Cotidiano

O universo das crianças

Redação DM

Publicado em 12 de outubro de 2016 às 02:50 | Atualizado há 10 anos

Eles jogam talco sobre o tapete, puxam o cabelo de outra pessoa, perguntam à convidada por que ela é tão gorda. Contam os passos até chegar ao fim do quarteirão. Acordam cedo. Estudam. Brincam a cada cinco minutos. Correm para lá e para cá. E mesmo assim ainda sobra fôlego para bagunçar todo o quarto a noite. Isso porque não foi mencionada ainda sobre as birras, gargalhadas, braços quebrados e o medo do escuro.

No Brasil há 59,7 milhões de pessoas menores de idade, o equivalente à população do Chile e da Argentina juntas. Em Goiás, desde sua reinauguração, em junho de 2012, o Hospital e Maternidade Dona Iris tem realizado uma média de 400 partos mensais, o que representa cerca de 13 bebês nascidos por dia. Somente em 2015 foram feitos cerca de três mil partos na maternidade.

Esses baixinhos têm hoje condições de vida melhores do que as que seus pais e avós experimentaram quando crianças. A maior parte dos meninos e meninas brasileiras frequenta a escola, brinca e recebe tratamento médico, mas ainda há muitos que são abandonados pelos pais e esperam por uma nova família e, mesmo, os que morrem assassinados antes de completar a maioridade.

Ao excluir as causas naturais, a maior causa de mortes de crianças e adolescentes no País é o assassinato. As vítimas têm cor, endereço e classe social. São, na sua maioria, meninos negros, moradores de áreas metropolitanas das cidades e pobres. Envolvimento com drogas é a principal causa dessas mortes. Conforme dados da Secretaria de Segurança Pública de Goiás (SSP -GO), somente neste ano cerca de 15.535 menores já foram apreendidos pelas forças de segurança.

Certidão de nascimento

Cerca de 600 mil crianças brasileiras não existem para o Estado. Isso porque não têm um documento básico e garantido por lei: o registro civil de nascimento. A maior parte delas vive em regiões isoladas, principalmente no Norte e Nordeste do País. A falta do documento, além de dificultar o acesso aos hospitais e escolas, torna as crianças mais vulneráveis à adoção ilegal e ao tráfico de pessoas.

Educação

Em todo o País, 2,8 milhões de crianças e adolescentes, ou 6,2% dos brasileiros entre 4 e 17 anos, estão fora da escola. Isso é o que mostra o levantamento Todos pela Educação, que levou em conta dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2014.

Em Goiânia, conforme dados da Secretaria Municipal de Educação, existem 171 escolas municipais, duas escolas municipais conveniadas, 140 Cmeis e 46 unidades de Educação Infantil conveniadas. Hoje são 30.389 crianças matriculadas nas redes de ensino na Capital.

Adoção

No Brasil há 5.624 crianças precisando de adoção, mas a maioria não se encaixa no perfil desejado pelas mais de 30 mil pessoas querendo adotar. Em Goiânia, são 12 crianças e adolescentes aptas para serem adotadas, contudo existem 243 pretendes na fila, ou seja, na Capital para cada menino há 21 adotantes (casais ou pessoas sozinhas) que poderiam ser seus pais. Os dados são do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Juizado da Infância e Juventude de Goiânia.

Ainda conforme o Juizado da Infância e Juventude de Goiânia, existem 11 instituições de acolhimento em Goiânia, vale lembrar que os termos orfanato e abrigos não são mais utilizados na legislação pertinente.

Prostituição

Um levantamento feito pela Polícia Rodoviária Federal identificou 1.969 pontos vulneráveis à exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras. Mais de 250 mil crianças e adolescentes vítimas de exploração sexual no Brasil, apontam os dados da Unicef. Há casos registrados de menores oferecendo os corpos por até R$ 2,00.

Conforme instituições sociais, em Goiânia, cerca de 17% das garotas de programa são adolescentes de 13 a 14 anos de idade.

Dia de reflexão

Todas as crianças têm direitos básicos constituídos em lei. Saúde, educação, alimentação, lazer, liberdade, habitação e um bom ambiente familiar estão assegurados pela Declaração Universal dos Direitos das Crianças, pela Constituição Federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Hoje é comemorado em todo território nacional o Dia das Crianças, mas o Diário da Manhã convida você para usar a data com o intuito de criar uma reflexão sobre a situação das crianças no Brasil, tanto no âmbito econômico-social quanto no educacional. Elas devem ser protegidas da violência, da exploração, da discriminação e da negligência.

Desde o início da década de 90, quando o ECA entrou em vigor, percebe-se que o País tem melhorado, mas ainda falta muito para acontecer. O Brasil é uma referência no mundo na redução de mortalidade infantil. De 1990 a 2012, a taxa de óbito entre crianças menores de 1 ano foi reduzida em 68,4%, atingindo a marca de 14,9 mortes para cada 1.000 nascidos vivo, segundo o Ministério da Saúde.

