Menos caipira
Redação DM
Publicado em 4 de novembro de 2016 às 01:09 | Atualizado há 10 anos– Contaram-me que você tomou um susto semana passada. O trem procede?
– Sim, senhor. Tive um mal-estar. O médico chamou de arritmia.
– Quais as causas?
– Parece que estou com a pressão um pouco alta, meio variando.
– Problema do coração?
– Provavelmente.
– Está se sentido melhor agora? O doutor disse que se teria conserto?
– Mais ou menos. Os exames não foram bons.
– O que acusaram?
– Triglicérides. Mais que o triplo do recomendado. Comi bobagens demais.
– Problema com colesterol também?
– Essa porcaria estava meio alta. Disse o doutor que isso pode entupir a tubulação. Aí, você sabe, eu desço uns palmos abaixo do chão. Fiquei com um baita medo.
– É compreensível. O que o médico lhe receitou?
– Pouca coisa. Basicamente, preciso tirar a bunda do sofá para praticar exercícios e dosar a pesagem do prato.
– Eu sempre o vejo caminhando no parque. Não resolve?
– Ajuda. O negócio é a alimentação.
– Cortou muita coisa.
– O médico me deixou menos caipira.
– Não entendi.
– Como você sabe, sou do interior. Morei na fazenda até a adolescência. Adquiri os hábitos da roça.
– Fã de comida pesada, certo?
– Por aí. Pelota com torresmo. Costela no bafo. Feijão cozido na banha de porco. Polenta frita. Essas coisas.
– Isso mata, cara.
– Foi o que o médico disse. Eu estava tocando o terror no meu coração. O sangue estava grosso, como se fosse vitamina de abacate. Não quero empacotar por agora.
– Então, só saladinha.
– Carnes magras também. Umas sementinhas sem gosto. Não agradei.
– Tudo para levar uma vida saudável.
– Por aí. Só que não carecia de tanto. É o que eu acho.
– Por isso essa tristeza?
– É como se eu tivesse que abrir mão de mim.
– O médico o impediu de comer comida caipira?
– Não. Pediu para dosar. Uma colher de sopa disso, uma de chá daquilo. Amarras, bicho. Não serve para mim.
– Eu me lembro que você comia como um ogro.
– Que seja. Mas é como se eu fosse menos goiano. Bom era ir ao almoço de família e deitar o mordedor no pernil assado. Agora, tenho que comer igual uma mocinha.
– Isso não tem nada a ver.
– Vou ficar magrelo.
– Vai lhe fazer bem.
– Foram décadas investindo em boa comida. Agora, é como se eu perdesse uma parte querida da minha personalidade. Vai ser difícil demais.
– Tente terapia. Há grupos de apoio que podem ajudar. Falar sobre a experiência pode lhe ajudar a aceitar a nova realidade.
– Sei não. De qualquer jeito, não custa tentar, certo? Vai que ajuda. O brabo agora é aceitar essa nova rotina.
– Esse é um pensamento maduro.
– Só se estiver caindo de podre. Só estou descrente dessa bagaceira toda.
– É um passo adiante.
– Tenho o coração de um caipira urbano.
– Isso significa algo?
– Sei lá. Pelo menos a frase é bonita.
(Victor Hugo Lopes, jornalista)