Divas de Hollywood vivem aventura de cinema em Anápolis
Redação DM
Publicado em 17 de setembro de 2016 às 04:10 | Atualizado há 10 anosParece história de filme americano, mas na década de 1950, entre todos os lugares do mundo, o município de Anápolis foi o escolhido para ser o refúgio de estrelas de Hollywood e artistas da Broadway. Belas, famosas, ricas e acostumadas ao mundo da fantasia, elas transformaram uma lenda em realidade.
Quem diria que a diva de americana, Joan Lowell, notabilizada mundialmente em filmes de Charlie Chaplin, na era do cinema mudo, poderia a trocar os holofotes de Hollywood pela vida pacata nos arredores de Anápolis. Ninguém poderia imaginar também que a primeira mulher a ganhar um Oscar, a atriz Janet Gaynor, viveria uma aventura em uma fazenda perto desta cidade, por um bom tempo, acompanhada do marido, o consagrado estilista Gilbert Adrian, que vestia Greta Garbo, Marlene Dietrich, Katerine Hepburn e Joana Crawford dentre outras divas do cinema americano e figurinista de filmes como “O Mágico de Oz”. Tampouco era absolutamente imprevisível que a grande estrela de musicais da Broadway, Mary Martin, ganhadora de prêmios como Emmy, e mãe do também ator Larry Hagman, o JR do seriado Dallas, também compraria uma fazenda no município de Anápolis, onde viveria por muitos anos com o seu segundo marido, o cineasta Richard Hollyday, que fora dono do mega estúdio Paramount Picture.
Através do livro “Terra Prometida”, best-seller nos EUA, Dona Joana, como Joan Lowell era conhecida em Anápolis, atraiu Janet Gaynor e Mary Martin para a doce vida no campo. Atriz da Broadway nasceu em 23 de novembro de 1902, na Califórnia, e fez sucesso mundial em filmes da chamada fase do cinema mudo. Notabilizou-se ao participar de Em Busca do Ouro, de Charlie Chaplin, em 1925. Após casar-se, em 1936, com um capitão do mar, Leek Bowen, partiu para terras desconhecidas no cerrado de Goiás. O casal teria influenciado Bernardo Sayão a escolher a região do Rio das Almas no Vale do São Patrício, para sediar a Colônia Agrícola Nacional, que deu origem a Ceres, Rialma e outras cidades do Vale do São Patrício. Joan morou o restante de sua vida em Anápolis, Jaraguá, Planaltina e Brasília, onde morreu de edema agudo em 1967. Sete anos antes seu marido falecera por atropelamento na Rodoviária de Brasília.
Depois de Joan Lowell, Janet Gaynor foi a primeira diva a chegar na Hollyood do cerrado, em 1972. Ela nasceu na Filadelphia, em 6 de outubro de 1906, e foi considerada a primeira dama do cinema americano, celebrizada por receber o primeiro Oscar de melhor atriz por sua interpretação em três filmes da era do cinema mudo, Aurora, Sétimo Céu e Anjo das Ruas, com apenas 26 anos. Mais tarde foi convidada para atuar em Nasce uma Estrela, que se tornaria um grande sucesso e, de certa forma, recriaria nas telas seu drama pessoal de insatisfação com a indústria cinematográfica.
Na década de 1930, Janet Gaynor abandonou as telas para se dedicar ao seu marido, o estilista Gilbert Adrian e ao seu filho Robert. De 1972 a 1978, após conhecer a Terra Prometida de Joan Lowell, dividiu sua moradia entre a terra natal e o Brasil, numa propriedade perto de Anápolis. A Fazenda Amazônia era um lugar com muita poeira e sem eletricidade, mas o clima tropical – acreditava – seria essencial para a recuperação de Adrian, acometido de um distúrbio cardíaco de origem nervosa. Na casa desenhada e decorada pelo marido ela passava seus dias, pintando e cuidando da terra fértil. Não raramente Janet se deslocava a Anápolis para comprar insumos destinados à produção de café, milho, frutas e legumes.
Com a morte de Adrian, em 1979, ela retornou aos EUA, mas visitava a fazenda esporadicamente. A partir daí passou a viver em Palm Spring, onde dedicou-se à pintura e casou-se com o produtor Paul Gregory. Vítima de complicações em um acidente automobilístico, em que estava com a atriz Mary Martin, Jean morreu em 1984, nos Estados Unidos, aos 77 anos. A biografia da atriz pouco registra a época em que Janet Gaynor morou no Brasil, mas foi perto do distrito de Interlândia que ela viveu uma grande paixão pela terra, depois de trocar Hollyood por Anápolis, em busca da tranqüilidade.
Dona Maria, como era chamada nas vizinhanças do ribeirão Padre Souza, a famosa atriz americana Mary Martin também viveu longos anos bem longe dos holofotes, mas perto da natureza em Anápolis. Mary Virginia Martin foi uma atriz de filmes, TV americana e da Broadway, famosa, também, como cantora. Nasceu em 1º de dezembro de 1913 e entre seus maiores sucessos na música destaca-se My Hheart Belongs, que a projetou como grande artista. Mas a sua consagração veio com o personagem Peter Pan na Broadway. Foi casada com o produtor Richard Halliday e mãe do ator Larry Hagman, o JR do seriado Dallas.
Na década de 60, depois de visitar atriz Janet Gaynor, que tinha uma propriedade rural em Anápolis e pela obra Terra Prometida de Joan Lowell, adquiriu uma fazendola de 33 alqueires na região, onde mandou construir uma mansão ao estilo de Beverlly Hills. A fazenda recebeu o nome de Nossa Fazenda Halliday. Passava metade do ano na propriedade e a outra metade nos Estados Unidos. Juntamente com o marido imaginava criar no Brasil Central uma réplica sertaneja de Hollywood.
Mary Martin passeava no Mercado Municipal e chegou a abrir uma loja na cidade. Vestidos criados pela artista eram disputados pelas damas da sociedade de Anápolis e Brasília. Com a morte do marido, em 1962, ela perdeu o interesse pelas terras e retornou aos Estados Unidos, onde faleceu, aos 77 anos, em 4 de novembro de 1990. Com o fim do sonho hollyodyano ruiu a mansão nos arredores de Anápolis, mas ficou a lembrança de longo convívio com a gente simples no lugar que ela chamava carinhosamente de “selva”.
(Manoel Vanderic, jornalista)