No entanto, bebês de até 1 ano ainda morrem por causas que poderiam ser evitadas. Hoje, as maiores vítimas da mortalidade infantil são as crianças indígenas. Elas têm duas vezes mais risco de morrer antes de completar 1 ano do que as outras crianças brasileiras.

O Brasil tem uma das legislações mais avançadas do mundo no que diz respeito à proteção da infância e da adolescência. No entanto, é necessário adotar políticas públicas capazes de combater e superar as desigualdades geográficas, sociais e étnicas do País. Vale então ressaltar que o Estado não age, ele reage. E para reagir é preciso que a sociedade pressione o governo. É preciso perguntar e questionar as atitudes dos políticos. É preciso deixar a ganância do adulto de lado e adotar a pureza da criança.

Hoje o dia é deles, mas são os adultos que precisam aprender mais com os pequenos. A esperança está nas mãos dessas crianças que estão aprendendo a lidar com o mundo de acordo com a forma que os grandes as ensinam.

 



Conforme dados da Secretaria de Segurança Pública  de Goiás (SSP-GO), somente neste ano cerca de 15.535 menores já foram apreendidos em Goiás 

 

Em Goiânia, conforme dados da Secretaria Municipal de Educação, existem 30.389 crianças matriculadas nas redes de ensino na Capital

 

Cerca de 600 mil crianças brasileiras não existem para o Estado. Isso porque não têm um documento básico e garantido por lei: o registro civil de nascimento

 

Dicionário feito por crianças revela mundoque os adultos não enxergam mais


Durante mais de dez anos um professor colombiano, Javier Naranjo, guardou as definições que seus alunos do curso primário (entre 3 e 10 anos) davam para palavras, objetos, pessoas e, principalmente, sentimentos, em suas aulas de espanhol. Algumas centenas destas definições estão reunidas no livro “Casa das Estrelas: o universo contado pelas crianças”. São poéticas, engraçadas, muitas vezes melancólicas. Nele, há um dicionário com mais de 500 definições para 133 palavras, de A a Z, feitas por crianças.

O curioso deste “dicionário infantil” é como as crianças definem o mundo por meio daquilo que os adultos já não conseguem perceber. O autor do livro, o professor Javier Naranjo, conta que a ideia surgiu quando, em uma comemoração do Dia das Crianças, ele pediu que seus alunos definissem a palavra “criança”. O resultado encantou o professor, uma das definições era “uma criança é um amigo que tem o cabelo curtinho, não toma rum e vai dormir mais cedo”. A partir daí foram surgindo novas definições, que eram sempre anotadas e guardadas.

Para ele, as crianças têm uma lógica diferente, uma maneira própria de entender o mundo e de revelar muitas coisas que os adultos já esqueceram. Segundo o escritor, é preciso dar voz às crianças. Também é preciso parar de subestimá-las, para tanto, ele não se esquivou em perguntar como elas definiriam a palavra violência e se deparou com respostas incríveis como a de Sara Martínez, de 7 anos: – “A parte ruim da paz.”

 

Confira alguns dos verbetes encontrados no livro:

  • Adulto: Pessoa que em toda coisa que fala, fala primeiro dela mesma (Andrés Felipe Bedoya, 8 anos)
  • Ancião: É um homem que fica sentado o dia todo (Maryluz Arbeláez, 9 anos)
  • Água: Transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)
  • Branco: O branco é uma cor que não pinta (Jonathan Ramírez, 11 anos)
  • Camponês: um camponês não tem casa, nem dinheiro. Somente seus filhos (Luis Alberto Ortiz, 8 anos)
  • Céu: De onde sai o dia (Duván Arnulfo Arango, 8 anos)
  • Colômbia: É uma partida de futebol (Diego Giraldo, 8 anos)
  • Dinheiro: Coisa de interesse para os outros com a qual se faz amigos e, sem ela, se faz inimigos (Ana María Noreña, 12 anos)
  • Deus: É o amor com cabelo grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
  • Escuridão: É como o frescor da noite (Ana Cristina Henao, 8 anos)
  • Guerra:Gente que se mata por um pedaço de terra ou de paz (Juan Carlos Mejía, 11 anos)
  • Inveja: Atirar pedras nos amigos (Alejandro Tobón, 7 anos)
  • Igreja: Onde a pessoa vai perdoar Deus (Natalia Bueno, 7 anos)
  • Lua: É o que nos dá a noite (Leidy Johanna García, 8 anos)
  • Mãe: Mãe entende e depois vai dormir (Juan Alzate, 6 anos)
  • Paz: Quando a pessoa se perdoa (Juan Camilo Hurtado, 8 anos)
  • Sexo: É uma pessoa que se beija em cima da outra (Luisa Pates, 8 anos)
  • Solidão: Tristeza que dá na pessoa às vezes (Iván Darío López, 10 anos)
  • Tempo: Coisa que passa para lembrar (Jorge Armando, 8 anos)
  • Universo: Casa das estrelas (Carlos Gómez, 12 anos)
  • Violência: Parte ruim da paz (Sara Martínez, 7 anos)

 

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia