Ele voltou!
Redação DM
Publicado em 27 de agosto de 2016 às 02:52 | Atualizado há 1 anoFilho de ferroviário, Francisco Fróes nasceu em Araguari, Minas Gerais, mas se considera goianiense. Veio para cá aos três anos de idade, estando, portanto, residindo a 59 anos nesta pacata vila goiana. Se bem que, hoje em dia, a vila já não é assim tão pacata. Com seus mais de um milhão de habitantes, fora os moradores das cidades conubardas, Goiânia perdeu aquele encanto provinciano de décadas atrás. Sucessivos prefeitos, uma gente que odeia a cidade e seus habitantes, descaracterizaram o belo projeto urbanístico de Atílio Correia Lima. Aquela cidade ruizonha e amigável dios anos 60 não existe mais. Fróes se ressente disso. Quem não?
Goiânia tinha uma agitada vida cultural nos anos 60. O cinema de João Bennio, o teatro de Otávinho Arantes e Ceci Pinheirom de Hugo Zorzeti; a pintura de DJ Oliveira, Confaloni e Kleber Gouveia; a escultura de Maria Guilhermina e Ângelo Ktenas, a Poesia de Gabriel Nacente, Jesus jayme, Brasigóis Felício, Heleno Godoy e Yeda Schmaltz; os romances de Bernardo Elis, de Carmo Bernardo, de Eli Brasiliense. Tínhamos uma identidade cultural, apesar da censura às artes, apesar da ditadura, apesar de você!
O Cinco de Março, o valente semanário de Batista Custódio e Consuelo Nasser, era causa e consequência de toda aquela efervecência cultural. No meio dela foi parar Chico Fróes, irmão de Zé Fróes, pioneiro do motociclismo em nossa capital e garboso goleiro do Goiânia E. C. Nos tempos ainta do futebo amador transitando para o profissional. Zé Fróes foi companheiro de time de tio Orizon, centro-avante rompedor do galo carijó, morto ainda jovem sob as rodas de uma jamanta na BR-153.
Fróes gostava de desenhar. Leitor inveterado de HQ, reproduzia seus heróis favoritos: Batman, Cavaleiro Negro, Tarzan… toda aquela galera da finada Ebal, a maior editora de HQ que este país já teve. Foi aí que ficou conhecendo Waldomiro Santos, grande jornalistam extraordinário reporter do Cindo de Março, o único ganhador de um prêmio Esso em Goiás. Waldomiro era concunhado de José Fróes. Gostou do dezenho do menino Chico e levou-o para o Cinco de Março. Nas páginas do aguerrida gazeta de segunda-feira, as ilustrações e as caricaturas ficam por conta de Bosco Fontenele, que assinaa Boco F. Bosco tinha um desenho forte, vigoroso, típico da escola americana de cartoon publicitário. Era o ano de l969. O jovem Fróes recebia outras influências: Carlos Estevão, da revista o Cruzeiro, mas, sobretudo, a turna de um jornal que enrou em circulação naquele ano: O Pasquim. Froes recebeu forte influência de Ziraldo e de Juarez Machado.
Nas condições do Cinco de Março daquelea época o artista tinha que saber dezenhar mesmo, não exisitia todos esses truques baratos de computador, nem essas canetinhas manjadas que os dezenhistas de mangá adoram. Esboçava-se a lapis e finalizava-se a bico de pena ou pincel. Froes usava as célebres penas “mosquito”, por serem baratinhas e compráveis em qualquer papelaria. Usava nanquim natural, daqueles feitos de polvo e cheiram forte. Ainda não tinha esses “naquins” de acrílicos apenas levemente pretos. Retocava com guache branco. A gráfica do Cinco de Março não tinha sofisticação técnica para reproduzir efeitos de aguada, nem fazia aplicação de retículas. Era preto e branco absolutos.
