Como no passado, resisto, diz Dilma
Redação DM
Publicado em 30 de agosto de 2016 às 02:54 | Atualizado há 10 anos- Presidente afastada lembra o suicídio de Getúlio Vargas, ameaças a JK e a queda de Jango
- Presa política em 1970 diz ter enfrentado a morte na tortura e quando descobriu o câncer
- Líder petista contesta o TCU, cita o MPF e nega ter cometido crimes de responsabilidade
- Economista afirma temer apenas “a morte de democracia” e denuncia golpe de Estado
– Não esperem de mim o obsequioso silêncio dos covardes!
Sob os olhares de Chico Buarque, Luiz Inácio Lula da Silva e Guilherme Boulos, é o que afirmou, da tribuna do Senado, Brasília [DF], Dilma Vana Rousseff Linhares, em sua defesa contra o processo de impeachment, em tramitação na Casa de Leis. A presidente da República, que obteve 54 milhões de votos, lembra que, no passado da América Latina e do Brasil, sempre que interesses de setores da elite econômica e política foram feridos pelas urnas, e não existiam razões jurídicas para uma destituição legítima, conspirações eram tramadas resultando em golpes de Estado.
– Getúlio Vargas, que nos legou a CLT e a defesa do patrimônio nacional, sofreu uma implacável perseguição, a hedionda trama orquestrada pela chamada República do Galeão, que o levou ao suicídio. [Em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, Rio de Janeiro]
A líder petista recordou-se também das conspirações contra o homem do Plano de Metas 50 anos em 5, morto, de forma suspeita, em um trágico agosto do ano de 1976. Juscelino Kubitscheck, que construiu essa cidade – Brasília -, foi vítima de constantes e fracassadas tentativas de golpe, como ocorreu no episódio de Aragarças. “João Goulart, defensor da democracia, dos direitos dos trabalhadores e das reformas de base, superou o golpe do parlamentarismo, mas foi deposto e instaurou-se a ditadura civil e militar, em 1964”,atira.
– Durante 21 anos, vivemos o silêncio imposto pelo arbítrio e a democracia foi varrida de nosso País. Milhões de brasileiros lutaram e reconquistaram o direito a eleições diretas.
Em tom de indignação, Dilma Rousseff diz que em 2016, mais uma vez, ao serem contrariados e feridos, nas urnas de 2014, os interesses de setores da elite econômica e política, o País está diante do risco de uma “ruptura democrática”. Os padrões políticos dominantes no mundo repelem a violência explícita, observa, emocionada. Agora, a ruptura democrática se dá por meio da violência moral e de pretextos constitucionais para que se empreste aparência de legitimidade ao governo que assume sem o amparo das urnas, denuncia a líder petista.
– Invoca-se a Constituição para que o mundo das aparências encubra hipocritamente o mundo dos fatos.
As provas produzidas são meros pretextos, embasados por uma frágil retórica jurídica, ataca. A ex-guerrilheira, que integrou a Organização Marxista Revolucionária Política Operária [Polop], o Comandos de Libertação Nacional [Colina] e a Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares [VAR-Palmares], ao lado de Carlos Alberto Soares de Freitas, o Breno, desaparecido político, Carlos Franklin da Paixão Araújo, Antônio Roberto Espinosa e Carlos Lamarca, o capitão da guerrilha, morto em setembro de 1971, no sertão da Bahia, é taxativa:
– Na luta contra a ditadura recebi no meu corpo as marcas da tortura. Amarguei por anos o sofrimento da prisão. Vi companheiros e companheiras sendo violentados, e até assassinados.
Militante em armas, ela frisa que, na época, era muito jovem. Tinha muito a esperar da vida, conta. Tinha medo da morte, das sequelas da tortura no meu corpo e na minha alma, pontua. Mas não cedi, explica. Resisti, insiste. Resisti à tempestade de terror que começava a me engolir, na escuridão dos tempos amargos em que o País vivia, sublinha. Não mudei de lado, enfatiza. Apesar de receber o peso da injustiça nos meus ombros, continuei lutando pela democracia, destaca. Ela foi presa em janeiro de 1970 e libertada anos & anos depois.
– Quem acredita, luta!
Diante das acusações que contra mim são dirigidas neste processo, não posso deixar de sentir, na boca, novamente, o gosto áspero e amargo da injustiça e do arbítrio, desabafa. No passado, com as armas, e hoje, com a retórica jurídica, pretendem novamente atentar contra a democracia e contra o Estado do Direito, abre o jogo. Segundo ela, é necessário resistir. Para acordar as consciências ainda adormecidas para que, juntos, finquemos o pé no terreno que está do lado certo da história, mesmo que o chão trema e ameace de novo nos engolir, registra.
