“A OAB-GO precisa de uma nova mudança”
Redação DM
Publicado em 14 de agosto de 2018 às 02:14 | Atualizado há 8 anos
O nome do advogado criminalista Pedro Paulo de Medeiros sempre esteve em evidência quando o assunto é Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ou advocacia. Agora, mais do que nunca, seus comentários, posicionamentos e atitudes têm sido vistos com ainda mais frequência, depois que ele se apresentou como pré-candidato à Presidência da OAB-GO. Na entrevista abaixo, ele explica por que se candidatou, fala de suas experiências, dos temas que acredita serem prioridade para a OAB-GO e avalia a atual gestão da Seccional que, segundo ele, “entrou para mudar e não mudou nada”. Confira:
DM – Pedro Paulo, neste mês, no dia 11, é comemorado o Dia do Advogado. Qual o balanço que pode ser feito da advocacia em Goiás?
Pedro Paulo de Medeiros – Em Goiás, vivemos uma situação de desvalorização e desrespeito à advocacia em todos os sentidos. As prerrogativas da profissão continuam sendo ignoradas, os jovens que saem da faculdade estão abandonados à própria sorte, as mulheres continuam subvalorizadas e as subseções no interior vivem de migalhas e de favores. Não me agrada esse cenário que está aí e, para mudar isso, decidi ser pré-candidato à OAB-GO. Digo isso porque, a meu sentir, em minhas andanças por Goiânia e pelas cidades do interior, percebo que, em sua grande maioria, os colegas estão deixados à própria sorte, principalmente os jovens. Vejo como um problema de gestão, já que a OABGO não lutou pelo piso salarial; não lutou pelo reajuste da tabela dos honorários; a ESA, que antes promovia cursos gratuitamente, passou a cobrar por eles; os advogados inadimplentes com a anuidade, que em sua maioria são jovens e muito mal remunerados, passaram a ter seus nomes incluídos, pela OAB-GO, nos órgãos de proteção ao crédito; fora isso, os abusos cometidos por magistrados, delegados e diretores de presídios contra os advogados ainda são manchetes nos jornais e muito pouco é feito, concretamente, pela OAB-GO, para mudar esse cenário e valorizar a advocacia. Como se sabe, houve casos, no interior, em que colegas tiveram dificuldade de acesso a seus clientes, por imposição das direções dos presídios, numa clara afronta a uma das prerrogativas mais básicas da advocacia, que é ter acesso irrestrito a seus clientes. E nada foi feito. Nossa classe está com a autoestima muito, muito baixa. Isso tem de mudar.
DM– Diante disso, pode se dizer que faltam motivos para comemorar a data?
Pedro Paulo de Medeiros– Com certeza. A advogada e o advogado têm orgulho da profissão, mas se sentem desprestigiados e desmotivados por não verem na OAB-GO o empenho que eles têm individualmente. A culpa desse clima ruim é da gestão da Ordem, que foi eleita prometendo mudanças, mas se preocupa muito mais em cobrar dos advogados –anuidade, cursos, taxas etc –do que oferecer serviços e benefícios. Vide o escândalo do suposto superfaturamento da Casag nos contratos dos advogados com a Unimed, algo que nunca foi esclarecido pela diretoria. A prioridade da gestão da OABGO deve ser sempre representar efetivamente as advogadas e os advogados e seus interesses, dar-lhes apoio não apenas estrutural, mas moral, frente às demais instituições e, notadamente, frente ao Poder Judiciário. Nossos advogados estão carentes de representação, de uma entidade que os defenda, que os valorize. É preciso que a Ordem resgate seu papel de defesa intransigente –mas intransigente mesmo –dos direitos e prerrogativas das advogadas e advogados, pois essa é a principal razão de sua existência.
DM – Como a OAB Goiás deveria agir para melhorar esse cenário de dificuldades da advocacia no Estado?
