Diálogo
Redação DM
Publicado em 18 de setembro de 2016 às 01:00 | Atualizado há 10 anosUm casal resolve manter um diálogo; ele um socialista erudito, ela de curta inteligência, porém um ótimo material de cama.
– Querido você me acha bonita?
– Eu não diria bonita, pois se trata de um conceito usado pelas classes dominantes para classificar animais racionais dentro de padrões de beleza culturalmente dispostos.
– Isso quer dizer que sou feia, meu bem?
Cosmeticamente falando, diferente é o termo mais adequado; você é uma entidade produzida.
– Mas, você ainda me ama?
– O amor é um sentimento inventado pela burguesia com o intuito de subjugar as pessoas a um único modo de pensar na vida societária, tirando-lhes a razão e o senso crítico; aliás, Luiz de Camões, de quem você na sua estultice jamais ouviu falar, disse nas suas “Rimas” que o “amor é um fogo que arde sem se ver”.
– E daí, meu amorzinho?
– Daí, que nutro por você num sentimento de co-participação em interesses de ordem habitacional, econômica e sexual.
– O quê? Quer dizer que você só me quer como faxineira e prostituta?
– Não se diz faxineira e sim secretária, higienizadora ambiental. E chamar parceiras sexuais de prostitutas não é politicamente correto.
– Você deve estar louco!
– Estou, emocionalmente, fora do padrão normal.
– Bem que me avisaram que você é um chato!
– Chato não. Sou uma pessoa que pensa de maneira diferente.
– Como fui cega meu Deus…
– Desprovida de capacidade visual, é o mais correto.
– Não sei por que me casei com você!
– Você não sabe é o porque se submeteu a uma prostituição oficializada.
– Idiota!
– Pessoa com idéia fixa não é tola.
– Pra mim chega! Vou procurar um amante que me queira.
– Você não precisa recorrer a esse tipo de apelo, buscando um relacionamento com padrão não convencional. Nós ainda podemos partilhar de uma co-existência saudável, como duas pessoas com referências diferenciadas pela cultura dominante.
– Chega! Prefiro conviver com um lavador de carros a continuar com você!
– Sua preferência em manter uma co-habitação de caráter afetivo com um especialista em aparências de veículos não lhe dá o direito de comparar opções de meio de sobrevivência alternativo com meu comportamento, que se diferencia dos dogmas do status quo reinante.
– Chega! Não agüento mais! Quero ver você morto!
Ela pega o revolver que está sobre o criado mudo, e o aponta no rumo dele. Ao vê-lo assustado, ela o abraça e diz:
– Perdão, querido, eu sou mesmo uma burra!
Ele, se refazendo do susto, a corrige:
– Burra não, você é uma pessoa com uma lógica muito particular…
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(Luiz de Aquino, professor, jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras)