Golpe consumado. Dilma é deposta. Temer já assume. Lula será “caçado”
Redação DM
Publicado em 1 de setembro de 2016 às 02:18 | Atualizado há 10 anos- 31 de agosto entra para a história com a morte da democracia pós-ditadura civil e militar
- Sem tanques, nem metralhadoras, muito menos crime de responsabilidade, líder petista cai
- Conspiração teve participações de Eduardo Cunha e Aécio Neves, com o suporte da grande mídia
- Opinião pública mundial não entende cassação e vê desestabilização de democracias na América Latina
A presidente da República, Dilma Rousseff, reeleita em 26 de outubro de 2014 com 54.501.118 votos, foi deposta, ontem, 31 de agosto de 2016, em um golpe parlamentar, sem tanques nem metralhadoras, como em 1964, no Senado Federal, pelos votos de 61 integrantes da Casa de Leis. Contrários, 20. Ricardo Lewandowisk, que presidiu a sessão histórica, assinou a sentença às 14h13.
– Ficamos menores diante do mundo [É o que diz a socióloga Maria Hermínia Tavares de Almeida ao Valor Econômico]
A sessão foi aberta às 11h17 pelo presidente do Supremo Tribunal Federal [STF], Ricardo Lewandowski. O processo iniciou-se com a leitura do relatório. Com argumentos da acusação e da defesa. O ministro da Suprema Corte fez um breve resumo do documento. Uma segunda votação definiu se ela perderia ou não os direitos políticos por oito anos consecutivos a partir de 2018.
– 42 a favor, 36 contra e três abstenções.
Temer derrotado
A economista Dilma Vana Rousseff Linhares, mãe do Programa de Aceleração do Crescimento [PAC], criadora do projeto inclusivo Minha Casa, Minha Vida, responsável por executar amplo programa de erradicação da pobreza extrema do Brasil e de incluir milhões de pessoas nas classes médias, não ficará inelegível por oito anos. É o que decidiu, no voto, o Senado da República.
– Para torna-la inelegível, os golpistas precisam de 2/3 dos 81 votos do Senado. Não obtiveram
De Lindbergh Farias, senador da República, ex-cara pintada nas manifestações de 1992:
– É golpe!
Vice-presidente eleito em outubro de 2014, o advogado Michel Temer tomou posse no Senado duas horas depois. O “usurpador” já programa viagens internacionais. Um silêncio sepulcral tomou conta da Casa Branca, sede do poder nos Estados Unidos, desde abril de 2016. Em sua agenda estão incluídas as propostas de Reforma da Previdência, que chega ao Congresso Nacional em setembro.
– Além da trabalhista, que poderá alterar a CLT [Consolidação das Leis Trabalhistas]. [É o que teme a CUT – Central Única dos Trabalhadores]
Direitos econômicos e sociais dos trabalhadores serão retirados, denuncia Jean Wyllys, deputado federal do PSol-RJ. A idade mínima para a aposentadoria de homens e mulheres poderá ser de 70 anos de idade. A expectativa média de vida, no Nordeste do Brasil, por exemplo, chega a 68 anos. Um saco de maldades será aberto para atingir os trabalhadores. As perspectivas são críticas.
– Não há golpe!
Afastar a presidente da República é constitucional, discursou o presidente do Senado Federal, Renan Calheiros [PMDB-AL], antigo aliado de Dilma Rousseff, hoje braço direito de Michel Temer, rotulado de “interino golpista”. Preto no branco: não se trata de golpe de Estado. É o que insiste o senador. Mais: Renan Calheiros votou contra a inabilitação de Dilma Rousseff pelo prazo de oito anos.
Vida sofrida
Ex-guerrilheira à época da ditadura civil e militar, integrava a Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares, com passagens pela Organização Marxista Revolucionária – Política Operária [Polop], crítica do PCB [Partido Comunista Brasileiro], e no Comandos de Libertação Nacional [Colina], ela foi presa em janeiro de 1970, torturada e julgada por um tribunal de exceção, que a condenou.
– Tempos sombrios aqueles.
Um câncer linfático colocou a morte à frente de Dilma Rousseff. Tempos de medo. Mais uma vez. Como a vida quer é coragem, ela, uma guerreira, enfrentou publicamente a doença grave e a sepultou. O que a presidente da República mais temia ocorreu no trágico 31 de agosto de 2016, no Brasil. A morte real da democracia, conquistada após 21 anos de ditadura civil e militar.
