Pergunta retórica
Redação DM
Publicado em 14 de outubro de 2016 às 02:30 | Atualizado há 10 anosEm uma justa e meio desesperada tentativa de agradar à patroa, o Rogério decidiu adquirir o melhor camarote para uma sequência de 12 horas seguidas de shows de duplas sertanejas. Era coisa fina. Comida e bebida por conta. Whisky incluso. Os aperitivos eram diversificados o suficiente para mantê-los bicando a mesa de frios a noite toda. Ingressos pagos, foi dar a boa notícia à digníssima.
– Então, vamos?
– Vamos onde, amor?
– Para o Villa Mix, claro.
– Para, né? Não faz uma semana você reclamava que estava quebrado.
– Eu dei um jeito.
– Faz mágica agora?
– Não. Decidi apertar um pouco o orçamento do mês para lhe dar um presente.
– Sei. Por que essa generosidade toda?
– Você é uma mulher especial. Quero muito fazer algo que a deixe feliz.
A expressão de satisfação no rosto da namorada era visível. Verdade que estavam juntos não faziam muitos meses. Também é verdade que ele sacrificava alguns horários juntos para se dedicar ao intensivo estudo para concursos públicos. O raciocínio era buscar uma pausa, uma atividade conjunta que agradasse a ambos. Não via esquema melhor.
Rogério não era muito de beber. Era fato conhecido. Talvez por motivações lúdicas tenha decidido se entregar à plenitude da farra no festival de música sertaneja. Afinal de contas, o whisky era incluso no camarote. No dia da munha, botou sua melhor roupa, passou um perfume mais leve e comprou balas de hortelã para burlar o hálito etílico. Foi firme.
– Meu bem, hoje vamos quebrar tudo.
– Vai com calma, Rogério.
– Esquenta não.
– Você não tem o hábito de beber.
– Sou firme. Relaxa.
– Vai acabar fazendo feiura. Por favor, pega leve.
Pedido da namorada era ordem. A primeira dupla sertaneja começou a tocar às 16 horas. Resolveu começar com a cervejinha. Coisa para adestrar o fígado mesmo. Não tinha pressa. Até umas três da manhã ainda tinha tempo para embriagar, sarar e tontear de novo. Quando a segunda dupla subiu ao palco, a farra ficou mais grossa: ofereceram vodca ao Rogério. Uma. Duas. Três. Sete doses. Em algumas, improvisou limão e gelo. Foi descendo macio.
– Rogério, vai devagar.
– Tô bem, amor.
– Não está, não, senhor.
– Tô bem, meu bem.
E o sol foi sumindo junto com a lucidez do Rogério. Mais cerveja. Mais vodca. Quando o whisky chegou à mesa, já chamava leitão de paca. Foi escorregando pela parede. Perdeu a força nas pernas. O movimento peristáltico do sistema digestivo reverteu o sentido para tentar desintoxicar o pobre manguaçado. Apurada, a namorada tentava ampará-lo. Pouco adiantava. Já não havia mais ninguém ali no corpo que servia de abrigo ao espírito anestesiado dele. E nem eram 19 horas.
Bodado ao chão, com a cabeça suada sobre o colo da namorada, Rogério respirava roncando. Cochilou, indiferente ao barulho que movimentava a festa, aos gritos da plateia, o som agradável das músicas dançantes. Era um cara imerso no sono, ante uma moça desamparada e incapacitada de curtir o presente que recebera do companheiro. Já muito tarde, próximo à meia noite, ele recobrou a consciência.
– Amor?
– Sim.
– Ainda estamos na festa?
– É.
– Apaguei há muito tempo?
– Sim.
– O show foi bom?
– Quer mesmo que eu responda?
– Acho que não precisa. Foi só uma pergunta retórica mesmo…
(Victor Hugo Lopes, jornalista)