Brasil

Me ama!

Redação DM

Publicado em 5 de novembro de 2016 às 01:37 | Atualizado há 10 anos

Andei a navegar nas terras do amor e da paixão. Perguntando a Querubins e até aos demônios o porquê da ventura e desventura deste aprisionamento. Nem santos nem poetas me deram resposta. Louvado por Jesus ressabiado pelo apóstolo Paulo, segue a jornada do amor em nossas vidas. Quem não quer beijo, colo, afago, ter as pernas bambas no frenesi e encontrar o amor que se aproxima? Ele ali está na saga de Eros e Psique na mitologia grega, em Tristão e Isolda ou Romeu e Julieta. E pernoita as várias noites sem sono dos enamorados. Queria que estivesse aqui.

Quem não alimenta a inveja do desejo de viver o conto de fadas, de viver o eterno querer, diante de um bem, no felizes para sempre? A inveja do que vemos nos filmes e no contemplar dos velhinhos de mãos dadas no banco da praça no pôr do sol de março. Qual a sombra diante da luz sempre a nosso lado, vivemos da necessidade do amor.

De Joaquim Manuel de Macedo a Clarice Lispector, de William P. Young a Nicholas Sparks reinventamos o mesmo jeito de falar do drama universal, o arquétipo de Jung, da necessidade. Amor é sobreviver.

Quem não quer colo?

Alguns dão sorte, outros vivem no eterno querer. Lembrei do homem poderoso de coração frio que muito amou em O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë, ou do Bentinho, de Capitu, de Machado de Assis. Esta cruz tem seu peso e é escrita em nosso parnasianismo, na morte sofrida pela tuberculose e na expectativa da chegada do bem amado, que às vezes não vem. É o lamento de João da Cruz. Como te quero!

Odiado por uns, evitado por outros na ilusão da independência, criando por vezes a clausura do ser que habita a caverna tentando abstrair as batidas que sente no peito. Feridas mal cicatrizadas efervescem e o coração indomado raras vezes escolhe quem amar. Para alguns fugir não é opção, é uma chance de subsistir diante do drama da incompatibilidade. E muita teoria e ideologia foi criada na ilusão de controle e condicionamento de afeto. A modernidade reinventou um jeito de vivenciar o recalque na aptidão do racionalismo e negação. Por fora sorriso, por dentro gelo.

Outra leitora me trouxe este questionamento, falando de sua história, da eterna busca do bem que ameaçou vir, mas não apareceu. Falou em sua carta de seu romantismo e do quanto hoje isto é chacota entre as amigas que fazem sexo aleatório como jogo de azar.

As crises afetivas estão por trás de várias psicopatologias. Pelo menos 1/3 das pessoas que procuram um consultório para análise vem por conflitos de relacionamento. E a vida levada de barriga, que desconsidera o coração, é a resposta que dou ao movimento da ilusão pós-moderna. O negócio-coração vai falir. Impossível mentir a si mesmo.

Particularmente, prefiro poetas a banqueiros.

Para ler mais:www.olhosalma.com.br

 

(Jorge Antonio Monteiro de Lima, analista, pesquisador em saúde mental, psicólogo)

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