Brasil

Outra vez primavera

Redação DM

Publicado em 20 de setembro de 2016 às 02:19 | Atualizado há 10 anos

No título desta crônica, tomo emprestado o nome da reunião que anualmente se realiza na Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – Aflag, no final do mês de setembro. “Outra vez Primavera” pretende celebrar a estação das flores, e com ela, a beleza e a alegria de viver.  Hoje acontece mais uma dessas agradáveis sessões, quando se encontram pessoas a quem a amizade aproxima, na identidade de gostos e na primazia que emprestam às letras, à música e às artes em geral.

Verdade que nós, brasileiros – com exceção dos que residem no Sul – pouco vivenciamos as quatro estações do ano.  Na minha recuada infância, no Piauí e no Maranhão, esperávamos com alegria o fugaz “inverno” ou ”tempo das chuvas”, que pouco durava. A estação natural – digamos assim – era a seca, o sol brilhante, o calor equatorial amenizado pelos ventos do Leste.

“Inverno” significava aguaceiros tropicais, água caindo em “lorós” das bicas e dos telhados, a criançada a se divertir, correndo pelas calçadas e quintais, escorregando de propósito nas poças, empurrando uns aos outros. E, ao final, todos juntos, soltando barquinhos de papel, que nós mesmos fazíamos e que seguiam à deriva nas enxurradas.

Aqui no Centro-Oeste, entretanto, em que pese o calor sufocante dos dias que antecedem a data oficial da primavera – 22 de setembro – milagres acontecem. Porque é exatamente quando tudo parece morto, quando as folhas caem das árvores e as deixam tristemente despidas, que ipês e caraíbas renascem com inusitada exuberância.

Aqui os tenho e não me canso de perscrutar os sinais de que logo estarão vestidos de amarelo. Na entrada de casa, o olhar detém-se nos galhos aparentemente sem vida; é uma alegria quando o primeiro botão aparece timidamente, até que a vida ressurge em generosa floração.

De igual modo acontece com as cássias, ditas árvores exóticas porque não são originárias do cerrado. Neste ano, a primeira a florir está em frente ao portão grande; mais outra, outra mais – e agora há pelo menos meia dúzia delas, como se fossem abóbodas cor-de-rosa, de uma delicadeza sem par. Por motivos ignotos, está atrasado o exemplar que plantei aqui ao lado, em frente  à janela da biblioteca onde escrevo. Preocupei-me: estaria atacado por algum fungo? Ou seria cupim, pois aqui os cupins são pragas que não dão descanso? Mas não!  As folhas começaram a cair, há longas favas pendentes e os ramos despontam em brotos delicados: ela não vai me decepcionar, a minha acácia favorita! Em poucos dias, estuante de cor e de vida, será um regalo para meus olhos cansados e servirá de pouso aos passarinhos que também se alvoroçam com a chegada da nossa primavera tropical.

E o que dizer da acácia mimosa? Já perdeu a primeira carga de bolinhas amarelas, mas logo as terá novamente. Lembro-me quando meus netos pequeninos queriam pintá-las, a essas incríveis bolinhas, para que tivéssemos uma árvore de Natal diferente…

Estão a fazer falta, entretanto, os jacarandás; só com muito esforço consigo vislumbrar no alto suas primeiras flores azuis. Torço para que venham logo: irei passar alguns dias viajando, e não quero perder o show de suas copas que rivalizam com o céu do cerrado.

O manacá também se cobriu de pétalas bicolores, em roxo e branco. As orquídeas exibem suas régias inflorescências de caprichadas desenhos, formatos e colorações inusitadas. As buganvílias e o “amor agarradinho” explodem em flores. Até o bogari ensaiou uma primeira carga que não vingou – mas certamente se repetirá às primeiras chuvas, quando se cobrirá de um véu perfumado.

Outubro será a vez dos flamboyants que, formando uma alameda, aqui se sucedem em tons de vermelho, ocre e amarelo. São árvores grandes, de raízes superficiais e espalhadas, por isso inadequadas para ruas e avenidas. Mas lembram-me Goiânia, nas décadas de 1950 e 1960, quando alegravam o centro da então chamada “Cidade Brotinho”, a capital de “eterna primavera”. Andando a pé ou de bicicleta, não me cansava de contemplá-las, hoje quase mortas, amanhã renascidas em primaveris copas multicores.

E fico a pensar comigo mesma: não será assim a vida? Se tudo parece áspero e estéril, se a amargura nos invade o coração, se a fé e a esperança nos faltam – quem sabe amanhã esse momento difícil resultará em dias melhores, em pessoas gentis e compreensivas, em instituições e governantes competentes, probos e idealistas, em uma sociedade mais justa e mais humana?

 

(Lena Castello Branco, escritora. E- mail: [email protected])

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