De que tanto ri Zé Eliton?
Redação DM
Publicado em 9 de agosto de 2018 às 00:06 | Atualizado há 8 anos
O leitor qualificado e atento do Diário da Manhã já terá observado que a comunicação palaciana se esmera em distribuir fotos do governador Zé Eliton em largos sorrisos, aparentando gostosas gargalhadas, em eventos os mais diversos do oficialismo estadual. Nas redes sociais, multiplicam-se também as fotos do risonho candidato tucano, passando a impressão de alguém que vive feliz os dias de inquilino de Palácio das Esmeraldas, e que, na próxima eleição, ganhará com certeza uma extensão automática para mais quatro anos.
Os marqueteiros e comunicólogos que em profusão assessoram o governador das risadas devem achar que essa imagem de longos dentes sempre expostos agrada ao eleitor – embora, até hoje, segundo as pesquisas, não tenha rendido pontos favoráveis. Na convenção hollywoodiana do PSDB e dos partidos que restaram na base, domingo passado, enormes banners reproduziam a face gaitada de Zé Eliton, levando a uma pergunta inevitável: de que ele ri tanto?
Não sei responder, mesmo porque acho que tem mais motivos para chorar. Em quatro meses como governador, Zé Eliton conseguiu destruir um trabalho de 20 anos de Marconi Perillo – o famoso Tempo Novo, hoje tempo gasto, tempo exaurido, tempo envelhecido, mas entregue ao homem de Posse, em 7 de abril último, na sua forma integral e original. Em duas décadas, sob o comando direto de Marconi, o seu grupo político experimentou um processo contínuo de crescimento, até ocupar a maior parte do espaço político estadual e assim ser passado, como um cetro de ouro, a Zé Eliton.
Ele não precisou mais do que quatro meses para inverter a ordem e passar ao encolhimento. De alguma forma, não convenceu a companheirada, a mesma que nunca duvidou da capacidade e da liderança de Marconi, mas não acreditou e não apostou na sua. Cinco partidos que sempre estiveram com o Tempo Novo bateram asas: PP, PDT, PRB, PROS e PHS. Uma debandada como essa não é normal em qualquer sistema político, em qualquer parte do mundo, muito menos em Goiás do jeito que se viu na supremacia marconista dos últimos dois decênios.
Não há convenção, nem mesmo a cinematográfica pândega promovida pelos tucanos no ginásio Goiânia Arena, capaz de tapar ou disfarçar a gigantesca proporção da perda de apoio que o candidato governista contabilizou em pouco mais de 20 dias, desde que, em 12 de julho último, Lincoln Tejota e o PROS abandonaram a sua base de apoio. Aberta a porteira, a manada passou e mais quatro agremiações de peso deram o seu adeus. Sobre colunas fragmentadas, não se constrói uma vitória.
E, no entanto, Zé Eliton ri. Em outras campanhas, a base governista chegou a se apresentar nas eleições com uma frente de 19 partidos. Mas eram os bons momentos em que a forte liderança e capacidade de articulação de Marconi Perillo faziam a diferença. Agora, a base governista tem 50% do seu antigo volume – apenas 10 partidos, nas contas do próprio Palácio das Esmeraldas, que incluem equivocadamente a Rede, legenda que não estará presente na coligação do PSDB porque a sua direção nacional vetou a aliança (estatutariamente, a Rede não pode apoiar candidatos que respondam a processos por improbidade, caso de Zé Eliton). Serão, portanto, apenas nove: PSDB, PSB, PTB, PSD, PR, PPS, PV, Solidariedade e Avante.
Pela primeira vez na história do Tempo Novo, um adversário, Ronaldo Caiado será o candidato com mais partidos ao seu lado: 1 no total (DEM, PDT, PROS, PRP, DC, Podemos, PMN, PMB, PPL, PRTB, PSC e PTC). Somando-se às quatro siglas que irão com Daniel Vilela – MDB, PP, PRB e PHS –, a oposição, pela primeira vez desde o início do ciclo de poder comandado por Marconi, chegará às urnas em maioria esmagadora de partidos. Isso tem cheiro de derrota para Zé Eliton. Isso não é razão para pagodear-se.
CHAPA PURA
A chapa que acabou sendo montada pela coligação liderada pelo PSDB ficou pouco representativa, do ponto de vista partidário, ao incluir três nomes tucanos – Zé Eliton, Raquel Teixeira e Marconi Perillo. O quarto nome, Lúcia Vânia, é do PSB, mas carrega o DNA marcante do PSDB, onde passou a sua vida política.
