Brasil

Ciência Política aprendida na rua

Redação DM

Publicado em 30 de setembro de 2016 às 02:14 | Atualizado há 10 anos

Diz uma máxima popular que a escola da vida é a melhor instrutora. Acredito que não tem melhor período que o eleitoral para que nós, cientistas políticos, constatemos essa afirmação.

Passamos anos na faculdade para aprender a entender o comportamento dos indivíduos em período eleitoral. A elaborar survey e a aplicá-lo. Testamos mais de dez vezes uma metodologia de pesquisa, para que ela não tenha nenhum viés. Com a ajuda da psicologia e dos experimentos, a entender o que faz com que o eleitor tome uma determinada posição.

Para nós, o que acontece na dinâmica das eleições municipais não é nada espantoso. Pelo contrário, totalmente previsível. Assim como a história, o modus operandi dos candidatos aos cargos nas municipalidades é cíclico. Apesar do avanço da tecnologia, das novas mídias e redes sociais possibilitando um modo diferente de fazer política, do advento da tecnologia eletrônica de votação, a conduta de candidatos permanece as mesmas de anos atrás.

Esforçamo-nos para repassar o conhecimento de que a política deve servir ao bem comum. Falhamos mais uma vez. Vemos cada vez mais pessoas interessadas em perseguir seus próprios objetivos, optando por votar no candidato que possa lhe garantir um melhor futuro. A prefeitura, desse modo, se torna um negócio. É como investir na bolsa de valores, só que a moeda de troca, nesse caso, é voto por cargo. O que fora investido na campanha, pois bem… Acho que dispensa explicação.

Os wannabe cientistas políticos, os marqueteiros sazonais, aqueles que aprenderam a lidar com a política na rua, sequer sabem o que significa voto útil. Mas sabem muito bem como desencadeá-lo. Um grande fator responsável por influenciar o efeito psicológico no eleitor, em um cenário de eleições majoritárias, são as pesquisas de opinião pública, que induzem necessariamente ao voto útil, onde os eleitores trocam suas preferências primárias por candidatos com mais chances de vitória, a fim de não “desperdiçar” o voto. Parece tão improvável que alguém caia nessa, não é? Pois é. Mas acontece.

Como todo bom pesquisador, enxergamos oportunidade de análise qualquer evento. Por conta do cenário político a nível nacional, a nossa veia de vidente chegou a vislumbrar que os eventos recentes impactariam no comportamento do eleitor das municipalidades, que é diferente de quando se está em um cenário de eleições gerais. A bola de cristal não avisou que o eleitor sofre de mimetismo: se adapta conforme a conveniência do cenário. “Tem histórico de improbidade administrativa, não tem preparo, mas vai garantir meu emprego? Afinal de contas, a justiça, nada morosa, ainda não provou as denúncias, vai que…”.

Nossos professores de Ciência Política, pós-doutores pelas maiores instituições do mundo, devem estar nos iludindo. Como que alguém, com 0,1% do conhecimento em política que eles possuem, pode fazer com que o eleitor seja totalmente ludibriado por estratégias e técnicas de persuasão eleitoral que sequer ouviram falar? Como é possível se pautar tão bem pela lógica da ação coletiva, embora às avessas, mobilizando grupos de pessoas para que uma pequena parcela possa se beneficiar das “regalias”? Pior: como fazem para que o eleitor não perceba que está sendo manipulado? Temos pleno conhecimento das respostas. Explicá-las ao eleitor, portanto, é outra história…

Aqueles que se propõem a fazer uma política “ingênua” são os que correm mais perigo. São vítimas da impiedade dos que disputam o poder pelo poder. Ingenuidade, aqui, é entendida como os que ainda fazem política como nos mais pretensiosos livros de teoria política: por vocação, sem interesses pessoais. É animal em risco de extinção, mas existe. É pena que grande parcela do eleitorado não se preocupe em prevenir sua extinção. Melhor mesmo é assistir ao carnaval fora de época durante 45 dias, proporcionado por candidatos que possuem coisa alguma a oferecer, além de muita poluição visual e barulho… Que ressona durante quatro anos.

Se eu pudesse me enquadrar em uma categoria, me encaixaria na de cientistas políticos que possuem fé no eleitor. Apesar da dose de ironia exposta acima, acredito que o eleitor faça um cálculo racional de suas condutas, seja visando o bem comum, seja visando interesses próprios. Não existe voto desperdiçado. Se soubéssemos quem iria ganhar uma eleição, poderíamos dispensar os esforços e custos da Justiça Eleitoral para montar todo o aparato do sufrágio. O voto é secreto, pessoal, intransferível e não verificável nominalmente. De frente com a urna, a única disputa que existe é a do eleitor com a sua consciência. Quem você deixará falar mais alto no dia 02 de outubro?

 

(Marcela Machado, cientista política, mestra e doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB) – [email protected])


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