Política

O filho de vaqueiro que deseja ser prefeito

Redação DM

Publicado em 27 de setembro de 2016 às 02:19 | Atualizado há 1 ano

  • Candidato da Rede Sustentabilidade, Djalma Araújo sacrifica eleição certa para a Câmara em defesa de uma cidade mais transparente e sustentável

O vereador Djalma Araújo foi o primeiro a denunciar as estratégias da Prefeitura de Goiânia, sob gestão do PT, de aumentar o IPTU acima da inflação. Em 2012, quando observou que seu partido, o PT, seguia para caminho inverso ao dele e dos eleitores decidiu parar e pedir para descer da turbulência.

Perseguido dentro da legenda que aprendeu a amar e sufocado pela necessidade de mostrar como o PT havia se transformado em um monstro, o vereador foi obrigado a sair e expor todas as vísceras da legenda.

Na Câmara Municipal, Djalma metralhou a gestão de Paulo Garcia: apontou corrupção na saúde, revelou desvios na merenda escolar e investigou ao lado de outros  opositores uma série de esquemas na Comurg, no Parque Mutirama, na Assistência à Saúde e Social dos Servidores Municipais de Goiânia (Imas) e nos consignados da prefeitura.

Essa performance matadora deu a ele vitrine e a necessária intenção de alçar voos mais altos. Na Rede Sustentabilidade, o partido da Marina Silva e do senador Randolfe Rodrigues, coube a ele tocar a campanha até aqui com pouco mais de R$ 30 mil. A ideia do partido é reunir a juventude, as minorias, os artistas e intelectuais para sepultar o que chama de “velha política”.

Um dos raros nomes da esquerda na disputa eleitoral deste ano, Djalma será na reta final uma mistura de franco atirador, mas com conteúdo, como militante de um novo projeto de político: a Rede Sustentabilidade tem apenas nove meses de existência. É dele a primeira experiência da legenda em Goiás.

Combativo contra o populismo, ele diz que disputa as eleições tendo em vista propostas, como o retorno do orçamento com participação popular, redução drástica de cargos comissionados, criação de pontos culturais nos bairros e escolas, fim das terceirizações e quarteirizações, afastamento do sistema de Organizações Sociais (OSs), aplicação de ações de política urbana de combate à violência e investimento nas Guardas Municipais, para realizarem a vigilância do patrimônio do município e também de seus moradores.

Traçar o perfil do vereador não é fácil. Djalma é estudante de Direito, vereador por seis mandatos, morador militante da região Norte, artista performático e poeta. Quem o acompanha na Câmara Municipal de Goiânia não sabe que ele é um artista talentoso, que na última cantoria de Xangai e Juraildes da Cruz dividiu o palco para contar experiências dos ermos e gerais do Brasil.

Filho de um vaqueiro do sertão da Bahia, Djalma Araújo veio para Goiás em busca de liberdade. Na terra de Jorge Amado, a ditadura caiu em cima da família, principalmente pela insubordinação do avô, um integrante do chamado “Grupo Autêntico do MDB”, aquele que se revelou insurgente contra os conservadores que faziam corpo mole contra a ditadura.

Enquanto a mãe permanecia no sertão, em Torrão Seco, ele se manteve em Goiânia para participar dos movimentos sociais. Morador do Itatiaia, acabou permanecendo na mesma região, onde fincou militância em ONGs, como a Verdevale, e outras frentes de mobilização popular e sindical.

Ali cravou trincheira para combater os prefeitos que usam o Plano Diretor para destruir a cidade e vender o que resta aos que ele chama de “tubarões das imobiliárias”.

PENTE FINO

Com postura combativa na Câmara Municipal de Goiânia, Djalma tem dito que vai realizar um pente fino na prefeitura. Mas para isso, primeiro tem que mostrar que conhece a cidade. “Ser prefeito é ser cidadão comum. Meu pai, como um bom vaqueiro nordestino, me ensinou que quando se adentra no mato você tem obrigação de laçar o bicho. Não tenho medo de enfrentar os segmentos imobiliários e as construtoras que querem dominar a cidade. Tenho seis mandatos nas costas e nunca tive um tostão do poder econômico nas minhas campanhas”, desafia Djalma, que cobra do eleitor que investigue seu passado.

Mas será que Djalma terá recursos para fazer o que pretende? Ele faz as contas no papel e diz que sim. “Se romper o contrato de R$ 43 milhões com Organizações Sociais, romper com as empresas terceirizadas que fazem as limpezas dos postos de saúde, excluir gastos com carros e passagens, mandar embora comissionados desnecessários,  dá para ampliar  e reformar os Cais, investir em médicos e medicamentos. E o que sobrar será encaminhado aos conselhos criados nos bairros, que decidirão para onde irá o dinheiro”.

Vereador é um dos mais atuantes da Câmara

Ao decidir disputar as eleições para prefeito de Goiânia, o vereador Djalma Araújo (Rede) abre novas possibilidades políticas para seu futuro. Decidido a vencer, ele não cogita o que será da Rede nos próximos anos, mas deseja ajudar a articular o partido com a militância.