Pior: as duas mulheres reforçam a chapa, quanto a igualdade de gênero e isso é positivo, mas ambas são muito mal vistas entre os políticos da própria base governista. Raquel Teixeira, como secretária da Educação, não recebia deputados e prefeitos e só abria exceção se, antes, eles enviassem email informando o assunto e quem estaria na audiência. Lúcia Vânia, há um mês, foi duramente criticada por Jovair Arantes, do PTB, e Magda Mofato, do PR, como uma senadora que só pensa em seus próprios interesses e nos de seu sobrinho, o deputado federal Marcos Abrão, do PPS. Jovair e Magda chegaram a dizer que não trabalhariam pela eleição de Lúcia. Eles e mais parte considerável do que restou não vão pedir votos para a senadora, é vero.
Para complicar, a vaga de 1º suplente de Marconi ao Senado foi para o presidente estadual do PSD Vilmar Rocha, que, assim que foi confirmado, apressou-se a dar declarações avisando que não subiria no palanque nem pediria votos para Zé Eliton. Vilmar passou o último ano disparando pesadas críticas contra o atual governador, a quem acusou de “despreparado” e “inadequado” para governar Goiás. E finalmente, uma constatação: a chapa foi produzida totalmente nos bastidores, em ajustes fechados entre o governador e o ex, sem consulta a mais ninguém e sem legitimação do conjunto político que lideram.
Para Zé Eliton, portanto, a chapa que ele encabeça está longe de ser um “time dos sonhos”, mais parecendo uma espécie de único acerto permitido a ele e Marconi, com os dois decidindo na defensiva, sob a onda de defecções de partidos e aliados para a oposição, e não como nos bons momentos do Tempo Novo, quando os adversários é que trabalhavam sob pressão.
NOVO MARCONI
Ao conquistar o apoio de partidos como o PP, PRB e PHS, o deputado federal Daniel Vilela mudou o cenário da próxima eleição e transformou-se em ameaça que pode deixar Zé Eliton fora de um eventual 2º turno e, com a sua cara de novidade absoluta – cara que Marconi Perillo tinha em 1998, quando venceu o todo-poderoso Iris Rezende – derrotar Ronaldo Caiado no embate final.
É fato que, com quatro partidos de peso na sua base de apoio, liderados pelo MDB, o filho de Maguito Vilela elevou a sua cotação e passou de candidato sem estrutura e sem chance a competidor que deve ser levado a sério. Em pesquisas qualitativas, quando vídeos de Caiado, Zé Eliton e Daniel Vilela são apresentados aos grupos, o emedebista salta uma distância imensa à frente dos concorrentes em matéria de aceitação e aprovação dos entrevistados. Em campanhas eleitorais, deve-se sempre ter em mente que acontecimentos de última hora podem provocar efeitos devastadores e se prevenir contra eles. A base governista dormiu no ponto, Caiado também.
Mas ninguém perdeu mais com o fortalecimento da candidatura de Daniel Vilela que Zé Eliton. Ele agora enfrenta um fator de risco elevado – ambos estão empatados em 2º lugar nas pesquisas, mesmo com o emedebista não dispondo de uma fração das vantagens embutidas no controle da máquina de governo, totalmente voltada para a promoção chapa liderada pelo PSDB.
Daniel Vilela é jovem e é um nome de renovação, mesmo integrando um partido tradicional e sendo filho de quem é – detalhes que podem até melhorar a sua posição, ao evidenciar que ele conseguiu o controle de estruturas políticas e partidárias consagradas e portanto difíceis de conquistar.
Zé Eliton também deveria ser um nome de renovação, porém, ao contrário, mesmo relativamente moço (10 anos a mais que Daniel) tem aparência vetusta, está atado à continuidade de um projeto que já dura 20 anos e exibe escandalosa fadiga de material. É mais do mesmo. Para variar, não consegue se comunicar com o eleitor, andando sempre de terno, usando uma retórica empolada e agora forçado pelos seus magos do marketing a carregar no rosto o sorriso artificial. Em quatro meses como governador titular, foi tão apagado que não conseguiu transformar a visibilidade extrema que ganhou em pontos nas pesquisas. Será que tanto ri é de si mesmo?
Zé Eliton é candidato… a passar para posteridade como o segundo governador da história do Brasil a não conseguir se classificar para um eventual 2º turno. O primeiro foi o de triste memória Agnelo Queiroz, em Brasília.
(José Luiz Bittencourt, jornalista e autor do Blog do JLB – blogdojlb.com.br)