– E resistir. Resistir sempre!
Não luto pelo meu mandato por vaidade ou por apego ao poder, como é próprio dos que não tem caráter, princípios ou utopias a conquistar, discursa, em ataque velado contra Michel Temer. Luto pela democracia, pela verdade e pela justiça, metralha. Luto pelo povo do meu País, pelo seu bem-estar, expõe a sua verdade. O mais importante é que posso olhar para mim mesma e ver a face de alguém que, mesmo marcada pelo tempo, tem forças para defender suas ideias e seus direitos, fuzila. “Sei que, em breve, e mais uma vez na vida, serei julgada”.
– Não cometi nenhum crime de responsabilidade. Não cometi os crimes dos quais sou acusada injusta e arbitrariamente.
A presidente da República afastada pela Câmara dos Deputados explica aos senadores da República que as acusações contra o seu mandato são pretextos. Apenas pretextos, para derrubar, por meio de um processo de impeachment sem crime de responsabilidade, um governo legítimo, escolhido em eleição direta com a participação de 110 milhões de brasileiros e brasileiras, afirma. O governo de uma mulher que ousou ganhar duas eleições presidenciais consecutivas, diz. São pretextos para viabilizar um golpe na Constituição, metralha.
– Um golpe que, se consumado, resultará na eleição indireta de um governo usurpador.
Com o dedo em riste, ela afirma que trata-se de eleição indireta de um governo que, já na sua interinidade, não tem mulheres comandando seus ministérios. Quando o povo, nas urnas, escolheu uma mulher para comandar o País, analisa. Um governo que dispensa os negros na sua composição ministerial e já revelou um profundo desprezo pelo programa escolhido pelo povo em 2014, destaca. Fui eleita presidenta por 54 milhões e meio de votos para cumprir um programa cuja síntese está gravada nas palavras “nenhum direito a menos”.
– O que está em jogo no processo de impeachment não é apenas o meu mandato. O que está em jogo é o respeito às urnas, à vontade soberana do povo brasileiro e à Constituição.
O que está em jogo são as conquistas dos últimos 13 anos, discursa a ex-guerrilheira. Os ganhos da população, das pessoas mais pobres e da classe média, explica. “A proteção às crianças; os jovens chegando às universidades e às escolas técnicas; a valorização do salário mínimo; os médicos atendendo a população; a realização do sonho da casa própria”, frisa. “O que está em jogo é o investimento em obras para garantir a convivência com a seca no semiárido, é a conclusão do sonhado e esperado projeto de integração do São Francisco”.
– O que está em jogo é, também, a grande descoberta do Brasil, o pré-sal. O que está em jogo é a inserção soberana de nosso País no cenário internacional. O que está em jogo é a conquista da estabilidade, que busca o equilíbrio fiscal, mas não abre mão de programas sociais para a nossa população. O que está em jogo é o futuro do País, a oportunidade e a esperança de avançar sempre mais. No presidencialismo previsto em nossa Constituição, não basta a eventual perda de maioria parlamentar para afastar um presidente.
Há que se configurar crime de responsabilidade, reclama. Está claro que não houve tal crime, insiste. Não é legítimo, como querem os meus acusadores, afastar o chefe de Estado e de governo pelo “conjunto da obra”, registra. Quem afasta o presidente pelo “conjunto da obra” é o povo, e só o povo, nas eleições, afirma. Nas eleições de 2014, o programa de governo vencedor não foi este agora ensaiado e desenhado pelo governo interino e defendido pelos meus acusadores, desabafa.
– O que pretende o governo interino, se transmudado em efetivo, é um verdadeiro ataque às conquistas dos últimos anos. Desvincular o piso das aposentadorias e pensões do salário mínimo será a destruição do maior instrumento de distribuição de renda do País, que é a Previdência Social. O resultado será mais pobreza, mais mortalidade infantil e a decadência dos pequenos municípios. A revisão dos direitos e garantias sociais previstos na CLT e a proibição do saque do FGTS na demissão do trabalhador são ameaças que pairam sobre a população brasileira caso prospere o impeachment sem crime de responsabilidade.
De linhagem socialista, ela avalia que conquistas importantes para as mulheres, os negros e as populações LGBT estarão comprometidas pela submissão a princípios ultraconservadores. O nosso patrimônio estará em questão, com os recursos do pré-sal, as riquezas naturais e minerárias sendo privatizadas, denuncia. A ameaça mais assustadora desse processo de impeachment, sem crime de responsabilidade, é congelar por inacreditáveis 20 anos todas as despesas com saúde, educação, saneamento, habitação, dispara.
– A verdade é que o resultado eleitoral de 2014 foi um rude golpe em setores da elite conservadora brasileira.
