O tigre-dente-de-sabre e a educação do futuro
Redação DM
Publicado em 1 de outubro de 2016 às 02:08 | Atualizado há 10 anosNos tempos da caça e da coleta, os jovens membros do bando precisavam aprender com os mais experientes as habilidades de sobrevivência em um ambiente hostil. Diante da ameaça de um aterrorizante Tigre-de-dente-de-sabre, lições de gramática ou de Física Clássica de nada serviriam ao novo caçador. Os melhores alunos aprendiam rapidamente a identificar os sinais de que, em determinada região, o gigantesco mamífero estava à espreita. Essa sim era uma aula de geografia com valor de vida ou morte.
E assim é que a educação, para ser eficaz, precisa acompanhar as necessidades humanas. Para isso, é preciso entender que essas necessidades se moldam e se transformam com o tempo. É bem verdade que nos primeiros milênios da história, as mudanças na hierarquia das necessidades foram lentas. Nietzsche comparava esses tempos primordiais a um camelo, que geme, suporta, mas permanece parado. Contudo, a modernidade veio com a ferocidade de um leão, que é muito mais ágil e começa a dizer não à pobreza, não à tirania, não às catástrofes, não à ignorância, não à corrupção.
A maior parte dos modelos educacionais vigentes no mundo de hoje, inclusive no ensino superior, foi desenhada ao longo da Revolução Industrial, entre os finais do século XVIII até meados do século XX. Não havíamos ainda entrado na Era do Trabalhador do Conhecimento, ou a Era da Informação e da Tecnologia, que alguns autores situam a partir da década de 1960, tendo como marco simbólico a chegada do Homem à Lua.
Esses modelos de educação legados pela Era Industrial, num ambiente de polarização política (esquerda x direita), podem ser classificados como instrumentais. Sua concepção teve como objetivo primário estimular e direcionar o indivíduo ao desenvolvimento de certas funções específicas que servem à grande máquina produtiva da sociedade, fosse ela capitalista ou comunista: aprender e especializar-se para servir ao sistema é a ideia que resume tais modelos.
Pouco espaço existe nesses modelos educacionais para se realizar o que chamaremos aqui de desenvolvimento integral do indivíduo. Carl Jung, um dos mais importantes pensadores do desenvolvimento humano, captura essa tendência opressora em sua obra icônica Tipos Psicológicos, publicada em 1921:
“A psique coletiva odeia, de certa forma, qualquer desenvolvimento individual que não sirva diretamente aos fins da coletividade. Ainda que a diferenciação de uma função seja o desenvolvimento de um valor individual, ela é tão determinada pelo ângulo visual do coletivo que reverte em prejuízo do próprio indivíduo”.
Jung veria hoje, se estivesse entre nós, que os ambientes organizacionais contemporâneos, por mais sofisticados, não são ainda desenhados para que o indivíduo possa ser ele mesmo para, a partir dessa originalidade, crescer no sentido de contribuir voluntariamente. As relações competitivas, egocêntricas por definição, fazem com que o trabalhador ainda no século XXI tenha de ter dois empregos: aquele para o qual foi contratado e um outro, no qual usa grande parte de sua energia, que é o de parecer ser aquilo que não é.
É óbvio que, enquanto o ser humano vive para aplacar as suas necessidades, ele não tem escolha a não ser submeter-se a esse sistema, reagindo com sucesso ou fracasso ao tipo de educação funcional que recebeu, vivendo toda ou quase toda a sua existência por motivações extrínsecas.
Mas a evolução da consciência é irrefreável. Na passagem do mundo moderno ao pós-moderno, em função da própria tecnologia criada sobre as bases da revolução industrial, assiste-se de forma quase caótica, de tão acelerada, à satisfação das necessidades cognitivas de multidões.
No chamado mundo corporativo vê-se, por exemplo, a crise de engajamento que as consultorias especializadas traduzem em percentuais próximos de 20%. A reação esboçada por algumas empresas de vanguarda tem sido ao estilo “dourar a pílula” ou “redecorar a gaiola”, com novos pacotes de benefícios e liberalidades no escritório que podem ter algum efeito aliciador, mas que não serão sustentáveis por muito tempo.
Arrisco-me a dizer que, nestes tempos de pós modernidade, ao menos 50% da humanidade já mergulhou na busca por aplacar necessidades fisiológicas, de segurança, de pertencimento e estima, já atravessou os portais das motivações cujo pensamento é de que “as recompensas que vem de fora” para compreender o valor do desenvolvimento integral.
Os cientistas já acessaram esse fenômeno por meio de um novo ramo da Psicologia: a Psicologia Positiva. O laureado pesquisador Martin Seligman é o arauto agnóstico desse novo saber testado e retestado na Ciência do Bem-Estar. Sabe-se hoje que as pessoas que aprendem a ampliar as suas aspirações redesenhando para si vidas mais significativas, mais empáticas, nutrindo emoções positivas (como serenidade, gratidão, esperança e amor), e que preferem, a qualquer ganho exponencial, colocar seus talentos a serviço de atividades que se traduzem em experiências de fluxo (FLOW), alcançam um bem-estar psíquico muito acima da média. Amam a vida e se doam ao serviço da sociedade, não por uma coerção do sistema inerte, mas por um ato voluntário, de prazerosa e dedicada entrega pessoal.
É um estágio de desenvolvimento que chamo de Plenitude, que concilia dois vetores do desenvolvimento que parecem opostos, mas que são, na verdade, complementares: o máximo de diferenciação com o máximo de integração.
Como criar um modelo educacional que estimule o Ser Integral, tão diferenciado em seus talentos, inteligências e forças de caráter, quanto integrado no serviço de seus semelhantes por um sentimento de amor incondicional? Enquanto não conseguirmos desenvolver esse sistema (não basta para isso melhorar as práticas didáticas), sentiremos as dores de um ambiente disfuncional, desajustado para a realidade que rapidamente evolui.
O Tigre-de-dente-de-sabre que nos ameaça agora é muito mais complexo. Nossos alunos não poderão vencê-lo apenas evitando entrar nos seus temidos territórios. Sua ameaça é onipresente: ela começa em nosso próprio receio de avançar, de nos tornar tudo aquilo o que podemos nos tornar, começa em nossa hesitação de assumir nossa grandeza. Parece que nos contentamos com a posição de súditos hipnotizados por engenhosos brinquedos tecnológicos, quando podemos SER ilimitadamente mais.
(Luciano Alves Meira, diretor de Metodologia do IPOG e sócio fundador da Caminhos Vida Integral)