Pedro Paulo de Medeiros – Fazendo o que se espera de uma entidade classista: defender a todo custo a advogada e o advogado. É preciso resgatar o compromisso de uma Ordem voltada para a advocacia, ouvindo quais são as demandas e se comprometendo a resolvê-las. O que se percebe hoje é que, diferentemente do que foi prometido, há um encastelamento da diretoria. Ora, a OAB-GO é a casa do advogado e assim tem que ser! A OAB-GO tem de ser o para-raios dos conflitos enfrentados pela classe, chamar para si a responsabilidade de encampar as lutas e assumir os desgastes que, infelizmente, tem sido vivenciados individualmente pelos colegas, por falta de representatividade. A Ordem tem de assumir sua posição no tripé Judiciário-Ministério Público-Advocacia. São três instituições que, conforme assegura a Constituição Federal de 1988, estão em pé de igualdade. Uma não se submete à outra. No entanto, tenho visto que a Ordem não se impõe, não assume esse papel de destaque. Ora, se não dá para agradar todo mundo –e nunca dá mesmo temos de pelo menos nos posicionarmos a favor de nossa classe, nos unindo e nos fortalecendo. Isso é o mínimo e exige coragem, independência e trabalho. Nada disso tem sido feito.
DM – Por que o senhor decidiu ser pré-candidato à presidência da OAB Goiás?
Pedro Paulo de Medeiros – Porque a atual gestão não fez a mudança que prometeu. Tenho 20 anos de advocacia e sei que posso fazer mais do que está sendo feito para ajudar a nossa classe em Goiás. Uma nova mudança é necessária e eu me dispus a promover isso de verdade. Devo muito à advocacia. Vivo dela e nasci numa família de advogados. Tive o privilégio, que nem todos os advogados têm, de receber em casa orientações e lições que me ajudaram fundamentalmente na condução da minha vida profissional. Quero devolver isso à advocacia, especialmente à advocacia jovem, que precisa ser acolhida, orientada, que precisa contar com uma estrutura que dê suporte para iniciar a carreira com dignidade e respeito. Eles não têm isso hoje. Eu nunca fui presidente, nunca compus uma diretoria na OAB-GO, nunca tive a oportunidade de tomar decisões sobre as prioridades da Seccional. Por outro lado, pude participar ativa e exaustivamente, no Conselho Federal da Ordem, na defesa, na relatoria de projetos e na composição de comissões de bandeiras essenciais para a advocacia. Por tudo isso, penso que posso contribuir muito se assumir a presidência da OAB-GO.
DM–Como está sendo sua pré-campanha? Tem ouvido mais reclamações ou elogios à atuação da Ordem em Goiás?
Pedro Paulo de Medeiros – Reclamações. Muitas. Se houvesse elogios e se com eles eu concordasse, jamais me proporia a ser oposição. Trataria de me apresentar à atual gestão para colaborar. Mas não concordo em absoluto com a linha deles e vejo que a advocacia também não. Especialmente a advocacia jovem, as advogadas e os militantes no interior do Estado. Estão muito abandonados.
DM–Qual a sua avaliação da gestão que comanda a Ordem em Goiás desde 2016?
Pedro Paulo de Medeiros – Com base em tudo o que eu já disse, avalio muito mal. Veio com promessas de muitas mudanças, mas não mudou praticamente nada. Trabalhou muito pouco, não defendeu o que prometeu defender, distanciou-se da advocacia. São necessárias mudanças muito mais profundas, pois quem está no poder não demonstrou nenhum interesse em fazer as alterações necessárias. É preciso mudar de novo.
DM – O senhor fala em dificuldades das subseções no interior. Que dificuldades seriam essas?
Pedro Paulo de Medeiros – Já que estamos falando de promessas não cumpridas, comecemos pelo fato de que a gestão prometeu conferir autonomia às subseções e isso não aconteceu. As subseções seguem vivendo de favores. Fora isso, as advogadas e advogados do interior, em que pese pagarem a mesma anuidade paga em Goiânia, não desfrutam dos benefícios, estruturas e serviços oferecidos a quem trabalha na capital. É preciso reduzir drasticamente essa desigualdade e promover uma inserção efetiva das subseções e de suas demandas na lista de prioridades da seccional.
DM – Há muitas reclamações dos jovens advogados, que enfrentam muitas dificuldades para entrar no mercado de trabalho. Na sua opinião, o que pode ser feito para ajudá-los?
