Verdade, fidelidade e lealdade
Redação DM
Publicado em 30 de outubro de 2016 às 00:48 | Atualizado há 10 anosFala-se muito em fidelidade. Alguns religiosos, desconhecendo o real sentido e valor de algumas palavras, dizem que Deus é fiel. Sinto-me mal com isso. Deus não pode ser fiel a nós. A fidelidade é um sentimento que implica submissão, por isso o atribuímos aos cães. Os cães se sentem dependentes de algum humano.
Então, quando alguém diz “Deus é fiel”, sinto-me mal porque Deus é o ápice, a Luz Maior, a fonte de Luz, de Vida, de Bondades (todas elas). E por conhecer um pouquinho da natureza humana, atrevo-me a dizer que não fomos feitos para a tal fidelidade. Não somos monógamos, ou monogâmicos. Nós namoramos um, dois, três… antes de elegermos alguém.
A fidelidade não é isso que os padres e pastores enfiaram nas nossas cabeças. Fiéis, na relação conjugal, que eu saiba, são os animais monogâmicos. Os psitacídeos – papagaios, periquitos, araras e maritacas – que, quando o parceiro morre, o viúvo mantém-se assim até a morte.
Você comete o “pecado” da ansiedade. Ou da angústia. Psitacídeos… Bonito esse nome! Pela pouca familiaridade com a linguagem biológica, vivo me esquecendo. Os psitacídeos são fieis, sim. Mas se algum deles conhecer um novo parceiro, a fidelidade, a monogamia, a exclusividade – seja lá qual for o nome – vai p’ras cucuias (e até eles já foram mais fiéis). O que se tem não é pecado. É, no máximo, a infringência de regras sociais que, aos poucos, também vão se esvaindo porque a sociedade muda na mesma velocidade da tecnologia.
Há anos, vi na tevê uma história que achei maravilhosa. Uma fêmea chimpanzé, no zoológico de Brasília, nadava para a outra margem do pequeno canal que separa o seu recanto da ilha onde morava um macho. Só que ela era casada, tinha sua família, mas chifrava o marido sem constrangimento. Ia lá, namorava o “ricardão” e retornava cheia de autoridade – e felicidade, certamente. Os primatas não são fieis, nesse sentido.
A lealdade é outra história. Não devemos romper a lealdade, mas a obsessão pela verdade é um mau hábito que só serve para nos angustiar quando nos flagramos mentindo. E essa é uma exigência judaica que o catolicismo importou. Sempre pergunto às pessoas – quem foi a pessoa que mais mentiu para você? Pouca gente acerta. É preciso que eu diga – “Sua mãe” – e as pessoas concordam, assustadas. Nossas mães mentiram para nós e nós vamos mentir para os nosso filhos e netos. Ora para protegê-los (a mãe, a avó), ora para diverti-los (pais e avôs). E o amor continua, muitas vezes mais fortalecido, nos dois sentidos. E descobrir isso nos faz amá-los ainda mais.
Jamais diremos às pessoas que estão na nossa vida sobre o que transgredimos. O amor-próprio é algo muito forte. Quando crescemos e nos tornamos mais racionais e conscientes, as mentiras vão se reduzindo, diminuindo. Mas, num dado momento, se algum deles – ou ambos, ou todos eles – acharem que não devemos saber de algo, eles criarão uma história para cobrir a realidade e nos deixar mais tranquilos – ou protegidos.
Certa vez um amigo apresentou-me o pai. Um homem alegre, solitário e paparicado por todos – filhos, sobrinhos e netos. Ele me contou:
– Fui buscá-lo (citou uma cidade do interior) para passar Natal e Ano-Novo conosco. Ele fica muito sozinho, minha mãe pôs um chifrinho nele… Ele ficou triste, mas se conformou e agora está de namorada. Namoro novo.
Isso foi há quatro décadas. Achei bonito como ele me contou o desamor dos pais. Sem ranço de mágoa nem dor, sem tomar partido, sem preconceito. A mãe, que ele amava da mesma forma, estava em melhor condição emocional, por isso meu amigo se preocupava em proporcionar ao pai a mesma alegria.
Mas há quem exija fidelidade. Ora! Se não conseguimos ser fiéis a Deus e até invertemos os papéis, afirmando que Ele é fiel, que obrigação temos com o próximo nesse item? Se conseguirmos ter amor ao semelhante, já estaremos chegando perto do que nos pediu o Cristo.
(Luiz de Aquino, professor, jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras)