Cotidiano

Necessidade de energia nuclear

Redação DM

Publicado em 1 de setembro de 2016 às 02:08 | Atualizado há 10 anos

A falta de chuvas não só deixou a conta de luz mais cara em 2015, como também ganhou mais peso no cálculo da inflação. Sozinha, a crise da água encareceu a energia elétrica nas residências em torno de 48% no ano passado. Na avaliação da presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben) e coordenadora de Sustentabilidade da Eletronuclear, Ruth Soares Alves, os problemas do sistema elétrico brasileiro “são de longa data, porque são estruturais”.

Em entrevista, ela alertou que os problemas ocorrem porque o Brasil não tem fontes confiáveis de energia. “Como você tem uma matriz energética como a nossa, que é eminentemente hidráulica, você depende de chuva. Se não chover, não vai ter energia, porque nós não temos muitos reservatórios”. Nos últimos 20 anos, as usinas hidrelétricas construídas no País foram a fio d’água (usina hidrelétrica a fio d’água é aquela que não dispõe de reservatório de água, ou que tem pequenos reservatórios). “Não choveu, não pode gerar. Vai ter que substituir por outra fonte”.

Nos últimos seis anos estão sendo usadas fontes térmicas para suprir a falta de água nos reservatórios das hidrelétricas, que, segundo Ruth Soares, não são planejadas para uso direto. “Elas são para dar estabilidade na matriz energética. Estamos usando 100% da nossa capacidade térmica instalada”. Além disso, as usinas termelétricas são mais caras que a nuclear. “O Brasil não tem um plano B”, explicou.

Por isso, a coordenadora vê a energia nuclear como uma espécie de salvaguarda, porque é feita para operar na base. “A usina nuclear está ligada o tempo todo. Uma usina térmica, em situação de emergência, tem o preço de geração elevado no mercado, porque as usinas não foram projetadas para ficar gerando energia de forma constante. Já a nuclear tem preço fixo já definido pela Agência Nacional de Energia Elétrica”, esclareceu.

Ruth reiterou a necessidade de diversificação da matriz energética. “Não dá para deixar para amanhã”, orientou. “Temos que incluir a energia nuclear porque é uma energia de base”. Para ela, o maior problema das fontes renováveis é a intermitência. É o caso da biomassa da cana de açúcar, que só funciona três ou quatro meses por ano. “O Brasil não pode abrir mão da fonte nuclear. Temos que ter todas as fontes, porque são complementares e muito bem-vindas”, concluiu.

Além da usina nuclear Angra 3, que está em construção no município de Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro, o Plano Nacional de Energia 2030 prevê a construção de até 8 mil megawatts (MW) de energia nuclear no País. A presidenta da Aben observou, porém, que há necessidade de se começar a construção das novas usinas agora, porque levam em torno de dez anos para ficarem prontas.

Após o acidente nuclear em Fukushima, no Japão, em março de 2011, ocasionado por um terremoto seguido de tsunami (ondas gigantes), o mundo decidiu dar uma parada nos seus programas nucleares para analisar o que estava ocorrendo e reforçar os mecanismos de segurança das usinas. Todos os países reavaliaram seus programas, inclusive o Brasil. “É uma característica da indústria nuclear. Toda vez que ela tem um problema, ele não é só de um país, é de todos”.

Segundo Ruth, três anos após o desastre de Fukushima, os planos nucleares foram retomados no mundo. A China, por exemplo, tem em construção 28 usinas ao mesmo tempo. Os Estados Unidos também retomaram o programa nuclear e estão construindo cinco grandes usinas. Ao todo, há em construção no mundo 70 usinas. Em operação, estão 437 em mais de 30 países. Ruth Soares acrescentou que uma usina nuclear se paga em dez ou 12 anos e tem custo de combustível muito baixo, de US$ 28 por megawatt (MW), no Brasil, contra US$ 500 por MW do gás natural. “A diferença de preço é espantosa”, disse.

Fontes Energéticas

No que concerne à energia elétrica, o Brasil apresenta, nesta metade da década 2010/2020, uma matriz de oferta com alta presença de fontes renováveis, acima de 85%, o que é bem maior que a média mundial, de apenas 19%. A maior parcela da energia elétrica gerada no Brasil vem de empreendimentos hidrelétricos, que respondem por cerca de 70% da capacidade instalada do País, com mais de mil usinas em operação.

A segunda maior modalidade de geração elétrica do País é a térmica, responsável por cerca de 30% da capacidade instalada, sendo 10% a gás natural, 8% à biomassa, 6% a óleo, 2% a carvão mineral, 2% nucleares e 1% a gás industrial residual. Outras modalidades de geração, com participação ainda reduzida, são a eólica e a solar.

Energia

É chamada de energia nuclear, ou termonuclear, a energia baseada na divisão de átomos de um determinado elemento químico. Os primeiros resultados da divisão do átomo de metais pesados, como o urânio e o plutônio, foram obtidos em 1938. Inicialmente, a tecnologia foi utilizada para objetivos militares e posteriormente, com o avanço dos estudos, foram desenvolvidas com o intuito de produzir energia elétrica. No entanto, armas nucleares continuam sendo produzidas através do enriquecimento de urânio, e esse é um dos principais motivos para a tecnologia ser tão fiscalizada pela política internacional.

