Saudades
Redação DM
Publicado em 2 de novembro de 2016 às 23:18 | Atualizado há 10 anos“O ideal seria que todas as pessoas soubessem amar o tanto que sabem fingir”
Bob Marley – Cantor/compositor jamaicano – 1945/1981
Relendo “Velha Amiga”, da imortal Rachel de Queiroz (1910/2003) dei-me conta que discordo dela quando diz que não sente saudade de felicidade ou tristeza.
Eu sinto uma imensa saudade dos amigos que se foram e daqueles que há muito não vejo. Quem teve o privilégio de ter amigos, hoje moradores celestiais, como Rosiron Wayne, Itamar de Souza (Ita), Guilhermino da Purificação (Guila) Antony Jeferson Frazão (Cel Frazão) Sinval Marques (Jogador do Goiás) João Borges Naves (Borgéla) Tuniquim Naves, Humberto Arruda (Prof Humberto) Thaner de Melo, Euclides e Ercílio Cruvinel (Kidinho e Chiquinho) Compadre Nivaldo Bosso (Vado), Dr. Volmer Valente, Jaconias (Jacó), Delson Pugas, Maclemes Santana, Zelito Prudente e dezenas de outros com quem convivi na mocidade que Rachel define: — A mocidade é uma etapa em que o coração não sabe o que quer, por estar demasiado inquieto. Diz ela que o jovem nunca está satisfeito e que a felicidade nunca lhe sorri e que a mocidade é uma quadra dramática, advindo daí os conflitos e os ajustamentos são por demais trágicos sucedendo os suicídios, os desenganos e, por isso mesmo, os grandes heroísmos ao abraçar o mundo achando-se dono dele e ao mesmo tempo descobre que se sobra neste mundo e a solidão o envolve irremediavelmente. Ah!… Mesmo assim, sinto tanta saudade e a ausência deles me dói e tenho uma enorme gana de tê-los presentes não pra fazer as exaltações juvenis de antanho e sim para pesarmos a diferença dos prós e contras, das batalhas ganhas, das desilusões na vida, dos amores não correspondidos e talvez fôssemos felizes e não sabíamos mesmo no desamparo em que todo jovem acha que está.
Então, depois de transpormos o verão, o inverno e a primavera a gente, se não morre antes, chega à estação que nos fala a poetisa carioca Cristina Saba: “Nos dias de outono as folhas largam no ar um cheiro de sono” onde de nós pouco se espera se pouco se exige. Contudo, acho que os desenganos se liquefazem nas poucas ou nenhuma surpresa.
Morte? De novo a imortal Rachel de Queiroz assevera que esta é sempre presente em todas as idades, com a diferença de que a morte é — pelo desapego das coisas, indiferença no querer e o tédio do possuído — amante, abismo e paixão dos jovens e companheira dos velhos.
A querida e doce imortal Rachel de Queiroz finaliza que a morte vai se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, anunciando que já embarcou.
(Alcivando Lima. [email protected])