Depois da queda
Redação DM
Publicado em 6 de setembro de 2016 às 02:23 | Atualizado há 10 anosPassadas as longas horas da tramitação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, instalou-se um anticlímax: o que deveria ser uma sensação de alívio e de esperança converteu-se em incertezas a toldarem o horizonte político e até o dia a dia de simples cidadãos e cidadãs, como a escriba destas mal traçadas linhas.
Mas é preciso raciocinar com clareza: o fato relevante é que D. Dilma foi afastada da Presidência da República, nos exatos termos da legislação que rege a matéria. Nada menos de 61 senadores votaram pela condenação da ex-presidente por crime de responsabilidade: são três quartos do Senado da República. Na Câmara, 367 deputados manifestaram-se a favor da tramitação do processo de impeachment, bem mais do que os dois terços exigidos para aprová-la.
Ficou mais evidente o que todos já sabiam: a defenestrada presidente não teria – como de fato não tinha – as mínimas condições de governar o País. Isso sem falar na inexistência de predicados ou atributos pessoais para fazê-lo. A começar de sua comprovada incompetência gerencial, que foi encoberta durante anos pelo marketing regiamente pago por nós, contribuintes; e quem o diz é o próprio marqueteiro-mor, o ínclito João Santana e sua mulher, a benemérita Mônica Moura.
O discurso de que houve um golpe parlamentar insere-se no “jus esperniandi” – o direito de os perdedores espernearem depois da queda. Tentativas houve e haverá no sentido de achincalhar as mais respeitáveis instituições republicanas, que seriam manipuladas por golpistas em favor do retorno de uma elite retrógrada ao governo do País.
É sabido que o partido ora afastado do poder beneficiou-se com recursos milionários provenientes do desvio de dinheiro público. Parte desse numerário foi para contas particulares de deslumbrados companheiros e quejandos; mas não se sabe exatamente onde está o grosso da dinheirama afanada com vistas a um projeto de poder, ou seja, a perpetuidade do grupo ora decaído nos altos escalões da República.
Não será descabido pensar que, depositados em paraísos fiscais, tais recursos sejam utilizados para a campanha de descrédito, mundo afora, que dissemina a versão de “golpe parlamentar”. E que ora ganha corpo com o “Fora Temer” e os black blocs exercitando a violência nas grandes metrópoles. A intenção é, obviamente, tumultuar os dias pós-impeachment, infernizar a vida dos cidadãos comuns, demonizar o governo. Tem sido preciso dosar a repressão a tais meliantes: nem tão dura que venha a provocar “mártires”; nem tão branda que os anime a aumentar a ousadia e a violência.
De outra parte, é difícil engolir a última jabuticaba tupiniquim: o fatiamento do artigo 52, parágrafo único, da Constituição Federal, resultando na meia punição da senhora Rousseff que, ao fim e ao cabo, continua no gozo de seus direitos políticos.
Em crônica anterior, assumi a condição de “trouxa”, diante das articulações perceptíveis nos bastidores do impeachment. Agora me confesso trouxa e meia – e junto comigo há muita gente boa. Isso porque um golpe do porte do que foi perpetrado, que teria o aval do próprio presidente do Supremo Tribunal Federal, seria facilmente identificado por políticos mais sagazes – mas não pelos ingênuos e de boa fé, enfim, os “trouxas”. Basta ver as fisionomias de alguns deles, claramente passados para trás na rasteira articulada por correligionários do próprio partido do presidente Michel Temer.
Consumatum est! Não acredito que o Supremo Tribunal Federal interfira no Senado e anule a sessão do impeachment. D. Dilma escapou pela metade e agora pode candidatar-se a vereadora, prefeita, deputada, senadora… poderia também disputar a Presidência da República?
Parece improvável que D. Dilma Vana Rousseff seja eleitoralmente bem-sucedida, sem o concurso de seus estrelados ex-marqueteiros, ora agraciados com tornozeleiras eletrônicas. Uma coisa é certa: com suas ideias bizarras e frases confusas, articuladas em dilmês, ela jamais terá na oposição os arroubos jacobinos de um Lacerda, ou a oratória clássica e eficiente de um Vargas.
Ao que se divulga na mídia, à hipótese de que irá residir no apartamento da mãe em Ipanema, o bairro mais chique do Rio de Janeiro, os moradores do prédio articulam-se para boicotar sua eventual candidatura a síndica do prédio. Argumentam que o fazem preventivamente, temendo a falência do condomínio.
(Lena Castello Branco, escritora.E- mail: [email protected])