No fim da década de 1960, o governo brasileiro começou a desenvolver o Programa Nuclear Brasileiro, destinado a implantar no país a produção de energia atômica. O País possui hoje a central nuclear Almirante Álvaro Alberto, constituída por três unidades (Angra 1, Angra 2, e Angra 3).

O Brasil é um dos poucos países do mundo a dominar todo o processo de fabricação de combustível para usinas nucleares. O processo de enriquecimento isotópico do urânio por ultracentrifugação, peça estratégica dentro do chamado ciclo do combustível nuclear, é totalmente de domínio brasileiro. Hoje, o combustível utilizado nos reatores de pesquisa brasileiros pode ser totalmente produzido no País.

Entretanto, comercialmente ainda fazemos a conversão e o enriquecimento no exterior. As reservas brasileiras de urânio já confirmadas são de 300 mil toneladas e estão entre as seis maiores do mundo. Em termos energéticos, mesmo com apenas um terço sendo explorado, essas reservas são da mesma ordem de grandeza do pré-sal e seriam suficientes para manter em funcionamento 10 reatores equivalentes aos existentes – Angra 1 e Angra 2 – por cerca de 100 anos. O funcionamento dessas duas usinas foi muito importante no período de falta de energia no Brasil.

O Ministério da Ciência e Tecnologia coordenou um grupo de trabalho encarregado de rever o programa nuclear e formular planos de médio prazo. O grupo apresentou um plano realista para ser executado em 18 anos e que objetiva o fortalecimento de todas as atividades, inclusive a aquisição de novos reatores para chegar em 2022 com, pelo menos, a mesma participação nuclear (2,9%) na matriz energética brasileira. A proposta encontra-se em análise na presidência da República.

Diante do atual cenário, em que os reservatórios das hidrelétricas já atingiram o menor nível desde 2001, Othon Luiz Pinheiro, presidente da Eletronuclear, não tem dúvidas de que não existe outra opção senão a de crescer a geração nuclear. “A demanda por energia cresceu, mas o estoque se manteve o mesmo. As usinas nucleares têm uma tarifa competitiva, o que mostra que esse tipo de energia é confiável”.

Para o presidente, a energia nuclear pode ser considerada a “prima” das hidrelétricas, já que ambas compartilham das mesmas características: exigem alto investimento e tem o combustível barato. “A energia nuclear é uma fonte complementar de garantia forte. Mas é preciso escolher as tecnologias certas, com reatores de qualidade”, complementa Pinheiro.

Atento às garantias de qualidade, Pinheiro não descarta uma nova parada nas operações de Angra 3, que recebeu um financiamento de R$ 3,8 bilhões da Caixa Econômica Federal e tem previsão para iniciar atividade em julho de 2016. “Existem ainda pontos de incertezas em relação à instrumentação e controle da central nuclear. Só vamos ter certeza um pouco mais para frente”, elucida Pinheiro.

Na visão do diretor da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Edson Kuramoto, a energia nuclear, hoje responsável por 2,8% de participação na matriz energética, vai ajudar a reduzir a dependência das hidrelétricas. “A nossa matriz energética é dependente de chuva e o crescimento da energia nuclear pode ajudar a reduzir os sustos”, esclarece.

“Temos condições de crescer e estamos preparados”. O presidente afirma que realizou um mapeamento em que foram identificados 40 possíveis locais para a instalação das novas unidades. “A decisão é do governo”, lembra.

 

Vantagens e Desvantagens

▲ A geração de eletricidade através da energia nuclear pode reduzir a quantidade de energia gerada de combustíveis fósseis (carvão e petróleo). Essa diminuição leva à redução das emissões de gases de efeito estufa (CO2 e outros).

▲ A quantidade de combustível necessária é muito pequena. Uma pedra de urânio é o suficiente para sustentar a demanda de uma cidade inteira, o que diminui muito o investimento no recurso. Existe grande disponibilidade de urânio na natureza e no Brasil, que tem a 6ª maior reserva.

▲ A produção de eletricidade é contínua. Uma usina de energia nuclear é capaz de gerar eletricidade para quase 90% das horas do ano. Isso favorece o planejamento de continuidade de distribuição de energia, já que ela não depende de aspectos naturais.

▲ É uma fonte de energia relativamente segura. Se considerando que só houveram dois acidentes realmente fatais, em 435 usinas no mundo (0,4% do total).

▼ Os acidentes em usinas nucleares são de altíssimo perigo para as pessoas que residem próximas a elas. Nestes acidentes, é elevado o risco de contaminação das pessoas, solo, água e animais. Uma vez contaminadas por radioatividade, estas pessoas podem morrer ou desenvolver câncer de diversos tipos. A contaminação ao meio ambiente também é problemática, pois pode levar centenas de anos para que ocorra a total descontaminação do local do acidente e imediações afetadas.

