Brasil

Oito anos depois

Redação DM

Publicado em 13 de setembro de 2016 às 02:06 | Atualizado há 10 anos

Revendo escritos antigos, encontrei uma crônica de quando tudo parecia bem em Pindorama – e Lula surfava em índices estratosféricos de popularidade. Por incurável ceticismo de minha parte, parecia-me ilusório aquele circo em que nosso presidente presenteava Chefes de Estado com camisetas, depois de fazê-los empilhar as mãos como adolescentes antes de uma partida de basquete.

O tempo passou, muita água correu em baixo da ponte. Nesta véspera de 12 de setembro, quando se vive mais um capítulo da novela “Brasil-2016” – com a cassação do deputado Eduardo Cunha – parece-me interessante lembrar os idos de março de 2008. Senão vejamos:

“DE VENTO EM POPA

Apregoa-se que a economia brasileira vai de vento em popa, o que significa, na poética linguagem náutica, que singra oceanos e mares com velas enfunadas, indiferente a vagalhões e tempestades. A bela metáfora remete a antigos tempos, quando nossos avós lusitanos alargavam as fronteiras do mundo, levando em frágeis embarcações a cruz de Cristo e a língua portuguesa. Como resquícios de contextos históricos ultrapassados, expressões idiomáticas e provérbios permanecem em uso, mesmo depois de ultrapassada a realidade que os inspirou. Não continuamos a dizer: ‘Quanto maior a nau, maior a tormenta?’

Mas estaremos nós, brasileiros, navegando realmente em mar de almirante? Seguimos com segurança a rota traçada, em busca do porto seguro do crescimento econômico sustentado? Sabemos aonde e como chegar ao destino traçado? Ou a aparente bonança não passa de ilusão, como em outros momentos do passado, quando desperdiçamos alegremente recursos naturais e oportunidades?

Senão vejamos: o nome Brasil remete ao primeiro dos tesouros com que nos brindou a natureza, o pau de tinta vermelha, cor de brasa – pau brasil – avidamente consumido na Europa e cobiçado por colonizadores e aventureiros. Abundante na Mata Atlântica, o que restou dele, depois de séculos de exploração predatória?

No momento seguinte, dando lugar às plantações de cana, foram ocupadas e exauridas as melhores terras e várzeas, do nordeste ao sudeste do continente brasileiro. Raro e caro, o açúcar manteve-se altamente cotado nos mercados europeus, trazendo lucros exorbitantes e gerando fortunas, até que as ilhas do Caribe nos ultrapassaram em produção e tecnologia. Das velhas usinas, engenhos e banguês ficaram-nos os troncos calcinados das árvores que foram derrubadas para alimentá-los, além de uma retrógrada pseudo-aristocracia que torna mais pobres as regiões decadentes.

E o ciclo do ouro, em que nos beneficiou? Por caminhos transversos, enriqueceu a Inglaterra, contribuindo decisivamente para que se consolidassem e expandissem a Revolução Industrial e o capitalismo – enquanto, paradoxalmente, continuaram brasileiros e portugueses como primos pobres, dependentes e periféricos. E a borracha, cujo fastígio aconteceu ainda ontem? O Teatro Amazonas, com seus mármores, lustres de cristal, estofos adamascados, painéis e reposteiros é o espelho da incúria com que dilapidamos o ‘ouro branco’, que teve reduzido seu valor econômico pelas pirateadas plantações do sudeste asiático.

Haveria muito mais a dizer: a monocultura intensiva do café levando à superprodução e à ‘débâcle’; a exploração bisonha da cera de carnaúba que deixou mais pobre o Piauí; até os remanescentes fósseis do vasto mar que foi o interior do Brasil, contrabandeados para fora do País.

Leio nos jornais que a Companhia Vale do Rio Doce teve, em 2007, o maior lucro de todos os tempos – e que está em primeiro lugar entre as maiores exportadoras brasileiras. Vem-me à lembrança uma cena que presenciei, há muitos anos, quando estive no Maranhão. Fora inaugurado recentemente o porto de Itaqui, em São Luis, ufanisticamente proclamado como sendo um dos mais modernos e maiores do planeta.

Foi quando presenciei a chegada de um comboio da Vale do Rio Doce, com literalmente centenas de vagões transportando minério de ferro, que era transferido para os porões de navios estrangeiros. No Japão, nos Estados Unidos e no Canadá, assim como nos países europeus, aquele minério seria trabalhado e transformado em produtos os mais diversos. Em parte, estes seriam importados pelo Brasil – e nós os compraríamos, pagando bom preço pelo trabalho que lhes agregou valor e propiciou emprego e renda a milhares, milhões de operários especializados e bem remunerados.

Tive vontade de chorar: eram pedaços do solo brasileiro, nossa terra, nosso chão que estavam sendo levados para fora, em pouco benefício resultando para nós, sobretudo para nossos irmãos trabalhadores. Qual seria o salário dos peões que extraíam o minério, no calor úmido e debilitante do sul do Pará? Sem educação formal e sem habilitação técnica, representam pouco mais do que extensões das pás e picaretas com que trabalham.

Perguntei a um dos dirigentes da Vale do Rio Doce, que elogiava o desempenho da companhia: ‘E quando o minério de ferro acabar?’ Ele me olhou com certo ar de piedade – por ser eu tão ignorante – e pacientemente explicou: ‘Carajás é a maior província mineral do mundo. São montanhas de minério. Não vai acabar nunca!’

O pau-brasil acabou; o açúcar deixou de ser um bom negócio; a borracha é residual na economia brasileira; até o nosso café perdeu importância e ‘status’ para o produto colombiano! E – sinal dos tempos – o rei-petróleo foi enfim reconhecido como recurso natural não renovável.

Se a economia vai ‘de vento em popa’, graças, em parte, às jazidas fabulosas de minério de ferro que o Brasil possui, é hora de implantar siderúrgicas nas regiões produtoras, viabilizando seu desenvolvimento e melhor qualidade de vida aos brasileiros que as habitam, aos quais deverá ser oferecida a oportunidade de estudar em cursos e escolas técnicas apropriadas.

É bom lembrar que não se pode prever quando os ventos favoráveis cederão vez à calmaria ou às procelas.” 

 

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