O candidato diz que participa do pleito para mostrar que é possível planejar uma outra Goiânia, que não esteja sequestrada pelos grupos econômicos, nem exposta ao abandono deixado pelos governos estadual e federal.

“Me perguntam o motivo de ser candidato. Analisem minha vida lá no Tribunal de Justiça, meu passado, quero que analisem. Pois aqui temos uma vida limpa. Não é à toa que criei no município a Lei da Ficha Limpa. Prefiro comer cascalho do que afanar dinheiro público. Se não ganhar estas eleições, prefiro arrumar um empreguinho qualquer e viver minha vida. Fome, amigo, não vou passar. Porque nordestino come cuscuz, come beiju, come o que der”.

HOSPITAL

Djalma foi um dos primeiros candidatos a conseguir pautar os sonhos do eleitorado na atual disputa. Dentre as propostas de campanha, a que ele apresentou sobre a construção de um hospital veterinário foi a que mais gerou polêmica – principalmente entre jornalistas, que se equivocaram ao acreditar que não existem recursos para tal empreitada.

O político da Rede explica ao DM que a iniciativa não é novidade. “Se você observar, já existe hospital veterinário em São Paulo e nos grandes centros. Estou cansado de ver gente que pensa pequeno e que acredita que nossos sonhos não podem ser executados. Veja bem: com R$ 2 milhões construímos a primeira unidade. Isso é café pequeno perto do que vamos economizar com os cortes de OSs e fim de cargos comissionados. Não estou mentindo assim: vou asfaltar todas as ruas de Goiânia ou vou resolver os problemas do trânsito numa sentada. Prometo coisas que são possíveis, que existem e que se não temos é por falta de gestão”, diz Djalma.

Candidato das “causas esquecidas”

 

Dos candidatos que almejam o Paço Municipal, Djalma Araújo é o que mais pensa a questão cultural e ambiental. E os motivos são pessoais. Morador da região do Itatiaia, Djalma defende as regiões verdes da Capital que restaram da grande investida das imobiliárias. A ligação do candidato com a Rede se deve principalmente pela sua militância quanto aos temas sustentáveis. Djalma passou seus mandatos denunciando as mutretas do poder público para atender aos poderosos que constroem indústrias poluentes na região Norte, como uma importante multinacional que suja a cidade com odor podre e causa ânsia de vômito em crianças e idosos.

A insubordinação faz parte da vida política do vereador, considerado um dos mais próximos das atividades culturais. “Tenho várias peças teatrais, poesias, escrevo, ou melhor, ‘escrevinho’. Sempre fiz isso, desde que era menino em Torrão Seco”, diz o vereador poeta.

Documentarista, Djalma filmou a vida do nordestino comum do sertão e lançou um documentário cuja função é atualizar a narrativa de sofrimento e sublimação dos problemas. A obra está na internet para quem deseja verificar a verve de documentarista do vereador, que atua com roteiros inspirados em histórias de vida.

Leitor de autores brasileiros como Guimarães Rosa, Djalma sempre cita frases do escritor mineiro que costumava inventar palavras por meio das experiências linguísticas do povo que encontrava pela frente.

Não raro, ele mistura a “poesia” da vida rural com as coisas da política. “Nós não podemos temer o contraditório. A vida esquenta,  esfria, a vida desinquieta, inquieta…Mas a vida quer de nós coragem.  Já dizia Guimarães Rosa, nosso grande escritor mineiro. E digo mais: ela quer da gente metamorfose”.

Para Djalma, os demais candidatos esqueceram o meio ambiente e, sobretudo, a cultura. Para ele, é “absurdo” gerir uma cidade sem pensar na cultura e em ofertar lazer para as pessoas. “Encaro o lazer como direito social. Está no artigo 6º da Constituição Federal. Agora, mais do que isso, a cultura é a base histórica de um povo, é o que nos une. Engana-se quem pensa que as leis nos unem. A cultura é algo maior, é o cimento da civilização, a única manifestação capaz de abranger a religião, a filosofia, os costumes, a música, nossa vestimenta, enfim, tudo que atravessa nosso espírito”.

O integrante da Rede diz que prefere ser o candidato das causas esquecidas do que se reunir com os segmentos empresariais para “assinar  convenções que desrespeitam a cidade, que humilham a população expulsa dos grandes centros e que acaba por se isolar nas periferias, sendo confinadas em lotes sem nenhuma infraestrutura”.

 

*O Diário da Manhã ofereceu espaço igualitário a todos candidatos para que o eleitor possa conhecer suas plataformas políticas e propostas. Até agora o DM publicou os perfis de Iris Rezende, Delegado Waldir, Vanderlan Cardoso, Adriana Accorsi, Luiz Bittecourt  e Giuseppe Vecci. O próximo será do candidato Francisco Júnior.

 

 

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