Acabou a paz no campo
Redação DM
Publicado em 7 de setembro de 2016 às 02:35 | Atualizado há 10 anosOs produtores estão alarmados com a onda crescente de crimes no meio rural. Achar empregados, hoje em dia, para trabalhar nas fazendas é tarefa difícil. A mais recente vítima dos ladrões foi o criador Hélio Antônio de Almeida. De sua propriedade em São Luís de Montes Belos, na região de Santa Maria, 73 garrotes foram furtados esta semana. A maioria da raça Nelore, cor branca. Os animais têm idade entre 18 e 20 meses. Em média, cada animal vale R$1.800,00. O prejuízo num lote de animais, numa só noite, somou R$131.400 mil.
Em Piracanjuba, um dos principais polos de leite do Estado, os furtos e roubos se sucedem com muita frequência. Eider Magno dos Santos, da Magno Leilões, inconformado com os crescentes prejuízos dos fazendeiros em roubos ou furtos de máquinas e implementos agrícolas, fertilizantes e demais insumos básicos, resolveu reunir o segmento agrícola e outros segmentos. Um trator agrícola, uma colheitadeira, oscila de R$50 mil a R$2 milhões, conforme o modelo, para se ter uma ideia do prejuízo.
Frequência assusta
“Chamei as representações do Sindicato Rural, da Cooperativa Agropecuária, do Escritório Local da Emater, do Rotary Clube, da Maçonaria, da Segurança Municipal para uma reunião com a participação da Delegacia de Piracanjuba e da Polícia Militar para tratar da questão que tanto tira a nossa paz no campo”, expõe, ao Diário da Manhã, Eider Magno.
As conversas foram esclarecedoras e o desfecho desanimador: em primeiro lugar, o delegado de polícia é responsável pela representação de mais três municípios. Portanto, está sobrecarregado.
A questão encontra, no entanto, um respaldo da Federação da Agricultura (Faeg), que mantém sua base em Piracanjuba através do Sindicato Rural. No caso do lote de animais de São Luis de Montes Belos, o presidente da SGPA (Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura), Hugo Goldfeld, ficou de manter contato com o secretário de Segurança Pública, José Eliton, que é também o vice-governador de Goiás.
Patrulha rural
A gravidade da segurança no meio rural vem crescendo de tal forma, assustando cada vez mais os criadores e suas famílias e empregados, que a Faeg criou uma Comissão de Segurança Rural. Em Santa Helena de Goiás, no Sudoeste, o Sindicato Rural foi pioneiro na criação de uma patrulha rural.
Com essa parceria entre o sindicato e a PM, os criadores mantêm a patrulha em operação. Os policiais passaram a conhecer os fazendeiros, seus familiares e empregados. E com isso, podem interpelar os desconhecidos com a aparência de suspeitos em horários alternados. A experiência correspondeu em parte e foi levada a outros municípios, com o apoio da Faeg. Mas, segundo a Secretaria de Segurança Pública, o crime está migrando para o meio rural porque nas cidades o combate a criminalidade é maior. O segmento oficial, todavia, não fornece maiores dados.
Aparelhar a Polícia
O agravamento do quadro levou recentemente o Congresso Nacional a aprovar lei que permite ao Estado doar à Polícia Militar os armamentos apreendidos dos bandidos. O senador Wilder de Morais, que é de Taquaral e conhece o problema, votou favorável à aplicação da medida. “Temos que contribuir para aparelhar nossos policiais, que também são vítimas dos bandidos, a defender melhor a sociedade”, declarou ao DM. Em Goiânia, o presidente da Faeg, José Mário Schreiner, tem mantido reuniões frequentes com o secretário da Segurança Pública e comandos da PM. Mas entende também que “a coisa está difícil, mas não vamos esmorecer com os bandidos”.
Augusto Gontijo, pecuarista e ex-presidente da SGPA, traduz o drama dos fazendeiros. “Eles não têm mais paz. Eles têm medo de morar nas fazendas e serem vítimas dos bandidos. Empregado também fica com medo e prefere a vida nas cidades. Assim está difícil”, conclui. Eurípedes Bassamurfo, criador de gado de leite em Itaberaí, observa ainda que “muitas vezes se perde gado reprodutor ou matriz geneticamente melhorada e cujo resgate não tem preço”. Gilson Costa, criador de gado holandês no município, já perdeu matrizes leiteiras de alto padrão genético. O ladrão chegou na fazenda, abateu o animal, que é manso, deixou a carcaça na pastagem e levou apenas a carne. É desolador.