Brasil

As catacumbas do dia morto

Redação DM

Publicado em 3 de setembro de 2016 às 02:56 | Atualizado há 10 anos

Cada cidade tem um doido. Pelo menos foi assim nos tempos antigos. Em Rialma conheci a Sanfona. Na Vila Nova, um bairro-cidade de bons nordestinos, nos anos 1960, tinha o Xaxado. Em Palmelo, a doida Cachoeira vivia atormentada pelos garotos que não tinham o que fazer. De longe, com um olho na Cachoeira e o pé apontado aonde deveriam correr, a meninada provocava a doida.

Pepino, o menor de todos da rua, era o mais atrevido:

– Cachoeira não me pe-ee-ga, olé, olé, olá!

Cachoeira, alucinada, soltava faíscas pelos olhos. Cada um corria para um lado.

Sem saber a quem pegar ela jogava sua vara ensebada de sujeira na direção dos garotos. Nunca acertava o alvo, se é que ela tinha um. Cachoeira se tornou um mistério em Palmelo. Ninguém sabia de onde viera, nem como vivia. Assim, de história em história, ela se tornou o centro da curiosidade dos moradores. Até que todos se acostumaram com a sua presença. Nos dias de sol ela rondava as ruas de Palmelo com seu cheiro azedo de quem nunca tomara banho.

Cachoeira mascava dentes de alho, o que a fazia mais fedida ainda. No começo ninguém sabia onde morava. Alguns diziam ela que morava dentro do “Esbarrancadão”. Aparecia e desaparecia igual a um arco-íris depois da chuva. Para muitos, Cachoeira era um fantasma, um espírito plasmado naquela figura horrenda. Mas como um fantasma pode feder tanto? Para mim ela era real, apesar de suas misteriosas idas e vindas.

Em dias nublados ela vinha e, depois de algum tempo, sumia igual fumaça ao vento. Não me lembro de ter visto suas pegadas nas ruas sem asfalto. Noutras noites reaparecia do ventre da escuridão. De manhã, chegava alegre, ria e bailava dizendo tolices com sua voz rouca. Conversava animada com alguém que somente ela via, talvez vindo das catacumbas do dia morto. De vezem quando ela fumava tocos de cigarro tirados de um bolso fundo na frente de suas roupas imundas; rotas e cinzentas. Sua voz soava com leviana felicidade. Como pode alguém ser feliz vivendo daquele jeito?

O nariz tucano da doida despontava num rosto lacrado com a máscara da própria alma. Tinha verrugas na cara feia sem expressão. Seu corpo mofo cheirava a alho, a cigarro e a filhote de urubu. Na tapera abandonada do final da rua, onde ficava por alguns instantes, os picumãs pendurados no teto tinham a aparência de morcegos defumados. Cachoeira passou a morar ali. Num desses dias em que as bruxas fugiram do quinto dos infernos, a única janela do casebre ficara aberta. Pepino, o menino levado, pulou para dentro da tapera. A janela bateu desesperadamente contra os portais. Uma batida seca selou o silêncio. Depois o ventou passou horas brincando de abrir e fechar a janela, num ranger fantasmagórico e irônico.

Janelas foram inventada por um pedreiro que não sabia como fechar o último buraco da parede ou porque faltara tijolos para completar a parede. A noite chegou e as luzes do sol foram se apagando, uma a uma, até começar o lusco-fusco. A escuridão desceu sobre a casa de Cachoeira. Só restou uma luz de lamparina acesa na casa da mãe de Pepino. Ela adormeceu com o terço na mão. O dia chegou com o céu limpo e o sol quente de “lascar mamona”. Na casa de Cachoeira a janela batia devagar com o vento passando através de suas gretas. Nunca soube o que aconteceu com a mãe de Pepino.

Tempos depois, em Pilar, apareceu um doido chamado Pingo. Os cachorros latiam e se desassossegavam quando Pingo passava. Uivam como uivam os lobos em noite de lua cheia.

Meninos de cidade pequena são terríveis para azucrinar a vida dos doidos.

Um deles gritou:

– Pingoo! Pingo de Cachoeira, vem me pee-ga-ar!

Pingo atirou pedras para todos os lados. Mas não acertou nenhum dos meninos.

Pois e, Pepino, cada cidade tem o seu doido.

 

(Doracino Naves, jornalista, apresentador do programa Raízes Jornalismo Cultural, PUC TV, sábado, 12h30. Reprise, domingo, 20h)

 

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