Ainda hoje Fróes cultua o Preto e Branco. É no preto e branco que o artista mostra a sua verdade, seu talento, sua tarimba. Froes, no entanto, deixou para trás a pena mosquito. Prefere a prosaica esferográfica preta. Refinou de tal modo seus bonecos que nem precisa mais esboçá-lo. Vai direto para a arte final. Senta-se à frente da folha em branco, arma tudo na cabeça e dispara. No Cinco de Março Fróes ilustrava textos do caderno cutural e fazia cartoons para o suplemento Cultural, o Café de Esquina, que chegou a circular como um tablóide cheio de textos debochadíssimos produzidos pelo fantástico Phaulo Gonsalves, de saudosa memória.
O cinco de Março foi descontinuado por Batista Custódio, que fundou este Diário da Manhã que o gentil leitor tem às mãos. O humor de Fróes vai na linha da ironia não muito fina, com uma boa dose de maldade. Porque humor sem maldade é piadinha de salão, anedota para moças. Humor tem que ter veneno. Sófocles, em as Nuvens, mostrou como deve ser. Ali está caricaturado o grande sócrates, reduzido a um parlapatão ensinando coisas sem sentido prático e lapidando frases eloquentemente tolas. O chargista de jornal diário, herdeiro da tradição de irreverência de Sófocles, é quase um editorialista. Cabe-lhe denunciar a nudez do Rei, a ridicularizar as pompas vazias do poder, a escarnecer dos sábios que nada sabem, a zombar a seriedade posada dos pretensiosos. Não atacam a honra, mas a vaidade, que não é bem juridicamente tutelado.
Já houve tempo que ser chargista era ciorrer riscos. Em Goiás, então, o risco é grande. Os caricaturáveis de Goiás não gostam de ser objeto de escárnio dos chargistas. Mis de um figurão local pediu a cabeça de Fróes, ofendidos com a licenciosidade do artista. Mas no Brasil, sempre houve quem levasse na esportiva a zombaria dos chargistas, esta raça de víboras. Getúlio não só adorava ver-se caricaturado como colecionada charges que o tinham por tema. Adorava anedotas à clefe comprazia a contar algumas, rindo a bandeiras despregadas.
Certa feita, Fróes cometeu a temridade de chargear um figurão da ditadura militar em visita oficial a Goiânia. Trata-se do então ministro da Agirucultura Delfin Neto, de quem s dizia nada entender de plantação. Fróes desenhou o gordo ministro de cabeça para baixo, apoiando-se nas mãos. No balão aparecia Delfim declarando que sabia plantar, por exemplo, bananeira. O Ministro viu a charge e quis entrar em contatro com o insoltente desenhista. Queria adquirir o original, mãos para instruir uma ação penal, mas para metê-lo em moldura e pendurar na parede de sua bibilioteca. Delfim adorou a piada.
Do Diário da Manhã o chagista se mudou para O Popular, a convite de Domiciano Faria. Certa vez, temendo censura, entregou a charge diretamente ao diagramador. Levou bronca do editor Reinaldo Rocha. Bronquinha xocha. Reinaldo, sempre fidalgo, era incapaz de destratar subordnados. A charge, de resto, não provou terremoto. Depois Fróes passou para o trelejornalismo da TV Anahaguera, como letrerista e produtor de gráficos. Anda não exisita gerador de caracteres. Não achando muito sentido em uma função mecânica, burocrática, preferiu seguir carreira de cartunista free-lancer.
Neste meio tempo, Fróes ajudava a fundar, com outros jornalistas – o que me inclui, modéstia a parte – o glorioso Jornal de Deboche. O escrachado hebdomadário circulou em nove edições, entrando em recesso por tempo indeterminado. Deverá voltar em breve.
Frilanceiro muitos anos, Fróes andou pelo serviço público por alguns anos. Foi muito amigo de Henrique Santillo, cuja morte ainda hoje lastima. Nomeado ministro da Saúde, Santillo levou Chico Fróes para desenhar cartilhas educativas.
Hoje, com filhos criados e encaminhados na vida, paparciando netos e cuidando de seus cachorros, Froes continua desenhando charges todos os dias. Mesmo não as publicando, ele todo dia se exercita na charge. Agora Fróes está no Diário da Manhã, assinando diariamente a charge diária.

