Cotidiano

Loucos por Matemática

Redação DM

Publicado em 3 de setembro de 2016 às 02:24 | Atualizado há 10 anos

Os árabes foram os primeiros a descobrir a força dos números. Através de uma simples comparação com a realidade, perceberam que existia uma forte relação da quantidade de ovelhas que observavam nos campos com uma sequência de símbolos que criaram – hoje chamada de números.

Ciência essencial para todas as atividades humanas, Matemática tornou-se um desafio para o Brasil, na medida em que o País não aceita mais ser considerado inapto com os números. Levantamentos recentes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) mostra que o Brasil está distante dos países desenvolvidos quando se compara a Matemática produzida pelos seus alunos.

Em 2012, o País registrou 402 pontos no Pisa, seu melhor resultado. Ocorre que a trajetória do Brasil tem se revelado dificultosa: em 2000, o País teve média de 368, 2003 pulou para 383, em 2006 registrou 384 e em 2009 marcou 401 pontos. Os países de ponta marcam mais de 450.

Dispostos a mudarem esta realidade, cada vez mais professores e estudantes têm se esforçado para fazer com que os brasileiros gostem [mesmo] das famosas operações e problemas que quebram a cabeça.

A estudante Júlia Marie Nogueira Silva, da 6ª série, diz que Matemática não é difícil, mas complicada. “As contas exigem atenção. Muitas vezes resolvemos as operações rapidamente, sem perceber que a Matemática é traiçoeira. Já deixei de tirar muito dez por desatenção”, diz. Assim como Júlia, inúmeros estudantes se dirigem para a sala de aula e se esforçam para compreender mínimos múltiplos comuns, potências, cálculos, funções, conjuntos e tantos outros enigmas que ajudam a fazer o mundo realmente funcionar. Não existe música sem Matemática, pois os acordes se formam a partir de números (como um acorde maior, formado pelas notas 1, 3 e 5 de uma escala natural), as construções civis se sustentam em fórmulas (como aquelas que dizem quanto se deve gastar de cimento) e a vida se organiza em pares e combinações de elementos (como os cromossomos, que se organizam em números).

A Matemática é essencial para o cotidiano. Mas também costuma encantar as pessoas. Não é por acaso que os números atraem cada vez mais pessoas nos países desenvolvidos, a ponto do curso de matemática ser concorrido tanto quanto as profissões mais vantajosas. Nos Estados Unidos é simples: o curso é base para engenharias e se exige a Matemática para quem deseja entrar nas profissões de saúde, por exemplo.

IMPORTÂNCIA

É esta importância que os estudantes do Brasil precisam dar para a matéria. Quem já descobriu a força das equações não troca Matemática por nada. Um exemplo está em Iporá. A cidade goiana reúne um grupo de estudantes de ponta que se dedica com afinco e que representará o Brasil em uma na Convenção Internacional de Jovens Matemáticos, que será realizada, em dezembro, na Índia.

A proeza dos goianos é digna de nota, de anúncios publicitários, grandes manchetes, pronunciamento de políticos e tudo mais. Alunos do C. E. Odilon José de Oliveira simplesmente se destacaram sem qualquer apoio diferenciado, apenas na raça e determinação.

A fama do grupo começou quando participou da Olimpíada Internacional Matemática sem Fronteiras (MSF). Duas turmas do Ensino Fundamental receberam premiação. A galera do 9º Ano conquistou medalha de ouro; a turma do 5º recebeu menção honrosa.

Os goianos participarão da competição interclasses de Matemática com estudantes de 27 países. De acordo com a coordenadora pedagógica do colégio, Maria Cristina Alves Borges, a questão é encontrar recursos para levar os estudantes. Os custos das despesas da viagem chegam a R$ 50 mil.

Os estudantes pedem ajuda por meio da professora que sonha a viagem deles. “Estamos implorando para as autoridades nos ver e ajudar estes meninos. São crianças de comunidades carentes, muito sofridos e esforçados”, diz Maria Cristina.

“Esse foi o cálculo que fizemos para levar nossa delegação, que será integrada por cinco estudantes, um professor, um representante da subsecretaria regional e um do grupo gestor da escola”.

A coordenadora afirma que as crianças estão entusiasmadas com a possibilidade de participarem de um evento internacional. “Para eles e para nós, isso é um fator de motivação importantíssimo”.

O movimento em defesa dos estudantes motivou inúmeras reações. O deputado federal João Campos, por exemplo, usou as redes sociais para defender as crianças, além de conclamar que a sociedade participe de um movimento para levar os jovens até Lucknow, na Índia. “O Brasil tem inúmeros exemplos de que é possível cumprir o Plano Nacional de Educação (PNE). Vejam vocês que estes garotos e jovens do interior de Goiás e do Brasil conseguem praticamente o impossível. Então, com certeza, o Brasil tem jeito e poderá em breve, sim, mostrar um melhor desempenho em avaliações como o Pisa”, diz o deputado federal, que abraçou a campanha.

A professora de Matemática Eunice Miranda de Souza, pesquisadora de educação infantil, é outra que acredita na força transformadora da Matemática e no potencial dos meninos de Iporá. “Não é difícil: basta focar. O que esta escola de Iporá fez, com certeza, foi estimular também os professores, pois eles são os maestros desta vitória”, diz.

Medo dos números habita inconsciente coletivo

O poeta e estudioso da comunicação Hans Enzensberger escreveu o livro “O diabo dos números” como forma de expor o medo da matemática. Na obra, Robert, um menino de onze anos, enfrenta Teplotaxl, um demônio que faz bruxarias com os números.

O livro combate o medo a partir das palavras ao tentar descrever situações em que a matéria deveria ser encarada quase que naturalmente – ao contrário do que ocorre no cotidiano, quando até mesmo os professores fazem questão de assustar os neófitos em números.

No Brasil, é natural o receio. Ainda mais em países que declaradamente não cultivam o discurso matemático. Agora mesmo o Brasil teve a derrubada de um presidente motivado por erro orçamentário, portanto, um erro matemático. O desrespeito aos números é claro na cultura do Brasil.

Keith Devlin, autor de obras como “Gene da Matemática” e “O instinto matemático”, procura mostrar que até mesmo os bebês já chegam no mundo com a Matemática na cabeça. Devlin cita a pesquisadora Karen Wynn, que descobriu como eles diferenciam os objetos. E quando diferenciam usam um conhecimento matemático.

Uma das provas debatidas por Karen diz respeito ao olhar dos bebes, que se detém mais em coisas novas. A Matemática é exatamente isso: a teoria de conjunto trabalha, por exemplo, as cores, as formas e os organiza.

Os bebês, através da observação do diferente, entendem a quantidade antes mesmo de um ano. O olhar já indica, portanto, uma miniteoria de conjuntos, que é apreendida da realidade.

Os cachorros, da mesma forma, enxergam a Matemática, ao analisar o ambiente e avaliar. Devlin cita, por exemplo, como os cachorros observam retas e realizam cálculos para pegar uma bola jogada em diagonal.

Este conhecimento, praticamente natural, portanto, é que se perde quando uma sociedade deixa de evidenciar a Matemática.

A maioria dos pesquisadores em educação questionam exatamente esta falta de apreço pela demonstração do quanto a matemática está presente no cotidiano. Devlin, por exemplo, faz questão de perguntar, em “O instinto matemático”, o que é a matemática para mostrar, de fato, que é muito mais do que números.

 

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