficos e audiovisuais e que fazem parte do nosso cotidiano, orientam e mediam nossas experiências, nossa relação com o mundo.

Outras duas mesas redondas fazem parte da programação do evento, respectivamente nos dias 29 e 30, às 9h no Auditório do Campus UEG Laranjeiras. Na terça-feira, a mesa Gênero, sexualidades e relações étnico-raciais no audiovisual reúne Ester Sales Matos (Mestre em Filosofia, Pesquisadora de Fenomenologia e Sexualidade Humana; e Co-fundadora do Coletivo TransAção/UFG), Luciene de Oliveira Dias (Professora da Faculdade de  Informação e Comunicação; e Coordenadora de Ações Afirmativas da UFG), Elaine Gonzaga (Jornalista, Militante lésbica e ex-Presidenta do Conselho Estadual LGBTT de Goiás) e Luis Felipe Hirano (Professor da Faculdade de Ciências Sociais/UFG e Pesquisador de gênero, raça e sexualidade no cinema), com a mediação de Rallyanara Freire (Doutoranda em Antropologia Social/UNICAMP).

Na quarta-feira, é a vez das/dos egressas/os do curso de Cinema e Audiovisual da UEG, Larissa Fernandes (Produtora), Benedito Ferreira (Diretor de Arte e professor da EMAC/UFG), Guilherme Nogueira (Técnico de som) e Thais Oliveira (Sound Designer e Professora do curso) apresentarem um pouco de suas experiências profissionais na mesa redonda Diversidade sexual e de gênero na produção audiovisual – desafios e possibilidades, que conta com a mediação de Michely Ascari (Produtora e estudante do 4º período do curso). A proposta desta mesa, que se também se insere nas atividades comemorativas dos 10 anos do curso, é discutir, a partir do âmbito regional, as assimetrias de gênero ainda existentes na produção audiovisual brasileira.

Um dos destaques da programação do SEJA é a mostra audiovisual, que será realizada nos dias 29 e 30 de novembro, às 19 horas no Cine Cultura. De um conjunto inicial de 38 produções, foram selecionadas 18, entre curtas, webséries e videoclipes, a partir dos seguintes critérios de curadoria: o fato de serem produções nacionais, lançadas nos últimos oito anos; terem curta duração (até 25 minutos); abordarem a temática da diversidade sexual e de gênero (e suas intersecções com outros marcadores sociais, como raça e classe); e utilizarem os elementos da linguagem audiovisual de forma criativa e sensível para explorar nuances e contradições na construção das personagens e na narrativa. Das produções selecionadas, vale destacar os curtas Os sapatos de Aristeu, de René Guerra (SP, 2009) e Eu sou homem, de Marcia Cabral (SP, 2007); a comédia lésbica A caroneira, de Otavio Chamorro e Thiago Vaz (DF, 2012), e o videoclipe Apologia às virgens mães, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira (dirigido por Jaloo, SP, 2016).

No dia 30/11 (quarta-feira), a mostra terá ainda com a exibição do longa metragem Entre os homens de bem, de Caio Cavechini e Carlos Juliano Barros, um documentário inédito sobre a atuação do deputado Jean Willys no Congresso Nacional. Seu posicionamento como porta-voz da causa LGBT o tornam um corpo estranho neste cenário político cada vez mais conservador.

Após a exibição será realizado um debate com Priscila Martins, mestre em Direitos Humanos e integrante dos Coletivos Rosa Parks-UFG e Rede de Lésbicas e Mulheres Bissexuais de Goiás;  Estevão Arantes, mestre em Sociologia e Professor da SEDUCE/GO – Ciranda da Arte); Pollyana Marques, militante negra e lésbica e integrante da Coordenação de Promoção de Equidade em Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de Goiás; e como mediador, Rezende Bruno de Avelar, coordenador de Direitos Humanos e Diversidade da Pró-Reitoria de Graduação da UEG.

Esse debate encerra o SEJA – I Encontro da Diversidade Sexual e de Gênero no Audiovisual, que destaca a relevância do cinema e do audiovisual como ferramentas políticas, por meio das quais é possível pensar e construir novas formas de representação e de reconhecimento do caráter múltiplo e interseccional das construções de sexualidade, gênero e raça na sociedade brasileira. Todas as atividades são gratuitas e todos os participantes receberão certificado online.

O DM Revista também conversou com a jornalista, militante e ex-Presidenta do Conselho Estadual LGBTT de Goiás, que estará presente no SEJA na mesa redonda Gênero, sexualidades e relações étnico-raciais no audiovisual. Confira a entrevista:

 

Entrevista com Elaine gonzaga

DM: Primeiramente, gostaria que você falasse um pouco sobre seu trabalho como militante, na luta pela igualdade de gêneros e etnias na sociedade.

EG: Fui militante do grupo Colcha de Retalhos na UFG por muitos anos. Foi um espaço muito importante na minha formação como militante e também foi parte importante do processo de formação nos estudos de gênero. Trabalhei na Secretaria de Políticas para Mulheres e Promoção da Igualdade Racial por 4 anos. Primeiro na Superintendência de Igualdade Racial, depois na Gerência de Diversidade. Fui presidenta do Conselho Estadual LGBTT por dois anos.

 

DM Revista: E o que você acha da ideia, tanto da proposta do evento quanto da forma em que serão discutidas as temáticas propostas? Acredita que começar a debater sobre a diversidade sexual  de dentro das universidades para a população em geral é uma forma até mesmo de fazer com que as pessoas mudem a visão preconceituosa de indivíduos que sempre foram colocadas à margem da sociedade?