Desde a proclamação dos resultados eleitorais, os partidos que apoiavam o candidato derrotado nas eleições – Aécio Neves, envolvido em escândalos de corrupção e em delações premiadas – fizeram de tudo para impedir a minha posse e a estabilidade do meu governo, frisa. “Disseram que as eleições haviam sido fraudadas, pediram auditoria nas urnas, impugnaram minhas contas eleitorais e, após a minha posse, buscaram de forma desmedida quaisquer fatos que pudessem justificar retoricamente um processo de impeachment”.
– Queriam o poder a qualquer preço. Tudo fizeram para desestabilizar a mim e ao meu governo.
A possibilidade de impeachment tornou-se assunto central da pauta política e jornalística apenas dois meses após minha reeleição, apesar da evidente improcedência dos motivos para justificar esse movimento radical, explica. Durante o meu governo e o de Luiz Inácio Lula da Silva foram dadas todas as condições para que estas investigações fossem realizadas, esclarece. Propusemos importantes leis que dotaram os órgãos competentes de condições para investigar e punir os culpados, informa Dilma Rousseff.
Assegurei a autonomia do Ministério Público, nomeando como Procurador Geral da República o primeiro nome da lista indicado pelos próprios membros da instituição, recorda-se. Não permiti qualquer interferência política na atuação da Polícia Federal, diz. Contrariei, com essa minha postura, muitos interesses, pontua. Por isso, paguei e pago um elevado preço pessoal pela postura que tive, aponta. Arquitetaram a minha destituição, independentemente da existência de qualquer fato que pudesse justificá-la perante a nossa Constituição, conta.
– Encontraram, na pessoa do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, o vértice da sua aliança golpista. Com apoio escancarado de setores da mídia!
Quem se acumplicia ao imoral e ao ilícito não tem respeitabilidade para governar o Brasil, manda recado a Michel Temer. Quem age para poupar ou adiar o julgamento de uma pessoa que é acusada de enriquecer às custas do Estado brasileiro e do povo que paga impostos, cedo ou tarde, acabará pagando perante a sociedade e a história o preço do seu descompromisso com a ética, em referência a Rodrigo Maia [DEM-RJ].Todos sabem que não enriqueci no exercício de cargos públicos, que não desviei dinheiro público em meu proveito próprio, atira.
– Não possuo contas ou imóveis no exterior [ataque endereçado a Eduardo Cunha].
Curiosamente, serei julgada, por crimes que não cometi, antes do julgamento do ex-presidente da Câmara Federal Eduardo Cunha, acusado de ter praticado gravíssimos atos ilícitos e que liderou as tramas e os ardis que alavancaram as ações voltadas à minha destituição, lamenta. Ironia da história? Não, de forma nenhuma, afirma. Trata-se de uma ação deliberada que conta com o silêncio cúmplice de setores da grande mídia brasileira, vocifera. Viola-se a democracia e pune-se uma inocente, desabafa a presidente da República afastada.
– Estamos a um passo da consumação de uma grave ruptura institucional. Estamos a um passo da concretização de um verdadeiro golpe de Estado.
Este é o segundo julgamento a que sou submetida em que a democracia tem assento, junto comigo, no banco dos réus, afirma. Na primeira vez, fui condenada por um tribunal de exceção, diz. Daquela época, além das marcas dolorosas da tortura, ficou o registro, em uma foto, da minha presença diante de meus algozes, num momento em que eu os olhava de cabeça erguida enquanto eles escondiam os rostos, com medo de serem reconhecidos e julgados pela história, relata.
Quatro décadas depois, não há prisão ilegal, não há tortura, meus julgadores chegaram aqui pelo mesmo voto popular que me conduziu à presidência, aponta. Continuo de cabeça erguida, olhando nos olhos dos meus julgadores, mostra. Apesar das diferenças, sofro de novo com o sentimento de injustiça e o receio de que, mais uma vez, a democracia seja condenada junto comigo, dispara. Não tenho dúvida que, também desta vez, todos nós seremos julgados pela história, discursa a presidente eleita em 2010 e reeleita no ano turbulento de 2014.
Por duas vezes vi de perto a face da morte, recorda-se a ex-militante da luta armada contra a ditadura civil e militar [1964-1985], presa em janeiro de 1970, em São Paulo. Quando fui torturada por dias seguidos, submetida a sevícias que nos fazem duvidar da humanidade e do próprio sentido da vida, observa, emocionada. E quando uma doença grave e extremamente dolorosa – o câncer linfático – poderia ter abreviado minha existência, afirma.
– Hoje eu só temo a morte da democracia!
Encontraram, na pessoa do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, o vértice da sua aliança golpista. Com apoio escancarado de setores da mídia
Dilma Rousseff,presidente suspensa do Brasil