Tudo se justifica pela existência do outro
Redação DM
Publicado em 12 de novembro de 2016 às 01:54 | Atualizado há 10 anosO homem de hoje não dá valor à sabedoria natural. Nem é capaz de compreender o conhecimento do pobre trabalhador e da mulher simples. Enquanto isso, uma multidão de caminha pelas ruas da cidade com passos trôpegos de fantasmas em busca de uma saída para manter a sua família. A verdade insofismável do Brasil ‘de vantagens’ não mais alcança nossos planos de viver em paz. E a realidade plasmada no sofrimento das pessoas é a minha e a sua realidade de sonhos ou pesadelos. A realidade tem o rosto das nossas crenças, de nossas convicções e dos nossos costumes.
É comum vermos pessoas conscientes das dificuldades do dia a dia cumprirem suas tarefas de cidadão em meio às estúpidas disputas por altos salários e benesses do setor público. Dá um nó na garganta em ver a luta inglória de milhões de pessoas procurando emprego para pagar o seu aluguel, comprar comida e cuidar da família. Nada muda no país de ouvidos surdos pelo egoísmo. Enquanto o povo passa fome e as pequenas empresas quebram tem um monte de funcionários públicos que ganham acima 100 mil reais por mês. Tudo mês entra na conta do banco, muitas vezes sem merecer. E seus salários estão em dia.
O Diário da Manhã do dia 10, quinta-feira passada, página 11, transcreveu o discurso do deputado Nelson Marchezan Júnior, prefeito eleito de Porto Alegre, durante a votação do aumento dos salários do judiciário. Destaco um trecho do que ele falou: “Realmente, o setor público brasileiro não abriu os olhos para a crise em que nós estamos. A crise não chegou aqui. E para nós, os marajás do serviço público, os salários mais altos do serviço público, a crise não chegou. Ninguém aqui se deu conta da crise. Ninguém aqui se deu conta das 200 mil empresas fechadas no Brasil. Ninguém aqui anda na rua e vê o número e zumbis andando de madrugada, porque estão perdendo suas casas, perdendo suas fontes de renda. Ninguém se deu conta de nada.
Os senhores vivem onde? Os senhores são alienígenas ou alienados?”
Este discurso está na mesma página em que o Iris fala sobre a formação de sua equipe e de uma possível reforma administrativa com redução de secretarias e cargos comissionados. Prefeito, o senhor foi eleito, principalmente, a meu ver, porque cuida bem de Goiânia e faz muito com pouco dinheiro. E porque tem fama de político cumpridor da palavra. Mas, aqui entre nós, o salário atual de um secretário municipal, em torno de 20 mil reais por mês, é muito alto. E nós vivemos um tempo de vacas magras em todos os setores da economia. Enquanto isso a maioria de barnabés ganha menos de 1 mil. Prefeito, corte pela metade o salário dos secretários e diminua os cargos comissionados criados somente para atender vereadores e partidos políticos. Por que não testar o espírito público de quem vai lhe acompanhar na futura administração de Goiânia? É urgente atender a população mais carente que vive à míngua nos bairros da periferia. O senhor e dona Iris conhecem muito bem essa realidade.
Sei que um bando de arrivistas sonha com um cargo na prefeitura, mesmo aqueles que nada fizeram pela sua eleição. Aliás, prefeito, o senhor não precisou de ninguém para se eleger, apenas do apoio da família que nunca lhe faltou. E a população lhe deu mais uma missão de trabalhar por Goiânia. Por isso tem a autoridade para cortar gastos e fazer o que precisa ser feito pela cidade e pelas pessoas mais humildes. Nunca será tarde para refletir sobre os motivos de quem busca um lugar mais alto. Albert Camus, escreveu assim: “Mesmos os homens sem evangelho têm o seu Monte das Oliveiras.”
E a população de zumbis pais de família vai de cabeça baixa ao matadouro sem saber ao certo quem tirou a sua renda, a sua casa e a possibilidade de criar seus filhos com dignidade. O poeta português nascido em Angola, Valter Hugo Mãe, escreveu essa pérola: “O fato de estarmos aqui só se justifica pela existência do outro.”
(Doracino Naves, jornalista;apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)