▼ Geração de lixo nuclear, que demanda altos investimentos e processos de segurança para sua armazenagem. Vale lembrar que o lixo atômico não pode ser descartado na natureza, mas sim tratado e armazenado com rígidos padrões de segurança.

▼ Mesmo que a energia produzida em si seja barata, o custo de implantação de uma usina nuclear é muito elevado. A tecnologia empregada e a mão-de-obra especializada encarecem muito o processo.

▼ Pode ser utilizada para fins bélicos. Quem possui a tecnologia de enriquecer o urânio até 30%, o necessário para produzir a energia, tem a capacidade de o fazer para a produção de uma bomba atômica.

 

Eletricidade e planejamento: temas estratégicos da comunidade internacional 

A energia é um tema estratégico da comunidade internacional desde a década de 1970, inserida no conceito de desenvolvimento sustentável e de um uso mais eficiente dos recursos naturais do planeta. O tema ganhou importância com o surgimento de novos atores e uma competição acirrada pelos recursos naturais e econômicos mundiais, além da difícil busca pela segurança energética, essencial para o desenvolvimento.

Entre todas as formas secundárias de energia, a eletricidade é a que melhor se adapta e se insere na vida moderna. E é muito claro de que a energia elétrica é a fonte mais nobre e mais versátil, estando presente em todos os usos energéticos finais dos consumidores. É, certamente, a que mais contribui para o desenvolvimento e o bem-estar da sociedade.

De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), cerca de 1,3 bilhão de pessoas, 18% da população mundial, ainda não têm acesso à eletricidade. Isto indica que as fontes energéticas deverão ter uma expansão acentuada nas próximas décadas. Diversos estudos mostram que a demanda de eletricidade mundial, nos próximos anos, poderá crescer a taxas superiores a 2% ao ano, diante de apenas 1% para a oferta total de energia.

No Brasil, o consumo de eletricidade cresceu a uma taxa média de 5,8% ao ano, de 1973 a 2011, enquanto a demanda total energética foi de 3,2%, e o PIB, de 3,4%, valores bem superiores aos verificados no mundo. O consumo residencial, no Brasil, evoluiu, em média, 6,3%, enquanto o industrial, 4%, evidenciando um maior uso social da energia.

Nos próximos dez anos, o planejamento energético do Ministério de Minas e Energia, considerando os estudos do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2021, indica uma taxa média de crescimento de 4,9% ao ano para o consumo de eletricidade e para a demanda total de energia, num cenário de PIB de 4,7% ao ano. O que contraria muito a realidade, já que o PIB está desvalorizando. Embora as premissas sejam de crescimento moderado dos setores intensivos em energia, as Olimpíadas de 2016 e o desenvolvimento do pré-sal deverão alavancar o crescimento da demanda de energia.

Se a oferta de energia não for suficiente, o País se vê incapacitado de crescer. Seja para atividade industrial ou para o crescimento populacional, o desenvolvimento está diretamente dependente da eletricidade. Para o Brasil, a situação é crítica: nossa oferta está ruim. Dependemos muito das hidroelétricas, e elas estão com seus piores resultados desde meados de 2001. Principalmente por sua grande dependência a fatores climáticos. Por isso, o planejamento é necessário.

Em 2004, o governo federal lançou as bases de um novo modelo institucional, um novo marco regulatório para o setor elétrico brasileiro, sustentado pelas leis nº 10.847 e 10.848, de 15 de março de 2004, e pelo decreto nº 5.163, de 30 de julho de 2004.

Em termos institucionais, o novo modelo definiu a criação de uma entidade responsável por estudos relacionados ao planejamento energético, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), um órgão com a função de avaliar permanentemente a segurança do suprimento de energia elétrica (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico – CMSE) e uma instituição para celebrar os contratos de comercialização de energia elétrica no Sistema Interligado Nacional (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica – CCEE), não mais como um mercado de energia, mas sim como um mercado de liquidação de diferenças.

O Operador Nacional do Sistema (ONS), entidade de direito privado sem fins lucrativos, é, no novo modelo, responsável por coordenar e controlar a operação das instalações de geração e de transmissão do Sistema Interligado Nacional, objetivando otimizar a geração conjunta do sistema hidrotérmico, visando à segurança energética e à minimização dos custos da energia elétrica para os consumidores.

A atuação da Aneel, agência reguladora independente, foi priorizada nos seus diversos papéis, em especial os de regulação, de fiscalização e do estabelecimento das tarifas, de forma a preservar o equilíbrio econômico-financeiro dos agentes e proteger os consumidores quanto aos custos da energia fornecida.

Finalmente, destaca-se a importância do Conselho Nacional de Políticas Energéticas (CNPE), conselho interministerial consultivo da Presidência da República, que tem como principais atribuições a definição de diretrizes e a aprovação das políticas energéticas formuladas e propostas pelo Ministério de Minas e Energia.

 

 

 

Tags

Leia também

Siga o Diário da Manhã no Google Notícias e fique sempre por dentro

edição
do dia

Impresso do dia