Pedro Paulo de Medeiros – A situação das jovens advogadas e dos jovens advogados é, de longe, a que mais me preocupa. Precisamos batalhar pesado, concretamente, pela definição do piso salarial, e num valor que não seja aviltante, indigno. Precisamos criar estruturas, dentro da Ordem, para acolhimento, orientação e encaminhamento desse pessoal que sai da faculdade completamente inexperiente e sem saber por onde e como dar início à carreira. Quando falo isso não estou falando em algo parecido com a Comissão da Advocacia Jovem (CAJ), que já existe. Penso numa estrutura de acolhimento mesmo, porque a CAJ é formada por jovens advogadas e advogados, ou seja, em tese, profissionais que estão, igualmente, em início de carreira. É preciso que a turma experiente e engajada integre uma estrutura de acolhimento e, a partir de suas experiências, possa orientar efetivamente aquelas e aqueles que acabaram de sair das faculdades. Isso é acolher, orientar, encaminhar. É algo que só o mais experiente pode fazer pelo menos experiente. Temos de fazer parcerias com as universidades para promoção de mais estágios em escritórios de advocacia e departamentos jur í d i cos de empresas públicas e p r i va das, onde a futura e o futuro advogado poderão ter uma noção da prática. Temos, ainda, de promover cursos gratuitos e especificamente voltados para quem acabou de sair da faculdade, ou seja, cursos que ensinem efetivamente a prática jurídica. Temos de articular fortemente contra a cláusula de barreira, que impede a eleição dos que têm menos de cinco anos de inscrição para os conselhos seccionais. Eu tenho uma infinidade de projetos para a advocacia jovem, justamente porque há muito o que se fazer por ela.
DM – Uma crítica à atual gestão é a de que ela não mudou o que realmente importava, que é defender de fato a advocacia. Três anos é suficiente para mudar alguma coisa na OAB-GO?
Pedro Paulo de Medeiros – Penso que três anos são mais que suficientes para mudar muita coisa, daí porque não entendo a razão de a OAB-GO, tendo mudado de gestão, ter permanecido na mesma, sem mudanças concretas. Olha, quem me conhece sabe o meu grau de exigência comigo mesmo e com os que trabalham comigo. Se uma tarefa tem de ser feita, que seja feita imediatamente. As diversas batalhas necessárias e prometidas pela atual gestão–pelo piso salarial, pelo fim da cláusula de barreira, pela autonomia das subseções, pelas eleições diretas para o quinto constitucional, pelo respeito irrestrito às prerrogativas da advocacia, dentre tantas outras questões –tinham de ter sido tratadas desde o primeiro dia de gestão de forma constante e sistemática. Isso não aconteceu e não há nada que justifique a inação da atual gestão. Nada. Ora, se não fez enquanto podia, nunca fará, ainda que tenha uma nova oportunidade. É primordial que façamos uma nova mudança, uma mudança efetiva, de qualidade, com impacto.
DM – Cerca de metade da advocacia em Goiás é de mulheres. Na visão do senhor, a presença feminina na OAB Goiás é representativa dessa porcentagem?
Pedro Paulo de Medeiros – Basta pesquisar no site da OABGO para ver que, na atual gestão, há apenas uma mulher na diretoria, que é composta por cinco cargos; 25 mulheres no Conselho Seccional, composto por 80 cadeiras e uma mulher no Conselho Federal, composto por seis vagas. A maioria absoluta, obviamente, é de homens e o espaço reservado às mulheres é apenas aquele exigido em lei, ou seja, a gestão cumpriu uma exigência formal e só isso. É claro que a dificuldade da mulher em participar da vida política é percebida em todos os cantos do País e no mundo inteiro, mas quando falamos de OAB, esperamos que haja uma diferenciação drástica, que haja exemplo. Cabe à Ordem sair na frente na defesa dos direitos das mulheres em todos os sentidos, mas, quando a atual gestão escolheu apenas cumprir o protocolo, cumprir apenas o que manda a lei, compondo a administração com a cota mínima de mulheres exigida, já mostrou que não se preocupa tanto, ou quase nada, com essa bandeira. É uma pena.
As subseções seguem vivendo de favores. Fora isso, as advogadas e advogados do interior, em que pese pagarem a mesma anuidade paga em Goiânia, não desfrutam dos benefícios, estruturas e serviços oferecidos a quem trabalha na capital”Precisamos criar estruturas, dentro da Ordem, para acolhimento, orientação e encaminhamento desse pessoal que sai da faculdade completamente inexperiente e sem saber por onde e como dar início à carreira”
Na atual gestão, há apenas uma mulher na diretoria, que é composta por cinco cargos; 25 mulheres no Conselho Seccional, composto por 80 cadeiras e uma mulher no Conselho Federal, composto por seis vagas. A maioria absoluta, obviamente, é de homens e o espaço reservado às mulheres é apenas aquele exigido em lei, ou seja, a gestão cumpriu uma exigência formal e só isso”