Elaine Gonzaga: A ideia é muito bacana, até pq os cursos de comunicação não fazem essa discussão de gênero e sexualidade nas suas grades curriculares, o debate fica sempre condicionado a professoras e professores que tem boa vontade ou que já tem estudos nessa área para o debate acontecer.

As temáticas são muito bem trabalhadas, a seleção de filmes está muito legal, privilegiando os curtas brasileiros que são a principal fonte de produção audiovisual voltada para a temática de diversidade sexual no país.

Infelizmente um festival não tem o poder de fazer mudanças de visões, pq a população em geral não vai participar e assistir os filmes e discussões. Infelizmente essa é uma realidade. O bacana de ser feito em conjunto com a universidade é que estudantes de outras áreas acabam participando das discussões e dessa forma conhecimentos são adquiridos e pré-conceitos são quebrados.

 

DM: O preconceito pode partir de diversas maneiras, seja por falta de informação, falta de empatia, ou até mesmo por crença e fanatismo religioso. Para você, qual a pior motivação para o preconceito e qual a maneira mais eficiente de combater essa rejeição pelas diferenças e variedades existentes na sociedade?

EG: O machismo é o pai de todos os outros preconceitos. As pessoas dizem que é o capitalismo. Na minha opinião não é. Do machismo deriva a homofobia, a misoginia, o sexismo e estrutura o patriarcado na sociedade. Todos os motivos que vc cita são fundamentados a partir de uma sociedade machista. Mas se for para destrinchar a crença e o fanatismo religioso são os piores. Pq a religião tem o poder de formar e moldar as pessoas. Atualmente as decisões legislativas no país são formatadas com base numa doutrina cristã. O Brasil precisa entender o sentido do que é estado laico. Com urgência. No Uruguai, por exemplo, é um país com forte tradição cristã, principalmente católica. Mas lá o aborto é legal, existe lei de identidade de gênero, a maconha é legalizada para uso. Pq? Pq é um país que entende fielmente e respeita a separação entre estado e religião.

 

 

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

 

28/11 (SEGUNDA-FEIRA) – 19h às 22h – Auditório – UEG Campus Laranjeiras – ABERTURA

– Mesa redonda Perspectivas queer em audiovisualidades contemporâneas

Patrícia Guedes (Egressa do curso de Cinema e Audiovisual/UEG; Diretora do curta Entre nós, GO, 2014)

Lu Hiroshi (Estudante do curso de Cinema e Audiovisual/UEG; Diretor do curta Belize, GO, 2016)

Gustavo Letruta (Coreógrafo e cineasta na produtora Baleia Filmes; Diretor do curta Andarilhas, DF, 2014)

Mediação: Fernando Matos (Jornalista e Mestre em Mídia e Cultura)

29/11 (TERÇA-FEIRA) – 9h às 12 h – Auditório – UEG Campus Laranjeiras

Mesa redonda Gênero, sexualidades e relações étnico-raciais no audiovisual

Ester Sales Matos (Mestre em Filosofia, Pesquisadora de Fenomenologia e Sexualidade Humana; e Co-fundadora do Coletivo TransAção/UFG)

Luciene de Oliveira Dias (Professora da Faculdade de  Informação e Comunicação; e Coordenadora de Ações Afirmativas da UFG)

Elaine Gonzaga (Jornalista, Militante lésbica e ex-Presidenta do Conselho Estadual LGBTT de Goiás)

Luis Felipe Hirano (Professor da Faculdade de Ciências Sociais/UFG e Pesquisador de gênero, raça e sexualidade no cinema)

Mediação: Rallyanara Freire (Doutoranda em Antropologia Social/UNICAMP)

14h às 16h – Sala do Projeto TRAMA-UEG Campus Laranjeiras

OFICINA: Vivências de sexualidade com Estevão Arantes (Professor da SEDUCE/GO – Ciranda da Arte)

16h às 18h – Sala de Visagismo – UEG Campus Laranjeiras

OFICINA: Maquiagem para cinema com Ana Simiema (Figurinista e maquiadora)

19h às 22h30 – Cine Cultura – MOSTRA AUDIOVISUAL

30/11 (QUARTA-FEIRA)

9h às 12 h – Auditório – UEG Campus Laranjeiras

Mesa redonda Diversidade sexual e de gênero na produção audiovisual – desafios e possibilidades

Larissa Fernandes (Produtora)

Benedito Ferreira (Diretor de Arte e professor da EMAC/UFG)

Guilherme Nogueira (Técnico de som)

Thais Oliveira (Sound Designer e Professora do curso de Cinema e Audiovisual/UEG);

Mediação: Michele Ascari (Produtora; Estudante do curso de Cinema e Audiovisual/UEG)

15h às 17 h – Centro Cultural UFG

OFICINA: Corpo, performance e desconstrução com Anna Behatriz Azevedo (Bailarina e artista performer)

19h às 22h30 – Cine Cultura

– MOSTRA AUDIOVISUAL

– DEBATE com:

Priscila Martins (Integrante dos Coletivos Rosa Parks-UFG e Rede de Lésbicas e Mulheres Bissexuais de Goiás; Graduada em Letras e Mestre em Direitos Humanos)

Estevão Arantes (Mestre em Sociologia e Professor da SEDUCE/GO – Ciranda da Arte);

Pollyana Marques (Militante negra e lésbica; Estudante de Letras e integrante da Coordenação de Promoção de Equidade em Saúde da Secretaria de Saúde do Estado de Goiás)

Mediação: Rezende Bruno de Avelar (Coordenação de Direitos Humanos e Diversidade da Pró-Reitoria de Graduação da UEG)

– ENCERRAMENTO

 

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