Sobe e desce
Redação DM
Publicado em 26 de agosto de 2016 às 02:07 | Atualizado há 10 anosO cubículo de metal pendurado por um cabo de aço que alguém batizou de elevador não é o lugar mais prazeroso do mundo quando se vive em Goiás. Especialmente num duríssimo final de agosto. Tudo ferve – ainda que os últimos dias tenham sido menos quentes. Vida de ascensorista é dura. Seis horas fixas dentro de um espaço confinado, girando a pequena chave do painel para a entrada e saída de pessoas. Mais ou menos 15 minutos de autorização para utilizar o banheiro. Sempre a mesma visão de números que levam a andares que ela própria nunca pisa.
As condições são espartanas. Quando muito, há um pequeno tamborete sem encosto para as costas cansadas. O ar se renova apenas quando as portas se abrem. Muita gente diferente ingressa e saí. Gente excessivamente cheirosa a ponto de estar fedida. Gente que fala alto ou que soluça o excesso de alho do almoço. Algo é certo: a atmosfera interna do elevador quase sempre está empesteada. E quente para caramba.
O sistema imunológico precisa estar em dia. O fluxo de pessoas pode surpreender o organismo. Gente gripada. Espirro, tosse e saliva. Deixa o ar carregado. Pode causar algum contágio. Embora não se saiba de ninguém que tenha contraído meningite no elevador, o risco existe. Espanta que não seja obrigatório o uso de máscara. É uma profissão insalubre, exaustiva e embaraçosa. Especialmente se a profissional for daquelas moças privilegiadas pela natureza. Sempre há um sem noção para puxar assunto.
– Bom-dia!
– Bom-dia, senhor.
– Você viu o quanto o dia está lindo?
– Eu não saberia dizer, senhor.
– Por quê?
Nem toda pergunta merece resposta, certo? Acontece que o cara às vezes não desiste. Otimismo só é bom quando favorece as partes envolvidas. A perseverança do sujeito quase sempre é agonia da moça. O silêncio nem sempre é interpretado com a devida reserva – pode ser uma senha para que o cidadão insista no cortejo.
– Uma pena você não ver o dia.
– Agradeço a preocupação, senhor.
– O dia está tão lindo quanto você.
Neste exato ponto, faltam 20 minutos para a ascensorista ir para a casa. Três ônibus pela frente. Mais ou menos 18 quilômetros de distância de casa. Contando as baldeações e congestionamentos, algo como 1h30 de viagem. Isso nos dias bons. Se chover, a coisa complica. Pode até dobrar o tempo de transporte. Apesar do calor, da superlotação e da falta de banco para sentar, não há muito o que fazer além de aguardar. O que, convenhamos, não é exatamente fácil para que ficou o dia todo sentado, subindo e descendo andares.
O ônibus não a preocupa tanto quanto a pilha de vasilhas sujas do dia anterior. A casa deve estar suja. Provavelmente, culpa do asfalto que está sendo construído em frente ao portão do lar. Uma terra vermelha, encardida, que gruda em tudo. Não dá para colocar roupas no varal durante a semana. Mal secam e já estão sujas novamente. E sempre há o cara que decide chorar as pitangas no elevador.
– Admiro sua profissão.
– Obrigada, senhor.
– Quisera eu ficar o dia todo aqui, sentado, sem ter que correr atrás de clientes. Eles é que viriam até mim. Eu não teria de me preocupar em enfrentar trânsito. Ficaria quietinho. Sem mais nada a fazer. Teria meu salário na conta todo dia 10. Não dependeria de demandas, de praticamente implorar por serviço. Não enfrentaria o sol quente. Congestionamento.
– Temos vagas em aberto, senhor.
– Qual o salário?
– Mínimo, mais vale transporte.
– Entendo. Bom, foi um prazer falar com você…
Todo ascensorista deveria se candidatar ao posto do Dalai Lama. Exige uma paciência infinita, uma serenidade absoluta. É viver em meditação, embora a contemplação não vá além da sequência numérica. Talvez um “T” ou “G1” para quebrar a monotonia dos algarismos. Resta a esperança. Sempre. Apesar dos possivelmente inevitáveis trocadilhos infames.
– Moça, eu acho que entendo sua vida.
– Entende, senhor?
– Entendo. É cheia de altos e baixos…
(Victor Hugo Lopes, jornalista)