– O que mais temo é a morte da democracia ! [Trecho do discurso de Dilma Rousseff]
Dilma Rousseff nega ter cometido os crimes a ela atribuídos: o de pedaladas fiscais e de emissão de decretos sem autorização do Congresso Nacional. A advogada Janaína Paschoal, que recebeu R$ 45 mil pelo parecer, fez a acusação. O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo contestou as acusações. Jornalista, Elio Gaspari apontou crime de menos para responsabilidade demais.
– Não cometi crime de responsabilidade. O impeachment é um golpe de Estado! [É o que afirmou Dilma Rousseff, no Senado, dia 29 de agosto]
Reeleita em outubro de 2014, Dilma Rousseff iniciou o segundo mandato com uma base parlamentar, no Senado, de 53, dos 81 integrantes. Presidente da Câmara dos Deputados afastado e réu no STF, Eduardo Cunha teria feito chantagem com a líder petista para obter a sua absolvição. Não conseguiu e abriu o processo para o seu impedimento. Em 17 de abril ela foi derrotada.
– O afastamento ocorreu em maio.
Apenas PT, PCdoB e PDT permaneceram aliados a Dilma Rousseff. Além dessas siglas, dissidentes do PMDB e da Rede Sustentabilidade, como Kátia Abreu, do Tocantins, Roberto Requião, do Paraná, e Randolfe Rodrigues, Amapá, denunciaram a farsa do golpe. Nas ruas, a Frente Brasil Popular reuniu CUT, CTB, UNE, UBES e a Frente do Povo Sem Medo, MTST, MST e siglas clandestinas.
Tragédias de agosto
Agosto é um mês trágico para a democracia verde e amarela. É o que mostra a história. Em 24 de agosto de 1954, o nacional-estatista Getúlio Vargas, gaúcho de São Borja, suicidou-se em seus aposentos presidenciais, no Palácio do Catete. Tancredo Neves, Darcy Vargas, Alzira Vargas e Aguinaldo Caiado de Castro foram os primeiros a vê-lo com uma marca de sangue no peito.
– Deixo a vida para entrar na história. [O pai dos pobres escreveu em seu testamento]
Etílica vassoura, Jânio da Silva Quadros, eleito em 1960, renunciou à presidência da República em 25 de agosto de 1961. O calvário de João Belchior Goulart começaria. Após um acordo nacional, o parlamentarismo é introduzido na República. Com o plebiscito de janeiro de 1963, Jango, como era chamado, retoma os seus poderes. O golpe civil e militar de 1964 abreviou a sua história.
– 50 anos em cinco.
O homem do Plano de Metas – 50 anos em 5 -, pé-de-valsa Juscelino Kubistcheck, eleito para o Palácio do Catete, Rio de Janeiro, também sofreu a tentativa de golpe. O episódio ficou classificado como a “Crise de Aragarças”. Cassado após 1964, JK criou, com Jango e Carlos Lacerda, a Frente Ampla. O construtor de Brasília morreu em um misterioso acidente em agosto de 1976.
– Mesmo ano da morte de Jango, que pode ter sido assassinado em dezembro.
Caçada a Lula
Colunista da Folha de S. Paulo, Monica Bergamo aponta que, derrotada Dilma Rousseff, no Senado, e Michel Temer no Palácio do Alvorada de forma definitiva, a caçada a Luiz Inácio Lula da Silva será deflagrada. A estratégia das direitas é inviabilizar o seu projeto presidencial para 2018. Os institutos Datafolha e Vox Populi apontam que o ex-operário metalúrgico é favorito em qualquer cenário político.
– A opinião pública mundial está estarrecida com o esfacelamento da democracia na América Latina. [Como registram as redes sociais]
Primeiro, Honduras, em 2009, com a deposição do nacionalista Manuel Zelaya, que refugiou-se na Embaixada do Brasil. Depois, no turbulento ano de 2012, o católico progressista Fernando Lugo caiu em um processo farsesco que durou exatas 24 horas. Os EUA reconheceram imediatamente os dois novos governos. Agora, Brasil, em 2016. Amanhã, quem sabe, a Venezuela?
– Tragédia e farsa ! [ Como aponta o Le Monde]
54.501.118 Número de votos obtidos por Dilma Rousseff em 2014
61 Número de votos favoráveis ao golpe contra ela Os direitos políticos de Dilma Rousseff foram mantidos
Cronologia – História do Brasil
1954
Getúlio Vargas
suicida-se
1956
Ameaças de
Aragarças a JK
1961
Renúncia de Jânio Quadros
1964
Golpe de Estado
civil e militar
1970
Prisão de Dilma Rousseff
2016
Deposição de
Dilma Rousseff