Brasil

Descendentes

Redação DM

Publicado em 23 de setembro de 2016 às 02:18 | Atualizado há 10 anos

– Quando eu crescer, quero ser pai de 10 filhos.
– Menino, fale sério.
– Juro, mãe. E cada filho vai ser com uma mulher diferente.
– Menino, tome juízo. Você está falando bobagem.
– Garanto-lhe que não.
– Você não sabe o quanto é caro e difícil criar filhos.
– Não faltando o de comer, o resto a gente ajeita.
– Não é tão simples assim. Não basta criar; é preciso educar.
– Não tenho problemas com isso. Boto a tropa na escola.
– A responsabilidade de educar sempre é da família.
– Os professores ajudam.
– Você está enganado. Professor ensina conteúdo de currículo.
– Então, educa.
– Não é bem assim. Os valores que são passados, quase sempre, são dos coleguinhas. E nem todos têm boas coisas para transmitir.
– Bom que já cresce aprendendo com os erros dos outros.
– Filhos precisam de orientação.
– Para quê?
– Para errarem menos.
– Não adianta.
– Reformulo minha resposta. Precisam de direção para que assumam a responsabilidade por seus atos.
– É o que estou fazendo.
– Não parece. Você pretende delegar a criação de seus filhos à escola ao mesmo tempo que gesta uma família grande, desestruturada e que certamente viverá em dificuldades.
– Mãe, entenda meu ponto de vista.
– E qual seria?
– Eu quero 10 mulheres.
– Não precisa ter filhos com cada uma delas.
– Preciso sim.
– Isso vai resultar apenas em despesas e dor de cabeça. Basta um casal ou três crianças, no máximo.
– Vou explicar melhor.
– E eu gostaria de ver essa sua teoria.
– Pense em uma morena bonita.
– Certo.
– Agora em uma lourona.
– Tudo bem.
– Uma negra gatinha.
– Certo.
– Vai somando uma mulata cadeiruda, uma japinha pequenina e uma índia jeitosa.
– Continuo considerando tudo isso uma bobagem.
– Junte nisso uma ruiva, uma careca, uma anã e uma albina. Todas maravilhosas. Quero ter filhos com cada tipo de mulher que existe nesse mundo.
– Ainda não entendi.
– Assim, eu descubro qual mistura me agrada mais.
– Não precisa gerar filhos aleatórios para isso. Escolha a mulher que te faça feliz.
– Não posso, mãe.
– Por que não?
– A professora disse que a gente não pode ter preconceito com ninguém.
– E o que ter filhos com 10 mulheres diferentes tem a ver com isso?
– Eu cubro toda a variedade da espécie humana.
– Tudo bem, “don Juan”. Mas todas precisam ser bonitas? Isso não é preconceito também?
– Ah, mãe, tem que valer a dor de cabeça…

(Victor Hugo Lopes, jornalista)

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