Cirurgia redentora
Redação DM
Publicado em 23 de novembro de 2016 às 00:57 | Atualizado há 2 anosA doença de Parkinson, também chamada de mal de Parkinson ou Parkinsonismo, é um dos grandes males da saúde e que afeta pelo menos 1% da população mundial acima dos 65 anos. No entanto, com o avanço da Medicina e com as melhorias nos métodos de estudo do cérebro humano, a cirurgia de DBS visa inibir os sintomas da doença e devolver a qualidade de vida àqueles que sofrem com o Parkinson.
A doença de Parkinson é uma das doenças neurológicas mais comuns dos dias de hoje. No mundo inteiro, ela atinge todos os grupos étnicos e classes socioeconômicas. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 1% da população mundial acima de 65 anos é afetada por ela. A prevalência estimada é de 100 a 200 casos por 200 mil habitantes.
Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas são diagnosticadas como portadoras da doença de Parkinson a cada ano e 1,6% da população com mais de 65 anos tem a doença. No Brasil, existem poucas estatísticas, mas estima-se que 200 mil pessoas sofram da doença. Um estudo epidemiológico realizado na cidade de Bambuí, em Minas Gerais, encontrou uma prevalência de 3,3% em pessoas com idade acima de 65 anos.
Histórico da doença
A doença de Parkinson ou Parkinsonismo já teve seus sintomas descritos pelo inglês James Parkinson, também sendo chamada de paralisia agitante, em que o paciente apresenta, além da lentidão e rigidez de movimentos, tremores constantes. É uma doença degenerativa de uma região no cérebro chamada de substância negra, onde acontece um processo de apoptose, ou seja, de perda neuronal e que provoca esse sintomas.
Com essa degeneração da substância negra, ocorre também a diminuição considerável ou a perda da produção da dopamina, que é sintetizada nessa mesma região. A dopamina é responsável por regular o estado emocional do indivíduo, ou seja, com menos dopamina no organismo, o paciente com Parkinson é mais triste e deprimido. “Não apenas em decorrência dos sintomas e da limitação de movimentos que a doença impõe ao paciente, mas também por causa dessa queda de produção de dopamina”, explica o médico neurologista Luiz Fernando Martins, que também é diretor de ensino e pesquisa do Hugo e diretor técnico do Instituto de Neurologia de Goiânia.
“Então deveu-se à ciência descobrir que existe uma alteração dessa dopamina em núcleos específicos cerebrais, então logo a primeira tentativa foi aumentar essa produção de dopamina, tendo em vista que existem substâncias que visam repor essa queda de síntese da dopamina”, continua o especialista. Ele conta também que foi em 1947, a partir de cálculos matemáticos tridimensionais (sistema cartesiano x, y e z), que começou o desenvolvimento de tecnologias para procedimentos cirúrgicos.
“As primeiras cirurgias, as chamadas estereotáxicas, consistiam em lesionar determinadas áreas do cérebro que se tornavam hiperativas, como se houvesse uma alteração do equilíbrio da atividade cerebral. Então esse procedimento cirúrgico visa devolver o equilíbrio que existia ali antes”, explica o neurologista.
O próspero procedimento
Com o passar do tempo, surgiu a ideia e também o avanço tecnológico de estimular as áreas pouco ativas do cérebro, ao invés de inibir as hiperativas. Esse procedimento é chamado de Deep Brain Estimulation (DBS), ou Estimulação Cerebral Profunda, numa tradução direta (ECB), onde tem uma aceitação melhor tanto por profissionais, quanto por pacientes e familiares, já que a proposta é incitar o cérebro, e não lesioná-lo, a fim de restabelecer o equilíbrio da atividade cerebral.
“Os centros cirúrgicos mais avançados para esse procedimento, em específico, estão na França, que é referência mundial, o Brasil é a principal referência sul americana para a cirurgia de DBS, e curiosamente o nosso estado é uma das principais referências do país”, conta Luiz Fernando.
Todo o procedimento cirúrgico começa com o uso de ferramentas matemáticas e computacionais para transformar o crânio e o cérebro em um sistema de coordenadas tridimensionais. Durante a cirurgia, um arco metálico contendo referências espaciais é instalado no crânio do paciente. Em seguida é realizada uma tomografia ou uma ressonância de crânio e essas imagens são instaladas em um programa que contém um mapa padrão do cérebro. O programa realiza a sobreposição da imagem com o mapa com precisão micrométrica e, desse modo, os alvos para instalação dos eletrodos da ECP viram coordenadas matemáticas ultraprecisas.
Além disso, a cirurgia acontece com o paciente acordado e totalmente lúcido, pois é ele quem diz aos médicos como está reagindo ao estímulo provocado pelo eletrodo, mesmo que os profissionais tenham que seguir as coordenadas predefinidas. É o paciente que guia o cirurgião durante a operação, mas ela é totalmente indolor e também não causa nenhum tipo de desconforto.
A equipe para a realização da cirurgia deve ter a presença obrigatória de um radiologista, um neurocirurgião, um físico e um neurocirurgião. “Para que o procedimento seja um sucesso, deve-se ter uma indicação precisa, um diagnóstico preciso e uma técnica precisa. É uma cirurgia extremamente delicada, pois consiste na instalação de um eletrodo no cérebro do paciente”, explica Luiz Fernando.
Mas existem certas restrições e pré-requisitos necessários para a submissão ao ECB, como ter idade abaixo de 75 anos, não sofrer de outras doenças psiquiátricas consideradas graves ou de outras doenças graves que possam reduzir significativamente a expectativa de vida, além de também não sofrer de doenças autoimunes.
Mas o especialista Luiz Fernando adverte: “A cirurgia não é a cura da doença de Parkinson. Esta é uma doença degenerativa do tecido cerebral e portanto progressiva. A ECB é um método de controle da doença que têm seu papel quando os recursos medicamentosos passam a não mais contribuir significativamente para a melhora da qualidade de vida do paciente”
