Brasil

Os temas que me inspiram

Redação DM

Publicado em 29 de outubro de 2016 às 01:28 | Atualizado há 10 anos

Noutro dia alguém me perguntou o que me inspira a escrever. Fiquei confuso com essa pergunta, feita, assim, de supetão. Ele emendou perguntando quem eu considerava um bom escritor. Mais uma vez a pergunta veio como uma foice cortando o meu pescoço. Não me considero, nem um pouquinho, capaz de avaliar a obra literária de ninguém; não sou crítico literário. Respondi-lhe que leio gregos e goianos; americanos e russos; latinos americanos, espanhóis e portugueses. Também os ingleses, franceses, israelenses, árabes e todos os que acreditam no que escrevem. Tenho fé também nos poetas mentirosos que, em seus versos, cantam amores eternos. Mas não arrisco mencionar nenhum nome porque poderia passar uma erudição que não é minha. Porém, muitos escritores e pessoas influenciam minha vida e naquilo que, modestamente, escrevo.

Qualquer cronista com um mínimo de cuidado presta atenção em tudo o que acontece a sua volta. E, nessa observação do cotidiano, uma simples palavra, um olhar, uma poesia, uma música, um quadro de Amaury Menezes – nome de um grande pintor – já é suficiente para inspirar um tema. Mas, hoje, a lembrança de meu pai Zequinha me traz emoções e uma saudade imensa do seu jeito alegre. Vejo-o plasmado no quadro das minhas recordações, andando rápido pelas ruas empoeiradas de Palmelo, onde foi coletor estadual.

Lembro-me do frio de um mês junho perdido nas brumas passadas e a montanha debaixo do céu azul de inverno palmelino. Eu e meus irmãos, cada um com pedaço de pão e um copo de leite nas mãos, vestidos em pijamas de flanela, a nos aquecer sob o sol da manhã, sentados na calçada de nossa casa. Em frente morava seu Joviano Damásio. Na infância tudo é muito intenso, por isso muita coisa fica grudada na memória. Neste dia meu pai desceu as escadas que dava à rua. Meu pai me parecia alto, esguio e sabido. As ruas da minha infância, pintadas em cores vivas na minha memória, eram largas, compridas e indicavam os meus caminhos de fuga. Eu enxergava a serra de Palmelo como se fosse o topo do mundo. Depois que cresci vi que meu pai não era tão alto como eu imaginara. E aquelas ruas, na verdade, continuam estreitas e curtas como são as ruas de uma cidade pequena do interior de Goiás. E a montanha? Bem, aqui entre nós, não é uma montanha que se possa chamar de montanha, aliás, um morrinho ‘um pouco’ mais alto. Mas o céu continua azul, imenso e translúcido, talvez iluminado pelos espíritos evoluídos que passaram por lá.

Respiro fundo tentando me lembrar do cheiro da infância. Vem o cheiro do araticum maduro no cerrado no chão coberto de capim meloso, da manga coração-de-boi madura em uma tapera abandonada, do caju roubado do quintal do Chiquinho Gonçalves, da mexerica enredeira do quintal de tio Eurípedes. Vejo, sob aquele céu de agosto, as pipas coloridas cruzando os ares da infância livre, dos sonhos e da esperança despertos pelo rádio à válvula sintonizado na Rádio Globo. Uma antena de arame cruzava o telhado da nossa casa. Embaixo os picumãs pendurados cruzavam a cozinha com fogão á lenha.

A inspiração de um cronista pode chegar dos fragmentos da vida. Aí já posso responder: A vivência é que me inspira a escrever. As mesmas que um dia se perderá no eterno firmamento do Cosmo.

 

(Doracino Naves, jornalista; apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)

 

 

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